sábado, 2 de julho de 2011

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil

O primeiro comentário da contra-capa do "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" (Leandro Narloch - Editora Leya), é de Luiz Felipe Pondé, da Folha de São Paulo e autor de "Contra um Mundo Melhor", que mencionei aqui uns meses atrás:

"(...) Uma singular heresia perdida em meio ao mar de unanimidades".

Apesar do fato do livro de Pondé ser da mesma editora, o que poderia desqualificar o comentário, ele é verdadeiro. O livro é mesmo uma heresia contra um monte de coisas que foram enfiadas nas nossas cabeças desde o primário e tenta desmontar vários "fatos históricos" que damos por verdades incontestáveis, da atuação brasileira na Guerra do Paraguai à invenção do avião.

É, principalmente, um livro de história rebelde e sem o irritante viés social-esquerdista que 99 de cada 100 professores de história têm. Além disso, tem o mérito de permanecer já há 74 semanas na lista dos 10 livros de não-ficção mais vendidos da Veja e há 55 na do Estado de São Paulo.

Para ser sincero, acho que concentra demais as referências bibliográficas de alguns capítulos em poucos autores, o que enfraquece algumas teses, mas a construção da defesa de seus pontos de vista é boa e os artigos são muito interessantes e bem-humorados.

Vale a pena, seja para acumular assunto para o próximo happy-hour, seja para irritar a sua sogra professora de história ou socióloga no próximo almoço de domingo (o que não é o meu caso, diga-se de passagem).

quinta-feira, 16 de junho de 2011

14 de junho de 2011

Você foi embora.

Com você foram embora os cafés-da-manhã de sábado depois do barbeiro.

Você foi embora.

Foram embora as histórias de como eu era quando era pequeno e, com elas, um pedacinho da minha infância.

Você foi embora.

Acabaram-se os bombons na patinha.

Você foi embora.

E ninguém nunca vai descobrir a receita da torta de frango. Não que eu goste de torta de frango, mas era famosa.

Você foi embora.

Para quem eu vou telefonar para escutar reclamações de que eu nunca ligo?

Você foi embora.

E foi sem que eu pudesse lhe dar a última coisa que me pediu. Agora, a única coisa que posso fazer, é colocá-la aqui, em vez de sobre o piano, onde você certamente a colocaria:



Você foi embora.

E ele chorou. E a última coisa que disse antes de dormir neste dia triste foi:
- Mas eu gostava dela. Porque ela não se despediu de mim?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O Retrato de Dorian Gray

Existem muitos escritores bons, existem alguns muito bons, mas existem alguns poucos que escrevem verdadeiras obras de arte. Depois de ler "O Retrato de Dorian Gray" eu passei a considerar Oscar Wilde realmente digno desta última categoria.

O livro conta a estória, já bem conhecida, de um jovem aristocrata inglês (Dorian Gray), dono de uma "beleza extraordinária", que tem seu retrato pintado por um amigo (Basil Hallward). Ao ver a obra pronta e dar-se conta de que ela imortaliza uma beleza que está condenada a decair e desaparecer, Dorian se desespera:

"Se fosse o contrário! Se eu pudesse ser sempre moço, se o quadro envelhecesse!... Por isso, por esse milagre eu daria tudo! Sim, não há no mundo o que eu não estivesse pronto a dar em troca. Daria até a alma!"
 
Ocorre que o desejo de Dorian se realiza e o quadro passa não só a envelhecer, como a refletir toda a sua personalidade, enquanto o seu próprio rosto permanece inalterado ao longo dos anos. Torna-se, por assim dizer, um espelho de sua alma.
 
A fixação de Dorian com a beleza tem origem na influência de um amigo de Basil, Lord Henry Wotton, que é de longe o personagem mais interessante do livro: também aristocrata, mas extremamente cínico e que sente imenso prazer em manipular a personalidade de Dorian, trazendo-o para a sua própria filosofia hedonista de vida.

Lord Henry é responsável por uma série extraordinária de aforismos e é nas cenas em que ele debate onde a genialidade de Oscar Wilde fica evidente. Fiz uma pequena coletânea de alguns dos melhores insights de Lord Henry ao longo do texto, para exemplificar e aguçar a curiosidade pelo livro:

- Sobre beleza e inteligência: "There is a fatality about all physical and intellectual distinction (...). It is better not to be different from one's fellows. The ugly and the stupid have the best of it in this world. They can sit at their ease and gape at the play. If they know nothing of victory, they are at least spared the knowledge of defeat."  

- Amizades: "I choose my friends for their good looks, my acquaintances for their good characters, and my enemies for their good intellects."

- Influências: "There is no such thing as a good influence (...). All influence is immoral - immoral from the scientific point of view"
- Empatia: "I can sympathize with everything, except suffering."

- Humanidade: "Humanity takes itself too seriously. It is the world's original sin. If the caveman had known how to laugh, history would have been different."
- Valores: "Nowadays people know the price of everything, and the value of nothing".

- Casamento: "Men marry because they are tired; women, because they are curious: both are disappointed."

- Pais e filhos: "Children begin by loving their parents; as they grow older they judge them; sometimes they forgive them."

- Bondade: "When we are happy, we are always good, but when we are good, we are not always happy."

- Pecados: "For all sins, as theologians weary not of reminding us, are sins of disobedience. When that high spirit, that morning star of evil, fell from heaven, it was as a rebel that he fell".

O segundo esporte preferido de Lord Henry é justamente a elaboração destes pensamentos; criar aforismos a partir de praticamente nada. Como explicado em uma passagem: "He played with the idea and grew wilful; tossed it in the air and transformed it; let it escape and recaptured it; made it iridescent with fancy and winged it with paradox."

O primeiro, entretanto, é ver como os seus pensamentos influenciam, manipulam e mudam as pessoas; como eles tocam "notas nunca antes tocadas" no interior de seus interlocutores e como estes acabam por interiorizá-los e aceitá-los como verdades absolutas sobre a vida. Mas sua obra prima é justamente a deformação da personalidade de Dorian Gray, que vamos acompanhando página por página.

Enfim, o livro é realmente fantástico. Foram poucas as vezes em que peguei algo tão bom para ler. Na minha humilde opinião, o Sr. Wilde merece, sim, sua fama e seu lugar entre os maiores escritores da língua inglesa.

OBS: A filosofia hedonista e de culto à beleza que Dorian Gray acaba rapidamente por adotar, lembra muito o modelo de vida apresentado por "A" na obra Either/Or do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (http://en.wikipedia.org/wiki/Either/Or). Na verdade, em algumas passagens, como no episódio de Sybil Vane, ou nas descrições de sua busca incessante por novas sensações, a semelhança é notável. Encontrei um artigo interessante sobre esta abordagem em:
 http://revistaliter.dominiotemporario.com/doc/Literatura_e_filosofia_Jacqueline_e_JassonREVISADO-1.pdf.

Em tempo: a maldição do pobre Dorian Gray permanece até hoje. Algum gênio do cinema resolveu incluí-lo com o "imortal" de "A Liga Extraordinária", uma das maiores bobagens que Sean Connery já fez, interpretado por Stuart Townsend.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Contos da Montanha

Miguel Torga (pseudônimo de Adolfo Correia Rocha), foi um escritor português nascido em 1907 e criado nas serras portuguesas. Eu havia ganhado um de seus livros de contos vários anos atrás, chamado “Contos da Montanha”, mas ele andava esquecido na estante e só peguei para ler um dia desses.

Gosto bastante de livros de contos, pois normalmente os leio em paralelo com obras mais longas ou pesadas para dar uma arejada e gostei muito de “Contos da Montanha”. Todos os contos do livro giram em torno da vida de habitantes de pequenas aldeias nas serras de Portugal e vão dos trágicos aos bem-humorados, mas são invariavelmente interessantes, intensos e é muito difícil largar um no meio.

É verdade que são escritos seguindo a fala da região no início do século passado, o que faz com que seja necessário reler parágrafos com freqüência, mas é justamente este um dos fatores que torna o livrinho tão diferente e bom de ler, além de ajudar a compor o cenário para as situações vividas pelos personagens e também colaboram com o humor, por vezes involuntário, de algumas passagens.

Abaixo alguns dos melhores contos do livro na minha opinião (dois deles estão disponíveis na íntegra em um blog chamado “Contos de Aula” e anexei os links):

- A Paga
- O Lugar de Sacristão - http://contosdeaula.blogspot.com/2007/05/o-lugar-do-sacristo.html

Para quem se interessar, há também o livro inteiro disponível no Scribd (http://pt.scribd.com/). Recomendo.

sábado, 9 de abril de 2011

O castelo nos Pirineus

Uma das boas coisas do sábado de manhã é o caderno Sabático do Estadão. Sempre traz algumas resenhas ou comentários sobre livros novos e dá para descobrir muita coisa boa. Por indicação do caderno, eu fiquei sabendo do lançamento e comprei "O castelo nos Pirineus" de Jostein Gaarder, autor norueguês de "O Mundo de Sofia" (que vendeu pacas no Brasil uns 10 a 15 anos atrás) e de "O Dia do Coringa" (que não fez tanto sucesso por aqui, mas que eu achei muito melhor que o primeiro).


O "castelo nos Pirineus" tem um estilo diferente de narrativa: é um romance epistolar, em que a estória vai sendo contada através das trocas de e-mails entre os dois personagens principais: Solrun (isso é nome de mulher, ok?) e Stein, que tiveram um romance intenso quando eram estudantes universitários, mas que se separaram por conta de um episódio traumático, inexplicável e que só é descrito lá para o final do livro.

Mais de 30 anos depois da brusca separação, eles se encontram por acaso, já casados e com suas próprias famílias, em um hotel norueguês e decidem iniciar uma troca de e-mails para discutir o ocorrido, sobre o qual cada um tem uma abordagem radicalmente oposta: enquanto Stein é um cientista absolutamente racional e cético, Solrun é uma pessoa profundamente espiritualizada.
O livro é curto, com menos de 180 páginas e pode ficar um pouco chato em alguns trechos, mas é uma leitura interessante e vale a pena resistir até o final. O título "O castelo nos Pirineus" vem de um quadro do belga René Magritte (http://pt.wikipedia.org/wiki/Magritte), que mostra um castelo sobre um rochedo, flutuando no ar e que é uma metáfora para o tal evento inexplicável que causou a separação de Solrun e Stein. Segundo o Leo, "parece o castelo do tio da Zoe, dos Caçadores de Dragões".

Obs.: Voltando um pouco ao assunto dos podcasts, um outro que encontrei e gostei do que ouvi até agora, é o canadense Books You Should Read (BYSR). A qualidade dos episódios oscila, mas como são muitos, tem coisa boa no meio e dá para escolher baixar apenas os assuntos que lhe interessam. Os apresentadores mudam dependendo dos episódios e tem um cidadão lá que é um completo mentecapto, mas dá para ignorar os comentários dele e se concentrar nos entrevistados e nos outros colaboradores do podcast. Embora deva dar um desconto pro cara por causa do que ele diz sobre "O Alquimista" - é hilário.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Platão, o "Admirável Mundo Novo" e um congestionamento

Uns dias atrás assinei o podcast de um programa semanal da rádio australiana ABC chamado "The Philosopher's Zone". É, é estranho mesmo, mas surpreendentemente bom. Discute "o mundo da filosofia e o mundo através da filosofia" e aborda temas muito variados, dos clássicos até atualidades como Wikileaks ou bio-tecnologia. Vale a pena. O site é: http://www.abc.net.au/rn/philosopherszone/, mas o podcast pode ser encontrado na iTunes Store. Infelizmente, o podcast não inclui todos os episódios (hoje, por exemplo, só há 8 disponíveis), mas no site dá para baixar todos, desde 2005, além de ser possível ler as transcrições na íntegra.

Bom, como só haviam 8 episódios no podcast e o trânsito em São Paulo anda um troço bisonho, assinei também um outro chamado "Philosophy: The Classics". Este parou de ser atualizado em 2007, mas há 17 episódios disponíveis, baseados em capítulos do livro homônimo de Nigel Warburton. Também é muito bom. Os áudios são focados nos clássicos, como Platão, Kant, Rousseau e Descartes e são muito claros e bem gravados. O site de referência é: http://www.virtualphilosopher.com/.

O primeiro episódio de "Philosophy: The Classics" é sobre Platão. Narra os conceitos básicos de uma forma, como disse, bem clara. São interessantes e um pouco chocantes os conceitos e idéias que formam o modelo de sociedade utópica apresentada por Platão em "A República", com os quais eu só havia tido um contato breve durante as aulas de filosofia do colegial, mas que agora adquirem contornos muito diferentes.

Uma das coisas que me chamaram a atenção, talvez influenciado pelo excesso de CO2 no congestionamento da Av. Brasil desta noite, foi a semelhança entre sua utopia com a distopia apresentada por Aldous Huxley em "Admirável Mundo Novo". Se você já leu, ouça ao podcast e confira (mais fácil que ler "A República").

Mas só para ter certeza de que eu não estava viajando na maionese e escrevendo uma asneira, resolvi usar o Google Scholar e pesquisar esta correlação (se nunca usou, experimente também: http://www.scholar.google.com/) . E não é que existe mesmo? Encontrei uma dissertação de mestrado da UFRGS de 2009 de Maurício Moraes Wojciekowski (esse sobrenome conseguiu sobrecarregar o corretor ortográfico do Word...), que trata exatamente deste tema, em: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/17521. Caso já tenha tido algum contato com "A República" e o "Admirável Mundo Novo", acho que vale a pena dar uma lida, mesmo que seja nas tabelas comparativas do final do trabalho. Acabo de fazê-lo e vou dormir feliz, sabendo que o CO2 ainda não fritou meus últimos neurônios.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Ken Follett e o "Mundo Sem Fim"

Existem alguns escritores que escrevem em escala industrial. Eles publicam tanto, que acho que a única explicação é terem uma bela equipe por trás, fazendo pesquisa e escrevendo boa parte dos textos. Uns exemplos são: Tom Clancy, John Grisham e Ken Follett.

Enquanto Clancy é especializado em livros de espionagem e ações militares e Grisham é especializado em livros sobre advogados e processos, Ken Follett é algo à parte. Ele escreve sobre temas absolutamente díspares e em geral o faz de forma muito competente, mas prefiro os seus romances históricos.

Acabo de ler "Mundo Sem Fim", que é um desses romances. O livro se passa algumas gerações após "Os Pilares da Terra", durante o século XIV (época da Peste Negra e de umas das várias guerras entre Inglaterra e França), na cidade fictícia de Kingsbridge na Inglaterra e envolve um grupo de 5 personagens principais: um arquiteto/construtor, um cavaleiro, um monge, uma camponesa e uma "médica", cujas vidas vão se entrelaçando ao longo do texto. A trama é muito bem concebida e complexa o suficiente para não ser possível condensar em um filme e muito menos resumir aqui. Basta dizer que é muito boa e faz valer a pena as mais de 900 páginas da versão em português.
Além disso, as descrições dos costumes da época, das cenas de batalha, das disputas jurídicas, dos detalhes de arquitetura, das particularidades da medicina e do comércio são cuidadosas e detalhadas, colaborando muito com a verossimilhança da estória, de modo que mesmo que o leitor não goste da trama, certamente acaba pelo menos aprendendo algumas coisas novas e não vai ficar com a sensação de ter perdido seu tempo com o livro.

E é isso que é interessante no caso de Ken Follett. Ele pode escrever livros bons e longos, que obviamente demandaram muita dedicação e pesquisa, como pode escrever livros absolutamente descartáveis. Vai, então, a minha classificação pessoal sobre os que li:

- "Noite Sobre as Águas" - mediano;

- "Código Explosivo" - descartável (não consigo nem me lembrar direito do que se tratava, o que é um mau sinal);

- "O Homem de São Petesburgo" - médio para bom, embora a trama tenha algumas coincidências infantis, do tipo de novela mexicana, que seriam bem dispensáveis;

- "O Vôo da Vespa" - descartável, também.

- "O Buraco da Agulha" - pelo menos bom, mas como já li há muito tempo, posso estar sendo injusto e pode ser ótimo. Mas sei que merece ser lido de novo.

Ken Follett tem um site oficial, onde pode-se ler os primeiros capítulos dos livros e identificar os títulos e editoras em cada país. É o: http://www.ken-follett.com/

Ainda não li o mais recente "Queda de Gigantes", mas só ouvi falar bem por enquanto. Assim que ler, digo o que achei. Mas, pelo tamanho, vai demorar um bocado.