quarta-feira, 25 de maio de 2011

Contos da Montanha

Miguel Torga (pseudônimo de Adolfo Correia Rocha), foi um escritor português nascido em 1907 e criado nas serras portuguesas. Eu havia ganhado um de seus livros de contos vários anos atrás, chamado “Contos da Montanha”, mas ele andava esquecido na estante e só peguei para ler um dia desses.

Gosto bastante de livros de contos, pois normalmente os leio em paralelo com obras mais longas ou pesadas para dar uma arejada e gostei muito de “Contos da Montanha”. Todos os contos do livro giram em torno da vida de habitantes de pequenas aldeias nas serras de Portugal e vão dos trágicos aos bem-humorados, mas são invariavelmente interessantes, intensos e é muito difícil largar um no meio.

É verdade que são escritos seguindo a fala da região no início do século passado, o que faz com que seja necessário reler parágrafos com freqüência, mas é justamente este um dos fatores que torna o livrinho tão diferente e bom de ler, além de ajudar a compor o cenário para as situações vividas pelos personagens e também colaboram com o humor, por vezes involuntário, de algumas passagens.

Abaixo alguns dos melhores contos do livro na minha opinião (dois deles estão disponíveis na íntegra em um blog chamado “Contos de Aula” e anexei os links):

- A Paga
- O Lugar de Sacristão - http://contosdeaula.blogspot.com/2007/05/o-lugar-do-sacristo.html

Para quem se interessar, há também o livro inteiro disponível no Scribd (http://pt.scribd.com/). Recomendo.

sábado, 9 de abril de 2011

O castelo nos Pirineus

Uma das boas coisas do sábado de manhã é o caderno Sabático do Estadão. Sempre traz algumas resenhas ou comentários sobre livros novos e dá para descobrir muita coisa boa. Por indicação do caderno, eu fiquei sabendo do lançamento e comprei "O castelo nos Pirineus" de Jostein Gaarder, autor norueguês de "O Mundo de Sofia" (que vendeu pacas no Brasil uns 10 a 15 anos atrás) e de "O Dia do Coringa" (que não fez tanto sucesso por aqui, mas que eu achei muito melhor que o primeiro).


O "castelo nos Pirineus" tem um estilo diferente de narrativa: é um romance epistolar, em que a estória vai sendo contada através das trocas de e-mails entre os dois personagens principais: Solrun (isso é nome de mulher, ok?) e Stein, que tiveram um romance intenso quando eram estudantes universitários, mas que se separaram por conta de um episódio traumático, inexplicável e que só é descrito lá para o final do livro.

Mais de 30 anos depois da brusca separação, eles se encontram por acaso, já casados e com suas próprias famílias, em um hotel norueguês e decidem iniciar uma troca de e-mails para discutir o ocorrido, sobre o qual cada um tem uma abordagem radicalmente oposta: enquanto Stein é um cientista absolutamente racional e cético, Solrun é uma pessoa profundamente espiritualizada.
O livro é curto, com menos de 180 páginas e pode ficar um pouco chato em alguns trechos, mas é uma leitura interessante e vale a pena resistir até o final. O título "O castelo nos Pirineus" vem de um quadro do belga René Magritte (http://pt.wikipedia.org/wiki/Magritte), que mostra um castelo sobre um rochedo, flutuando no ar e que é uma metáfora para o tal evento inexplicável que causou a separação de Solrun e Stein. Segundo o Leo, "parece o castelo do tio da Zoe, dos Caçadores de Dragões".

Obs.: Voltando um pouco ao assunto dos podcasts, um outro que encontrei e gostei do que ouvi até agora, é o canadense Books You Should Read (BYSR). A qualidade dos episódios oscila, mas como são muitos, tem coisa boa no meio e dá para escolher baixar apenas os assuntos que lhe interessam. Os apresentadores mudam dependendo dos episódios e tem um cidadão lá que é um completo mentecapto, mas dá para ignorar os comentários dele e se concentrar nos entrevistados e nos outros colaboradores do podcast. Embora deva dar um desconto pro cara por causa do que ele diz sobre "O Alquimista" - é hilário.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Platão, o "Admirável Mundo Novo" e um congestionamento

Uns dias atrás assinei o podcast de um programa semanal da rádio australiana ABC chamado "The Philosopher's Zone". É, é estranho mesmo, mas surpreendentemente bom. Discute "o mundo da filosofia e o mundo através da filosofia" e aborda temas muito variados, dos clássicos até atualidades como Wikileaks ou bio-tecnologia. Vale a pena. O site é: http://www.abc.net.au/rn/philosopherszone/, mas o podcast pode ser encontrado na iTunes Store. Infelizmente, o podcast não inclui todos os episódios (hoje, por exemplo, só há 8 disponíveis), mas no site dá para baixar todos, desde 2005, além de ser possível ler as transcrições na íntegra.

Bom, como só haviam 8 episódios no podcast e o trânsito em São Paulo anda um troço bisonho, assinei também um outro chamado "Philosophy: The Classics". Este parou de ser atualizado em 2007, mas há 17 episódios disponíveis, baseados em capítulos do livro homônimo de Nigel Warburton. Também é muito bom. Os áudios são focados nos clássicos, como Platão, Kant, Rousseau e Descartes e são muito claros e bem gravados. O site de referência é: http://www.virtualphilosopher.com/.

O primeiro episódio de "Philosophy: The Classics" é sobre Platão. Narra os conceitos básicos de uma forma, como disse, bem clara. São interessantes e um pouco chocantes os conceitos e idéias que formam o modelo de sociedade utópica apresentada por Platão em "A República", com os quais eu só havia tido um contato breve durante as aulas de filosofia do colegial, mas que agora adquirem contornos muito diferentes.

Uma das coisas que me chamaram a atenção, talvez influenciado pelo excesso de CO2 no congestionamento da Av. Brasil desta noite, foi a semelhança entre sua utopia com a distopia apresentada por Aldous Huxley em "Admirável Mundo Novo". Se você já leu, ouça ao podcast e confira (mais fácil que ler "A República").

Mas só para ter certeza de que eu não estava viajando na maionese e escrevendo uma asneira, resolvi usar o Google Scholar e pesquisar esta correlação (se nunca usou, experimente também: http://www.scholar.google.com/) . E não é que existe mesmo? Encontrei uma dissertação de mestrado da UFRGS de 2009 de Maurício Moraes Wojciekowski (esse sobrenome conseguiu sobrecarregar o corretor ortográfico do Word...), que trata exatamente deste tema, em: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/17521. Caso já tenha tido algum contato com "A República" e o "Admirável Mundo Novo", acho que vale a pena dar uma lida, mesmo que seja nas tabelas comparativas do final do trabalho. Acabo de fazê-lo e vou dormir feliz, sabendo que o CO2 ainda não fritou meus últimos neurônios.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Ken Follett e o "Mundo Sem Fim"

Existem alguns escritores que escrevem em escala industrial. Eles publicam tanto, que acho que a única explicação é terem uma bela equipe por trás, fazendo pesquisa e escrevendo boa parte dos textos. Uns exemplos são: Tom Clancy, John Grisham e Ken Follett.

Enquanto Clancy é especializado em livros de espionagem e ações militares e Grisham é especializado em livros sobre advogados e processos, Ken Follett é algo à parte. Ele escreve sobre temas absolutamente díspares e em geral o faz de forma muito competente, mas prefiro os seus romances históricos.

Acabo de ler "Mundo Sem Fim", que é um desses romances. O livro se passa algumas gerações após "Os Pilares da Terra", durante o século XIV (época da Peste Negra e de umas das várias guerras entre Inglaterra e França), na cidade fictícia de Kingsbridge na Inglaterra e envolve um grupo de 5 personagens principais: um arquiteto/construtor, um cavaleiro, um monge, uma camponesa e uma "médica", cujas vidas vão se entrelaçando ao longo do texto. A trama é muito bem concebida e complexa o suficiente para não ser possível condensar em um filme e muito menos resumir aqui. Basta dizer que é muito boa e faz valer a pena as mais de 900 páginas da versão em português.
Além disso, as descrições dos costumes da época, das cenas de batalha, das disputas jurídicas, dos detalhes de arquitetura, das particularidades da medicina e do comércio são cuidadosas e detalhadas, colaborando muito com a verossimilhança da estória, de modo que mesmo que o leitor não goste da trama, certamente acaba pelo menos aprendendo algumas coisas novas e não vai ficar com a sensação de ter perdido seu tempo com o livro.

E é isso que é interessante no caso de Ken Follett. Ele pode escrever livros bons e longos, que obviamente demandaram muita dedicação e pesquisa, como pode escrever livros absolutamente descartáveis. Vai, então, a minha classificação pessoal sobre os que li:

- "Noite Sobre as Águas" - mediano;

- "Código Explosivo" - descartável (não consigo nem me lembrar direito do que se tratava, o que é um mau sinal);

- "O Homem de São Petesburgo" - médio para bom, embora a trama tenha algumas coincidências infantis, do tipo de novela mexicana, que seriam bem dispensáveis;

- "O Vôo da Vespa" - descartável, também.

- "O Buraco da Agulha" - pelo menos bom, mas como já li há muito tempo, posso estar sendo injusto e pode ser ótimo. Mas sei que merece ser lido de novo.

Ken Follett tem um site oficial, onde pode-se ler os primeiros capítulos dos livros e identificar os títulos e editoras em cada país. É o: http://www.ken-follett.com/

Ainda não li o mais recente "Queda de Gigantes", mas só ouvi falar bem por enquanto. Assim que ler, digo o que achei. Mas, pelo tamanho, vai demorar um bocado.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Algemas e flechas

O ser humano é um bicho trágico. Somos trágicos sob diversos aspectos, a começar pela consciência de que somos (como diz o sábio Sheldon Cooper, quando questionado sobre como vai a vida), condenados a "entropia, decadência e eventualmente, morte".
Entretanto, algumas das tragédias a que estamos sujeitos foram causadas por nós mesmos. Nessa categoria eu coloco, com distinção, a nossa relação com o tempo.

Começando pelo começo: o que é um relógio? Em última instância, o relógio é o resultado de uma tentativa do homem escravizar o tempo, que saiu pela culatra. Um bom exemplo de como devemos tomar cuidado com o que desejamos.

Com a modernidade, a relação do homem com o relógio evoluiu para uma relação franca de escravidão, especialmente nas grandes cidades, com todos ostentando uma bela algema no pulso esquerdo (ou direito, se você for canhoto ou anormal), de preferência fazendo companhia para uma simpática pulseirinha Power Balance.

Apesar de todos terem relógio, muita gente choraminga não ter tempo para nada. Curioso, pois o tempo é a uma das únicas, senão a única coisa, que é absolutamente igual para todos desde o nascimento, não é? Obviamente, a diferença está em como você usa seu tempo, mas é fundamental aceitar a noção clara de que esta é uma decisão que você está condenado a tomar continuamente, dia após dia, sozinho. Uma responsabilidade toda sua e só sua, independente do que você possa tentar jogar na conta do seu chefe ou do trânsito da sua cidade. Não adianta choramingar.

Outro lado interessante da nossa relação com o tempo está na percepção de que o tempo parece andar mais depressa conforme você vai ficando mais velho. Quantas vezes você não chega ao final do domingo perguntando como foi que o final de semana passou tão depressa? Até que ponto esta aceleração não é causada por nós mesmos e a nossa teimosa mania de projetar o futuro?

Uma metáfora elegante para abordar esta questão é a da "flecha do tempo", do Sr. Mark Rowlands , que vou tentar resumir aqui (tá, já falei dele umas três ou quatro vezes antes e confesso: virei fã do trabalho do cara).

Para ele, uma das grandes diferenças entre humanos e animais está em que o conceito de "futuro" para os animais é algo perfeitamente explícito: se o seu cachorro sente desejo de um gole de água, este desejo o conduzirá em direção um futuro em que este desejo seja satisfeito, o que pode envolver, por exemplo, levantar-se do tapete, atravessar a sala e chegar até a tigela. Fazendo uma analogia com uma flecha, este desejo de beber água funciona, para o cão, como uma flecha lançada em direção ao futuro: é preciso apenas se mexer e sobreviver tempo suficiente para que a flecha atinja seu alvo.

Nossa concepção de futuro, entretanto, é diferente. Nós conseguimos perceber futuro como futuro e somos movidos pela visão de que se estudarmos bastante, trabalharmos bastante e fizermos as coisas e escolhas certas, chegaremos a um futuro onde não precisaremos fazer mais nada disso. Esta abordagem claramente não envolve apenas desejo, como no caso do cão com sede, mas também objetivos e projetos, coisa que os animais não têm.

Nossas flechas, portanto, não são como as deles, e é aí onde está a elegância da metáfora: as nossas são como flechas incendiárias, que iluminam e nos permitem visualizar um pouco deste futuro, reforçando a nossa ansiedade e sensação de necessidade de planejamento e projetos para que o alvo desejado seja atingido.

A tragédia, nesse caso, é que acabamos vivendo sempre no meio do caminho, gastando uma enorme quantidade de tempo fazendo o que não queremos, movidos por uma visão de futuro que pode, ou não, se concretizar. E quanto mais planejamos, mais flechas lançamos e mais rápido o tempo parece passar.

Juntando uma coisa com a outra: antigamente, a noção de tempo era regida por estações do ano, épocas de plantio e colheita, fases da lua e coisas do tipo. O planejamento estava em se preparar para o inverno, ou para o nascimento de um filho. Hoje, a noção de tempo é regida pelo relógio, na casa dos minutos: se você se atrasa 10 minutos para uma reunião, é uma gafe imperdoável. Já o planejamento vai de um extremo a outro: planejamos no sábado o almoço do domingo e planejamos aos 25 anos como será nossa aposentadoria aos 70. Lançamos flechas incendiárias o tempo todo, às mais variadas distâncias, e gastamos uma energia imensa tentando fazer com que caiam nos lugares certos. Não é de se admirar que o tempo passe cada vez mais rápido e que sejamos, cada vez mais, seus escravos.

Como eu mencionei no início, o ser humano é um bicho trágico, e parte de nossas tragédias são causadas por nós mesmos. Acho que merecemos. Afinal, que outro bicho seria estúpido o bastante para voluntariamente criar algo imbecil como o despertador? Se o relógio é uma algema, o despertador é o nosso feitor: aquele desgraçado que vem diariamente chicotear nossas orelhas e nos tirar do nosso único estado natural de felicidade: dormindo.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Contra um mundo melhor

Eu nunca fui fã de ideologias de esquerda. Hoje em dia pode não ser lá muito sexy, ou “polticamente correto”, se declarar como de centro-direita, mas o “polticamente correto” também nunca foi o meu forte.

Costuma-se ver a aversão a ideologias de esquerda como uma falta de preocupação social, mas posso garantir que não é o caso. Na realidade, eu apenas não concordo com a visão de que as virtudes estariam todas com o proletariado e os vícios com as elites.

Este posicionamento me trouxe uma certa afinidade com os textos do Arnaldo Jabor, que me habituei a ler no Estadão semanalmente. Para quem mora em São Paulo, a opção entre Folha e Estadão é meio como uma opção entre Lions e Rotary: não são posições contrárias, mas dificilmente quem entra em um passa para o outro, de modo que eu não tinha tido nenhum contato com os textos de Luiz Felipe Pondé (colunista da Folha), até comprar o livro “Contra um mundo melhor: ensaios do afeto”, da editora Leya.

Luiz Pondé é um psicanalista e filósofo que escreve na Folha desde 2008 e o livro é uma coletânea de ensaios sobre uma grande variedade de assuntos, como dinheiro, o relacionamento moderno entre homens e mulheres, felicidade, etc.. O que o torna irresistível é a abordagem polêmica, cética e ácida, também profunda e cheia de referências a diversos ramos da filosofia.

Como dito na contra-capa do livro, Pondé escreve “contra um mundo que mente sobre si mesmo”, e já desde as primeiras páginas você percebe se vai adorar ou detestar os textos, mas não acho possível ficar indiferente. Também não acho possível concordar com todos eles, mas recomendo que sejam lidos até o fim, embora possam causar danos a algumas sensibilidades . E podem também surgir algumas surpresas, especialmente se você estiver entre as “três ou quatro pessoas” que chegarão até o último.

Apenas como aviso para quem se interessar em adquirir o livro, vai aqui a recomendação do autor sobre quem não deve comprá-lo:

“Se você se acha uma pessoa equilibrada, dessas que respeitam o parceiro no amor, que creem na igualdade entre os sexos como adorno na sua cama de casal, que comem apenas comida saudável, que conversa com plantas porque se julgam mais consciente, que se julgam sensível e honesta, que reciclam lixo, feche este livro. Todas as poucas palavras que encontrará aqui são contra você. Você é um mentiroso, ou uma mentirosa. (...) Dedico horas do meu dia a pensar em formas variadas de fazer gente como você sofrer.”

Como eu disse, irresistível. Leia.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Neologismos

Felizmente parece que a mídia está adotando a forma "a presidente" para se referir à nossa nova timoneira. Como se já não bastasse ter que aguentar os Bonner dizendo "no Recife" e "Roráááima", só faltava ter que ouvir "a presidenta" por aí.

Aliás, por que "no Recife"? Nós falamos "em Natal" e "em Salvador", não é? Sempre foi "em Recife". Por que raios agora é "no Recife"? Até dói nos ouvidos.