sábado, 8 de outubro de 2011

Thanks, Steve!

No dia 25 de dezembro de 1985 meu presente foi uma caixa de papelão ondulado com uma maçã impressa e um Apple II+ (http://pt.wikipedia.org/wiki/Apple_II%2B) dentro. Naquela época, tempo da reserva de informática no Brasil, o Apple II+ era fabricado aqui mesmo, pela Milmar em Manaus, no caso do meu. Havia também produção do Apple IIe pela Microdigital e recebia o nome de TK-3000 (http://pt.wikipedia.org/wiki/TK3000_IIe), mas que era bem mais difundido.

A primeira lembrança que eu tenho de quando o tirei da caixa foi a seguinte: “Onde é que eu vou ligar essa porcaria de tomada de 3 pinos?”. Dá para imaginar a frustração, especialmente por ser Natal e estar tudo fechado em São Paulo. Mas como criança nasce sabendo que pentelhar bastante os pais resolve qualquer parada, convenci o meu a atravessar a cidade até o consultório dentário da minha mãe para desmontar uma das tomadas 220V dela e instalá-la no meu quarto.

Ato contínuo, o computador foi ligado e a paixão começou. O Apple era ligado a uma TV branco-e-preta de 14” de válvula, que levava cerca de um minuto para esquentar e começar a exibir imagens (se bem que, mesmo assim, ainda era mais rápido de ligar do que o PC com Windows 7 que uso agora).

Passei as primeiras semanas de 1986 destrinchando o manual e digitando os programas de exemplo em Basic que vinham com ele. Como não tinha um drive de floppy, tentei usar um rádio-gravador Sharp mono ligado na entrada e saída de áudio do Apple para poder gravar os programas, mas a qualidade do gravador e do cabo eram péssimas, nunca chegou a funcionar.

As coisas melhoraram quando ganhei, uns meses depois, um gravadorzinho especial para computadores que a Gradiente produzia para a linha MSX deles (Lembra dos Expert e Hot-bit?). Com ele já conseguia gravar os programas em fita e também pude começar a comprar algumas da Engesoft, com programas mais sofisticados já prontos.

Em novembro de 86, quando fiz 12 anos, ganhei uma caixa prata enorme da Elebra. O que tinha dentro? Um drive de floppy 5 1/4" modelo Horácio, com a placa de interface. Era um treco grande, barulhento, lento, que só lia uma face do disco, mas que funcionava bem demais e nunca me deixou na mão. Infelizmente, eu fiz a besteira de trocar uns anos depois por um modelo slim da Unitron usado, que era bem mais silencioso e lia as duas faces, mas que tinha um problema na porta e vivia falhando. Tinha, não. Tem. E vivia, não. Vive. Se arrependimento matasse...

Em 87 um dos meus amigos usuários de Apple mudou para os EUA e me vendeu sua impressora matricial Epson LX-800 antes de viajar. Se o Horácio era barulhento, a Epson era trezentas vezes pior, mas para mim era um show. Imprimia de tudo: de trabalho de escola até anúncio de bailinho no condomínio. Feito com Print Shop e impresso em papel colorido, está pensando o quê?

Eu era fissurado: comprava as revistas importadas sobre os computadores da Apple (lia Nibble, InCider, A+); comprava as Input brasileiras e xingava porque quase tudo era para TK; comprava livros de Visicalc, Basic, Logo e programação de jogos; e cheguei ao fundo do poço quando comprei um software de programação Assembly chamado LISA e um livro sobre Assembly para o 6502.

Em 89 a coisa mudou. Comprei um PC-XT usado e o Apple foi para o armário, de onde só sai em ocasiões especiais. Como fez na quarta-feira passada, dia 05 de outubro de 2011, para tirar sua última fotografia. O dia em que finalmente entendi como foi, para a geração de meus pais, perder John Lennon.



domingo, 28 de agosto de 2011

O argumento da simulação

Na última quinta-feira eu voltei para casa ouvindo uma entrevista de um professor da faculdade de filosofia de Oxford, Nick Bostrom, sobre um de seus artigos: "Are you living in a computer simulation?", publicado originalmente em Philosophical Quaterly (2003) Vol. 53, No. 211. A entrevista foi curta, mas muito boa e acabei baixando e lendo o artigo original.

O que segue é um resumo das ideias apresentadas no artigo, sendo que devo esclarecer que o crédito por tudo que for apresentado a partir do próximo parágrafo é do Sr. Bostrom, numa tradução livre minha. Devo também esclarecer que, ao contrário do que possa aparentar, eu não estou maluco o suficiente para acreditar na hipótese proposta (nem o Sr. Bostrom, como deixou claro na entrevista), mas é um exercício interessante e traz algumas conseqüências e deduções não-triviais que valem a leitura.

A argumentação do artigo é a de que pelo menos uma das três proposições a seguir é verdade: (1) a espécie humana tem uma alta probabilidade de ser extinta antes de atingir um estágio "pós-humano" de evolução (não se aflija; o termo "pós-humano" será explicado a seguir); (2) qualquer civilização pós-humana apresenta uma probabilidade extremamente baixa de executar simulações computacionais de sua história evolutiva ou variantes; (3) é quase certo que nós estamos vivendo em uma simulação computacional.

Para efeito do artigo, o estágio pós-humano de civilização é aquele em que a humanidade já terá adquirido a maior parte das capacidades tecnológicas que seriam possíveis de se obter dentro das limitações das leis da física, da disponibilidade de materiais e da disponibilidade de energia a que está sujeita.

Existem pelo menos duas premissas básicas que precisam ser aceitas para que a discussão possa se desenvolver: a primeira é a da "independência de substrato", que é o conceito comumente aceito na filosofia da mente (não sem deixar de gerar alguma controvérsia), que propõe que estados mentais conscientes poderiam emergir em um grupo amplo de substratos além das redes neurais naturais do cérebro, como, por exemplo, em sistemas computacionais suficientemente complexos.

A segunda é de que, apesar de atualmente não dispormos de hardware ou software suficientemente poderosos para possibilitar a criação de mentes conscientes em computadores, há argumentos bastante persuasivos de que se o progresso tecnológico continuar, estas limitações serão eventualmente superadas (e assim estarão no estágio pós-humano de evolução). O artigo apresenta uma estimativa detalhada da capacidade de processamento necessária para se rodar uma simulação realista de toda a história mental da humanidade (ao que chama de "simulação de ancestrais") e conclui que esta capacidade de processamento estará eventualmente disponível, mesmo com base apenas no que nós já sabemos sobre projetos com nanotecnologia. Uma civilização pós-humana poderia, portanto, construir um número muito grande destes computadores e estaria a seu alcance rodar simulações de ancestrais consumindo uma parcela bastante pequena dos recursos computacionais à sua disposição.

Consideradas estas duas premissas, podemos passar agora ao núcleo da argumentação do artigo: Se há uma chance considerável de que nossa civilização um dia atingirá o estágio pós-humano e rodará simulações de ancestrais, você não estaria vivendo em uma destas simulações? Esta ideia foi desenvolvida com base na argumentação abaixo:
Considerando-se que (desculpem pela notação pouco rigorosa, mas estou redigindo em html puro e não sei como conseguir subscritos, sobrescritos, etc.):

Fp = Fração de todas as civilizações tecnológicas do nível da humanidade que sobrevivem o suficiente para chegar a um estágio pós-humano;

N = Número médio de simulações de ancestrais executadas por uma civilização pós-humana;

H = Número médio de indivíduos reais que viveram em uma civilização antes dela atingir o estágio pós-humano (ou seja, o número de ancestrais);

Teríamos que a fração de observadores simulados (Fsim) com experiências humanas que vivem em simulações é igual a:

Fsim = (Fp * N * H) / [(Fp * N * H) + H]

Utilizando-se agora Fi para indicar a fração de civilizações pós-humanas que estariam efetivamente interessadas em rodar simulações de ancestrais (ou que contenham pelo menos alguns indivíduos interessados e com recursos suficientes para rodar um número significativo destas simulações), e Ni para o número médio de simulações rodadas por estas civilizações, teríamos:

N = Ni * Fi

Fsim = (Fp * Ni * Fi * H) / [( Fp * Ni * Fi * H) + H)]

e portanto:

Fsim = (Fp * Ni * Fi) / [( Fp * Ni * Fi) + 1)]

Ou seja, pelo menos uma das três proposições deve ser verdade:

(1) Fp = 0 (a notação correta é "aproximadamente igual a 0")
(2) Fi = 0 (a notação correta é "aproximadamente igual a 0")
(3) Fsim = 1 (a notação correta é "aproximadamente igual a 1")

Como pode-se ver, estas três possibilidades correspondem às três proposições iniciais do artigo. Vamos avaliar, portanto, o que significariam cada uma delas:

Se (1) for verdade, significa que a humanidade seria muito provavelmente extinta antes de atingir o estágio de desenvolvimento pós-humano (o que, me parece, pode efetivamente acontecer ).

Para que (2) seja verdade, é necessário que haja uma enorme convergência no curso da história de civilizações avançadas que as levem a não se interessar absolutamente por estas simulações, ou bani-las, por exemplo por razões éticas ou morais.

Já a proposição (3) é a mais intrigante e perturbadora, pois, se verdadeira, implicaria que a chance de você ser um ser humano simulado em uma simulação de ancestrais seria de praticamente 100%, com todas as demais conseqüências:

- A física do universo em que o computador rodando a simulação se situa pode ser ou não ser análoga à do mundo que observamos;

- Apesar de percebermos o mundo como "real", ele não estaria localizado no nível fundamental de realidade;

- Seria possível para uma sociedade simulada se tornar pós-humana? Se sim, o computador rodando a simulação original teria capacidade para empilhar uma segunda ou terceira camadas de simulação ou o programa precisaria ser encerrado antes deste estágio ser atingido? (afinal a necessidade de processamento cresceria exponencialmente para se simular uma civilização pós-humana);

- No caso de sua morte dentro da simulação, a sua consciência poderia ser transferida para uma nova simulação, não poderia? Vida após a morte?

- Os indivíduos executando a simulação teriam onisciência e onipotência sobre ela e seriam capazes de intervir recompensando ou punindo comportamentos, talvez com base em critérios morais. Em função da incerteza fundamental que permeia o pensamento desenvolvido neste artigo, mesmo a civilização-base original teria então razões para se comportar eticamente. O fato de que haveria uma razão forte como esta para o comportamento moral poderia, portanto, gerar um círculo virtuoso e, em última instância, uma espécie de imperativo moral universal.

Devidamente compreendida, portanto, a possibilidade de (3) ser verdade não deveria nos fazer "ficar malucos" ou largar nossos trabalhos e planos para o futuro. A principal importância empírica de (3) parece estar no seu papel quando consideradas as outras duas alternativas. Podemos esperar que (3) seja verdade, pois reduziria a possibilidade de (1), mas, como as restrições computacionais fazem com que seja provável que uma simulação seja abortada antes de atingir o estágio pós-humano, nossa melhor esperança seria de que (2) seja a hipótese verdadeira.

De qualquer modo, a não ser que nós estejamos realmente vivendo em uma simulação, nossos descendentes quase que certamente jamais rodarão uma simulação de ancestrais.

Alguns links sobre o assunto:

Nick Bostrom: http://www.nickbostrom.com/

Artigo "Are you linving in a computer simulation?": http://www.simulation-argument.com/

Entrevista (disponível em mp3): http://philosophybites.com/2011/08/nick-bostrom-on-the-simulation-argument.html

Finalmente, se você gostou deste texto, dê uma olhada no que escrevi sobre a hipótese de Boltzmann em: http://paginaemblanco.blogspot.com/2009/07/boltzmann-e-dilbert.html

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dia dos Pais

Mais uma vez o presentinho do Leo de Dia dos Pais prova que ele está no caminho certo para ser o novo Leonardo da Vinci:



Bom, o desenho pode não estar lá uma Mona Lisa, mas que ele escreve ao contrário como o da Vinci, isso escreve!

Feliz dia dos Pais (atrasado)!

sábado, 6 de agosto de 2011

O horror! O horror! Coração das Trevas e Apocalypse Now

"Coração das Trevas" (Heart of Darkness), de Joseph Conrad é um livro publicado originalmente em 1902, que narra a viagem de Marlow, um marinheiro inglês, por volta de 1890 no Congo Belga, em busca de um negociante de marfim chamado Kurtz. Apesar de continuar mandando grandes remessas de marfim regularmente, Kurtz está há tempo demais sem contato com a sua empresa contratante e Marlow comanda um barco a vapor pelo Rio Congo, a sua procura. Em boa parte, o livro é uma versão paralela de uma viagem que o próprio Conrad (que era marinheiro), fez pelo mesmo rio.



É um clássico que eu nunca havia lido antes, mas que peguei durante uma semana de férias em julho. Basta dizer que é fantástico. Está dividido em 3 partes, sendo que na primeira Marlow conta como foi contratado pela companhia para ser capitão de um barco a vapor no Rio Congo e seus primeiros meses na África; a segunda narra sua viagem complicada pelo rio até chegar à base de Kurtz; e a terceira finalmente descreve seu encontro com ele.

Visto apenas como uma narração de viagem, o texto já é espetacular, mas é a forma como evolui e como os personagens vão mudando ao longo da estória, bem como as questões éticas e morais envolvidas que fazem com que seja realmente excepcional. Imagine um sonho, em que as seus sentidos e percepções começam normais e aos poucos vão perdendo a lógica e a coerência (inclusive temporal), até que evolui para um pesadelo surreal. É mais ou menos esta a sensação que tive ao ler "Coração das Trevas".

O final do livro, em especial o encontro de Marlow com Kurtz, me deixou com uma sensação estranha de já ter visto a cena em algum lugar e aos poucos fui associando com o final de "Apocalypse Now". Bom, a Blockbuster não tinha o filme para alugar, então comprei uma cópia. Vou reproduzir aqui a sinopse da caixa:

"A história se passa em 1969 e acompanha a viagem do capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) rumo ao universo paralelo e perturbador do coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) (...)"

Kurtz e Kurtz? Dãã. E eu achando que tinha feito uma associação muito esperta. Mas continuei:

"(...) Baseado no livro de Joseph Conrad, Heart of Darkness, Apocalypse Now explora a insensatez, a insanidade, e o dilema moral da Guerra do Vietnã".

Ou seja, descobri o óbvio que todo mundo já sabia: Coppola fez uma versão do livro para o cinema. Pelo menos eu tenho a desculpa de que só tinha 5 anos quando o filme foi lançado, então não era obrigado a saber. Mas resolvi assistir a "Apocalypse Now" de novo, para comparar. O paralelo é nítido:

O choque de duas culturas diferentes; a dificuldade de Willard, assim como de Marlow em fazer o seu trabalho em um lugar em que ninguém parece levar nada a sério; a óbvia viagem por um rio numa selva hostil; o ataque com flechas aos barcos de ambos; o Arlequim; as cabeças; o horror.

Não vou entrar nos detalhes para não estragar o livro ou o filme para quem não viu, mas várias das falas são exatamente as mesmas e a semelhança deixa a experiência de ver o filme logo após a leitura do livro muito interessante.

Assim como dizer que "Coração das Trevas" é ótimo, elogiar "Apocalypse Now" é chover no molhado, mas a idéia de Coppola de pegar o livro e adaptar desta forma é uma prova de genialidade e merece os aplausos, Oscars e a Palma de Ouro que recebeu. Mesmo as cenas que não têm equivalência com passagens do livro são sensacionais, como o ataque de helicópteros ao som de "Cavalgada das Valquírias" ou a do encontro com o tigre. Difícil dizer o que é melhor: o livro ou o filme.

Fica a recomendação para a leitura de "Coração das Trevas", mas não deixe de ver "Apocalipse Now" logo em seguida. A experiência é única. E um desafio: veja se consegue identificar Harrison Ford e Laurence Fishburne no filme.

domingo, 31 de julho de 2011

O Filósofo e o Imperador

Durante um período de cinco anos, Aristóteles viveu na Macedônia e atuou como tutor de Alexandre (na época com 13 anos), a pedido de seu pai, Filipe II. A relação entre Aristóteles e o Alexandre adolescente é o foco do romance "O Filósofo e o Imperador" (originalmente "The Golden Mean") de Annabel Lyon (editora Leya). 

É um tema bom e poderia dar um livro excelente, mas não é o caso. Apesar da capa fantástica e dos detalhes históricos bem amarrados pela autora, o texto simplesmente não engrena e parece ralo e superficial. Pode ser que estivesse um pouco mais rabugento que o normal quando li, mas a impressão que fiquei foi com a de um Aristóteles banana sem ter muito o que dizer e um Alexandre que lembra mais a mala-sem-alça Bella Swan em crise existencial do que o imperador do título.

Tudo bem, não é mole mesmo apresentar filosofia em formato de romance, mas temos aí "Quando Nietzsche Chorou" (de Irvin D. Yalom - Ediouro), que é muito melhor, mesmo se passando em um momento histórico longe, mas longe demais de ser tão interessante quanto o do encontro entre Alexandre e Aristóteles.

O ponto de vista de "O Filósofo e o Imperador" é o de Aristóteles e a própria autora recomenda a leitura de "Fire from Heaven" de Mary Renault (1969) para um relato do ponto de vista de Alexandre. Vou tentar encontrar o livro e ver se é melhor, mas este aqui é, no máximo, mediano (no mal sentido, não no sentido aristotélico).

domingo, 17 de julho de 2011

Crianças e Moral

Crianças são especialistas em fazer perguntas complicadas. Ontem o Leo me apareceu com várias, mas uma delas chamou mais a minha atenção: "Papai, porque o Anakin virou do mal?".

Antes que alguém possa começar a pensar que eu sou um sem-noção que deixa uma criança de 4 anos assistir "A Vingança dos Sith", explico que a pergunta veio depois de completarmos juntos o Episódio III do Lego Star Wars. Ou seja, sem sangue nem nada do gênero.

Mas voltando à pergunta, ela é interessante porque demonstra bem a fase pela qual ele está passando: até alguns meses atrás ele não tinha ainda preocupação com a noção de "mal". Não sei se é uma conseqüência de uma super-proteção que nós criamos em torno das crianças atualmente, mas o fato é que ele ficou genuinamente espantado quando começamos a ler contos dos Irmãos Grimm, onde existe a figura do antagonista, do inimigo do personagem principal, banido dos livrinhos infantis mais "modernos" (incluindo nesta categoria algumas imbecilidades homéricas como "Da pequena toupeira que queria saber quem tinha feito cocô na cabeça dela" - dá para acreditar que esse livro existe?).

Também não foi diferente quando, de repente, ele passou a se interessar por desenhos animados fora da bolha do Discovery Kids. Uma constante na maioria dos desenhos do Discovery Kids é justamente a completa ausência da imagem do mal, do inimigo (com a louvável exceção de "Lazy Town"), e foi interessante ver a reação dele quando assistiu aos primeiros desenhos do Pica-Pau com o Zeca Urubu.

Esse tipo de observação levanta uma questão maior bem interessante: as crianças já nascem com algum discernimento entre certo e errado, ou entre bem e mal? Ou seja, esta noção é inata ou é aprendida com a experiência?

Eu costumava achar que não, até o Leo nascer. Minha opinião seguia a linha da Tabula Rasa de John 
Locke, que diz que não existiriam idéias inatas. Entretanto, conforme você observa uma criança pequena se desenvolvendo, fica nítido que elas têm, sim, uma noção bastante clara de certo e errado, de empatia e moral, desde o início, mesmo que a noção de Mal com M maiúsculo, ainda não esteja presente.

No caso da empatia existe, por exemplo, um estudo interessante conduzido por um pesquisador chamado Felix Warneke da universidade de Harvard e comentado pela filósofa e professora de psicologia Alison Gopnik numa entrevista sobre seu livro "The Philosophical Baby" , que observou o seguinte (numa tradução livre):

"Por volta dos 15 meses há evidências de que os bebês tentam ativamente fazer outras pessoas felizes (...). O que Felix Warneke fez foi mostrar a crianças de 15 meses uma pessoa jogando um lápis no chão ou derrubando acidentalmente um lápis no chão. Em ambos os casos, o lápis caía em um local em que a pessoa não conseguiria alcançá-lo. O que se descobriu foi que as crianças engatinhavam e se esforçavam para pegar o lápis e devolvê-lo à pessoa se ele houvesse sido derrubado "acidentalmente", mas não se ele tivesse sido deliberadamente jogado ao chão, como se o adulto não o quisesse."

Ok. Então existe pelo menos uma indicação de que realmente nascemos com alguma capacidade para empatia. Mas e com relação à questão mais complexa da moral? Novamente, quem tem filhos certamente já notou a capacidade de crianças pequenas, de 3 anos ou menos, de saber com clareza o que é certo ou errado em uma situação ou até mesmo de sentir remorso quando agem de forma errada propositalmente. Então as crianças já nascem com algum sentido moral? Existe alguma base moral universal?

O professor John Mikhail da universidade de Georgetown acredita que sim, que crianças com 4 ou 5 anos já são "advogados intuitivos" e conseguem realizar julgamentos com base em conceitos surpreendentemente complexos, como o de "intenção", que é algo que não apenas os adultos consideram em seus julgamentos, mas também os sistemas legais levam em conta. Como demonstração da universalidade de um conceito a que batizou de Gramática Moral e que corresponderia a esta base moral universal, Mikhail citou o seguinte exemplo em uma entrevista ao programa Philosophy Bites (também em uma tradução livre):

"É frequente o caso em que a pessoa sabe o que é a coisa certa a vez em uma determinada situação, mesmo que jamais tenha se deparado com esta situação específica (...). As pessoas podem ter a ilusão de que o julgamento moral é produzido pela aplicação consciente de regras e princípios, mas não parecer ser o caso na maior parte das situações. Nós não temos consciência clara das regras e princípios usados ao fazer julgamentos morais (...). É o caso em exemplos chamados "problemas do bonde", dilemas morais apresentados a pessoas que podem ser até bizarros ou inverossímeis, mas que levam a um resultado surpreendentemente homogêneo, ao redor do mundo, sobre qual seria a conduta aceitável em uma dada situação (...):

[No primeiro exemplo] há um bonde desgovernado que está para atropelar e matar cinco pessoas em uma plataforma e há um observador próximo a uma chave que pode desviar o bonde para uma linha secundária onde há uma pessoa que será atropelada e morta caso o bonde seja desviado. A questão moral é: é aceitável desviar o bonde neste caso? (...) A grande maioria das pessoas ages de forma utilitarista e concorda que sim, é aceitável acionar a chave (...).
O segundo exemplo é o caso de um cirurgião que precisa decidir se corta e remove cinco órgãos de uma pessoa saudável para salvar cinco pessoas doentes. Seria aceitável proceder desta maneira se a pessoa saudável não deu seu consentimento? Ou num exemplo mais próximo ao do bonde: imagine agora que o bonde está seguindo desgovernado em direção ao grupo de cinco pessoas e que a única maneira de salvá-los seria o observador jogar uma pessoa pesada nos trilhos para pará-lo. Isso seria uma conduta aceitável? Ocorre que a imensa maioria das pessoas, neste segundo caso acha a decisão inaceitável.

A explicação deste comportamento estaria no que chamo de Gramática Moral (...)"

Ou seja, pessoas com diferentes formações, de diferentes culturas, baseiam-se em regras e parâmetros iguais, mas dos quais não estão plenamente conscientes, para tomar decisões que acham inclusive difíceis de explicar e que seriam conceitos inatos.

Não sei se outros pais concordam comigo, mas olhando o comportamento de nossos filhos e tendo contato com o tipo de conceito apresentado acima, eu acredito que as crianças nascem, sim, com parâmetros morais e uma enorme capacidade para empatia e que é nossa responsabilidade fazer com que se desenvolvam corretamente. Mesmo que tenhamos certeza de que, apresentados ao segundo exemplo do bonde, jogaríamos o Sr. Ricardo Teixeira nos trilhos sem pestanejar.

sábado, 2 de julho de 2011

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil

O primeiro comentário da contra-capa do "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" (Leandro Narloch - Editora Leya), é de Luiz Felipe Pondé, da Folha de São Paulo e autor de "Contra um Mundo Melhor", que mencionei aqui uns meses atrás:

"(...) Uma singular heresia perdida em meio ao mar de unanimidades".

Apesar do fato do livro de Pondé ser da mesma editora, o que poderia desqualificar o comentário, ele é verdadeiro. O livro é mesmo uma heresia contra um monte de coisas que foram enfiadas nas nossas cabeças desde o primário e tenta desmontar vários "fatos históricos" que damos por verdades incontestáveis, da atuação brasileira na Guerra do Paraguai à invenção do avião.

É, principalmente, um livro de história rebelde e sem o irritante viés social-esquerdista que 99 de cada 100 professores de história têm. Além disso, tem o mérito de permanecer já há 74 semanas na lista dos 10 livros de não-ficção mais vendidos da Veja e há 55 na do Estado de São Paulo.

Para ser sincero, acho que concentra demais as referências bibliográficas de alguns capítulos em poucos autores, o que enfraquece algumas teses, mas a construção da defesa de seus pontos de vista é boa e os artigos são muito interessantes e bem-humorados.

Vale a pena, seja para acumular assunto para o próximo happy-hour, seja para irritar a sua sogra professora de história ou socióloga no próximo almoço de domingo (o que não é o meu caso, diga-se de passagem).