quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O Sol é para todos

Lançado originalmente em 1960 e ganhador do Prêmio Pulitzer de literatura em 1961, "O Sol é para todos", de Harper Lee, contabiliza mais de 30 milhões de cópias vendidas e figura em diversas listas de melhores romances ao redor do mundo. Não que o número de cópias seja um atestado de qualidade (basta dizer que "Cinquenta Tons de Cinza vendeu 50 milhões"), mas o título de melhor romance do século XX pelo Library Journal é bem significativo. 




Contado em retrospectiva a partir dos olhos de Scout, uma menina de 10 anos de idade, narra o desenrolar de um processo de julgamento por estupro na pequena cidade de Maycomb, no Alabama, no início dos anos 1930. Órfãos por parte de mãe, Scout e seu irmão mais velho, Jem, têm sua vida profundamente impactada enquanto seu pai, o advogado Atticus Finch, prepara e conduz a defesa de um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca em uma das regiões mais racistas dos Estados Unidos. 

É um livro extraordinário: escrito em linguagem simples e cativante, mas humano e denso. Deu origem a um filme homônimo em 1962, com Gregory Peck no papel de Atticus Finch, vencedor de 3 Oscars. Segundo uma lista feita por bibliotecários em 2006, o livro que todos deveriam ler antes de morrer. 

Um dos pontos curiosos sobre o livro é o fato da autora (falecida em 2016), não ter publicado nenhum outro até 2015, quando foi descoberto "Vá, coloque um vigia", escondido em uma caixa. É uma sequencia para "O Sol é para todos" e gerou uma certa polêmica quando lançado, por mostrar um lado mais escuro de Atticus. Não li ainda, mas pretendo em breve. 

Apenas como um bônus, para quem já leu o livro, um mapa da cidade de Maycomb pode ser conseguido em https://fitzgeraldenglish.wikispaces.com/Map+of+Maycomb,+Alabama.



sábado, 9 de julho de 2016

O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação

Depois da boa experiência com 1Q84 fiquei interessado em ler mais alguma coisa de Haruki Murakami e peguei "O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação", que, salvo engano, é a sua obra mais recente (Alfaguara, 2014). 


Conta a história de Tsukuru, um engenheiro na casa dos 30 anos especializado em projetos de estações ferroviárias e que leva uma vida bastante solitária, sentindo ainda os reflexos de sua exclusão sumária de um grupo de amigos muito próximos, ocorrida abruptamente mais de 10 anos antes. O relacionamento intenso com este grupo de amigos teve um papel central na juventude de Tsukuru e dos demais, mas nenhum de seus 4 ex-colegas jamais lhe deu nenhuma explicação com relação à sua "eliminação" - simplesmente cortaram relações de forma seca e inesperada, o que o levou à depressão e a um quase suicídio. 

Muito tempo depois da ruptura, ao iniciar um relacionamento com uma mulher um pouco mais velha, é incentivado por ela a buscar estes antigos amigos e esclarecer o ocorrido, sendo este o ponto de partida da peregrinação do título. 

Para quem gostou de 1Q84, vários de seus elementos estão por lá: acontecimentos inexplicáveis, personagens que entram e saem de cena misteriosamente, uma pitada de realismo fantástico e as estranhas coincidências entre tempestades e eventos-chave do enredo. No mais, é uma boa história sobre amizade, perda, solidão e redenção. Vale a pena tanto para os fãs de Hurakami como para quem nunca leu nada dele e quer uma primeira experiência mais curta do que os três volumes de 1Q84, ainda meu favorito.

sábado, 9 de abril de 2016

Genes, memes e Richard Dawkins

Em 1976 o biólogo inglês Richard Dawkins publicou um livro extraordinário sobre biologia evolutiva chamado The Selfish Gene (ou O Gene Egoísta). Escrito para atingir um público variado, usa uma linguagem bastante simples e bem pouca matemática para apresentar e explicar uma nova forma de se entender a teoria da evolução de Darwin, mas mantendo o formalismo científico necessário e de uma forma bastante profunda. 

Em linhas gerais, critica a noção de evolução centrada nas espécies e desce para o nível dos genes, apresentando uma visão em que os indivíduos (animais, vegetais ou nós mesmos), seríamos apenas veículos surgidos por meio de mecanismos evolutivos e que mostrou eficiente e necessário para a perpetuação de genes. 



O conceito é relativamente simples, mas leva as cerca de 270 páginas do livro para ser demonstrado de forma extremamente elegante por Dawkins, de modo que não tenho a pretensão de fazer um resumo detalhado aqui. Além disso, o livro é bom demais para não ser lido por inteiro. 

O que eu gostaria de compartilhar é apenas um detalhe curioso, que chama a atenção por servir de exemplo, ainda que secundário, do grau de influência da obra de Dawkins. Trata-se do nascimento do termo meme, que acontece especificamente no capítulo 11 de The Selfish Gene. 

Para Dawkins, o momento do início da evolução ocorre com a formação, na sopa primordial, da primeira molécula a possuir uma propriedade muito especial: a capacidade de se replicar, de fazer cópias de si mesma. Esta capacidade única fez com que a molécula se espalhasse rapidamente pela sopa primordial, com a consequência fundamental de dar o primeiro passo no sentido do estabelecimento de uma ordem em um ambiente até então caótico. Entretanto, cópias nem sempre são perfeitas e eventuais erros na replicação eram praticamente inevitáveis. Em última instância, longe de ser apenas um problema (embora o seja na maioria dos casos), foram justamente a ocorrência destas falhas que tornaram o mecanismo de evolução possível. Explica-se: sempre que um erro resultava em uma molécula resultante mais apta que as demais a sobreviver e se reproduzir em um determinado ambiente, esta molécula tendia a se propagar mais rapidamente. Um erro que ocasionasse acidentalmente um pequeno aumento de longevidade, por exemplo, significaria que mais cópias poderiam ser feitas por cada molécula, representando uma enorme vantagem sobre as moléculas rivais. 

O termo "rivais", é claro, não deve ser interpretado no sentido de que as moléculas estariam competindo de forma consciente umas contra as outras, mas o fato é que qualquer falha no processo de cópia que resultasse em um aumento da estabilidade de uma determinada linha evolutiva ou que reduzisse a estabilidade de uma outra seria automaticamente preservado e multiplicado, contribuindo para um processo de aprimoramento acumulativo. Sendo assim, métodos ou mecanismos que emergissem e contribuíssem para aumento da estabilidade do próprio replicador, ou para a redução da estabilidade dos demais foram gradualmente se acumulando e aprimorando, tornando-se mais e mais elaborados e eficientes. Alguns deles podem inclusive ter resultado, por exemplo, em maneiras para quebrar as moléculas rivais e assim usar os componentes liberados, obtendo nutrição de forma mais eficiente e ao mesmo tempo removendo rivais do ambiente, de maneira análoga aos carnívoros atuais. Já outros replicadores teriam chegado em formas de se proteger quimicamente ou de forma física, através da construção de barreiras de proteína a seu redor, método pelo qual podem ter sido formadas as primeiras células. 

Enfim, os replicadores começaram não somente a existir, mas a construir recipientes para si mesmos, veículos que possibilitassem sua existência continuada. Os que sobreviveram foram os que construíram máquinas de sobrevivência em que pudessem perseverar, originalmente compostas por nada mais do que uma carapaça protetora. Mas sobreviver também foi se tornando incrementalmente mais difícil conforme rivais apareciam com soluções melhores e mais eficientes, de modo que as máquinas de sobrevivência foram ficando mais complexas e maiores, de forma progressiva e cumulativa, chegando finalmente às inúmeras formas de vida atuais. 

Com esse mínimo de conceitos sobre replicadores e a teoria apresentada no livro, já podemos nos voltar então à questão dos memes. 

Para Dawkins, boa parte do que torna a espécie humana única pode ser resumido em uma única palavra: "cultura". O termo é usado aqui em um sentido abrangente, incorporando desde linguagem a tradições culturais e tecnológicas. A capacidade altamente desenvolvida de transmissão cultural entre os seres humanos teria consequências análogas à da transmissão genética, no sentido em que pôde dar origem a uma forma particular mas incrivelmente eficiente de evolução, progressiva e cumulativa, nos mais variados campos como comunicação, hábitos alimentares, arte, arquitetura, ciências e tecnologia. 

Assim como em termos biológicos o gene foi a entidade replicadora que prevaleceu em nosso planeta, Dawkins considera que uma categoria de replicadores totalmente nova tenha emergido recentemente, bem diante de nosso olhos, atingindo uma velocidade evolutiva extraordinária na nova versão da sopa primordial, a cultura humana: 

"Precisamos de um nome para o novo replicador, um nome que carregue a ideia de uma unidade de transmissão cultural, ou uma unidade de imitação. "Mimeme" contém uma raiz grega adequada, mas quero um termo que soe um pouco como "gene". Espero que meus amigos classicistas me perdoem se eu abreviar mimeme para meme. (...) 

Exemplos de memes são trechos de músicas, ideias, frases clichê, estilos de roupas, uma maneira de se fazer potes ou de se construir arcos. Assim como os genes se propagam no pool genético saltando de um corpo para outro através de óvulos e espermatozoides, os memes se propagam do mesmo modo no pool de memes, saltando de um cérebro a outro através de um processo que pode ser chamado, de maneira geral, de imitação. Se um cientista ouve ou lê sobre uma boa ideia, ele a passa adiante a seus colegas e alunos. Ele a menciona em seus artigos e palestras. Se a ideia "pega", pode-se dizer que ela se propaga sozinha, espalhando-se de cérebro em cérebro. (...)" 

É muito curioso testemunhar o nascimento de um neologismo de uma maneira tão explícita e intencional quanto essa. Mais interessante ainda é o fato do capítulo 11 de The Selfish Gene ser totalmente dedicado a este conceito. Parece um pouco deslocado no contexto geral do livro, mas entendo que tenha sido incluído como uma maneira de demonstrar a aplicabilidade do conceito desenvolvido por Dawkins a outros domínios além da biologia. 

É nítida a influência do conceito de meme como definido por Dawkins em uma grande quantidade de outras obras, tanto técnicas como literárias. O exemplo mais óbvio que me vem à mente é o ótimo Snow Crash de Neal Stephenson (Penguin Books, 1992), em que um vírus de computadores começa a atacar o mundo virtual ao mesmo tempo em que sua contraparte, na forma de um meta-virus neurolinguístico começa a se espalhar no mundo físico por meio das pregações e doutrinas em uma rede de igrejas pentecostais. Um texto mais técnico, mas que faz uso extenso do conceito, é o livro A memória na Mídia - a evolução dos memes de afeto, de Mônica Rebecca Ferrari Nunes (Annablume Editora, 2001). 

O próprio Dawkins, ao escrever suas anotações sobre o capítulo 11 na edição comemorativa de 2006 de The Selfish Gene, se mostra surpreso com a ampla aceitação do termo: 

"A palavra meme parece estar se mostrando um bom meme. É hoje bastante usada e em 1988 entrou na lista oficial de palavras sendo consideradas para edições futuras dos Oxford English Dictonaries." 

Esclarece também seus objetivos ao introduzir o assunto no texto original: 

"Os primeiros 10 capítulos de The Selfish Gene tinham se concentrado exclusivamente em um tipo de replicador, o gene. Ao discutir os memes no capítulo final eu estava tentando defender a tese de replicadores em geral e mostrar como os genes não são os únicos membros desta importante classe. (...) O capítulo 11 terá sido bem-sucedido se o leitor fechar o livro com a sensação de que as moléculas de DNA não são as únicas entidades que podem formar a base para uma evolução darwiniana." 

As implicações dos conceitos desenvolvidos ao longo do livro são tão vastas e interessantes, mas também com um potencial tão grande para deturpações e interpretações distorcidas, que Dawkins insiste muitas vezes no cuidado que se deve ter para não se conferir características de consciência ou intenção aos replicadores, sejam eles genes ou memes, sob pena de se derivar para uma metafísica descabida (semelhante à presente em Snow Crash), mas que emerge quase que naturalmente na mente do leitor conforme ele vai apresentando os conceitos e construindo sua tese. Felizmente, a racionalidade fria de Dawkins está sempre presente, puxando o leitor de volta para o chão. 

Como já coloquei, trata-se de um livro extraordinário. Já foi muito elogiado e muito criticado e, independente de qual possa ser a sua posição com relação ao ativismo pró-ateísta e pró-secularista de Richard Dawkins, é inegável que permanece extremamente relevante, mesmo depois de 40 anos de sua primeira edição. Merece ser lido.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Submissão

Submissão, de Michel Houellebecq (Alfaguara, 2015), é uma distopia que me soou estranhamente familiar. Familiar tanto por suas referências a nomes, figuras políticas, partidos e locais reais, como também pela estranha coincidência de datas: estava lendo Submissão exatamente na mesma semana de novembro de 2015 em que a França sofreu os ataques dos terroristas do Estado Islâmico. Além disso, os mesmos atores políticos presentes no livro também estavam na mídia em função das eleições na França, como Marine Le Pen e Jean-François Copé.


Contada através da ótica de um professor universitário de literatura (François) em Paris, no ano de 2022, a trama gira em torno de um processo eleitoral em que a briga entre os partidos tradicionais de esquerda e direito acaba levando à vitória de uma Fraternidade Muçulmana e à possibilidade de implantação da Sharia na França. 

O livro é muito interessante, muito bom e verossímil. Mostra o processo crescendo e se acelerando progressivamente, bem à vista dos perplexos membros da elite francesa, em um paralelo muito curioso com o que se vê no verídico "No Jardim das Feras", sobre a ascensão do nazismo na Alemanha e que comentei em julho de 2014Na verdade, o foco na "revolução silenciosa" é um dos pontos que mais chamam a atenção no texto e é reforçado explicitamente em trechos como o abaixo: 

"Talvez seja impossível, para pessoas que viveram e prosperaram em determinado sistema social, imaginar o ponto de vista dos que, nunca tendo nada a esperar deste sistema, encaram sua destruição sem nenhum terror especial." 

Ou em: 

"(...) estava cada vez mais marcado pelo pensamento de Toynbee, por sua ideia de que as civilizações não morrem assassinadas, mas se suicidam." 

Houellebecq talvez exagere um pouco na descrição da vida amorosa de François, que não agrega praticamente nada ao enredo, mas mesmo assim é uma obra imperdível.

domingo, 22 de novembro de 2015

Plato at the Googleplex

O filósofo inglês Alfred North Whitehead uma vez escreveu que “A generalização mais segura sobre a filosofia ocidental é de que ela não passa de uma série de notas de rodapé à obra de Platão”. Esse tipo de afirmação, especialmente vinda de um filósofo, funciona bastante bem como munição para os muitos que não veem qualquer utilidade prática na filosofia. Afinal, se séculos e séculos de discussões não nos trouxeram mais perto de responder às questões fundamentais formuladas por um cidadão ateniense que viveu há mais de 2.400 anos, qual sua serventia? 

Certamente, afirmam os críticos, a filosofia e seus questionamentos tiveram sua contribuição na origem das ciências. Entretanto, à medida que o conhecimento científico avança e especulações filosóficas vão gradualmente sendo confirmadas ou desmontadas por dados, formulações e constatações científicas sólidas, ela estaria progressivamente perdendo sua utilidade, fadada à irrelevância. 

A defesa da filosofia e a demonstração da relevância e atualidade dos temas por ela tratados são os objetivos do livro “Plato at the Googlepex” (Platão no Googleplex), de Rebecca Newberger Goldstein (Vintage Books, 2015). A forma de tratar o assunto escolhida por Goldstein é bem peculiar: trazer Platão para os dias de hoje e envolvê-lo em diálogos do mesmo estilo dos que escrevia, mas com interlocutores atuais. Em um capítulo, Platão discute o que é uma vida que valha a pena ser vivida com um engenheiro da Google e uma media escort; em outro, debate sobre a melhor forma de se criar crianças com uma tiger mom e uma psicóloga bicho-grilo; num terceiro atua como consultor para uma conselheira sentimental de revista feminina; participa de um programa de entrevistas em uma emissora da extrema direita americana; e por aí vai. 



Todas as posições defendidas pelo Platão de Goldstein são embasadas em referências aos seus textos originais e cada diálogo é precedido por um capítulo em que a autora apresenta as bases filosóficas e históricas para estas posições, o que confere mais profundidade ao texto e ajuda o leitor a acompanhar com mais facilidade estas discussões. 

Interessante ver como as questões levantadas por Platão 2.400 anos atrás permanecem pertinentes e atuais. Há menos de 15 dias, por exemplo, ataques terroristas a Paris chocaram boa parte do mundo e causaram, entre outras, discussões sobre a relação entre religião e moralidade, um dos assuntos de que Platão já tratava em Euthyphro (bem antes de Spinoza e Bertrand Russell) e que Goldstein apresenta da seguinte forma (em uma tradução livre): 

“Platão começa o questionamento de forma bem inocente, com Sócrates perguntando a Euthyphro: ‘O que é santo, é santo porque os deuses aprovam, ou eles aprovam porque é santo?’ (IOa). Platão usa a pergunta para separar os conceitos de ações ‘ordenadas pela divindade’ de ações providas de valor moral. O argumento é formulado em termos de ‘dos deuses’, mas é, sem prejuízo à sua força, suscetível à substituição de ‘deuses’ por ‘Deus’. Em suma, o argumento de Platão é o seguinte: Se Deus aprova uma ação, ou Ele o faz arbitrariamente, sem qualquer razão, de modo que é apenas a Sua aprovação que confere valor moral a esta ação; ou existe uma razão para Sua aprovação, de forma que não se trata simplesmente um capricho de Sua parte, havendo uma razão para que Ele aprove tal ação, esta razão sendo o valor moral intrínseco daquilo que Ele aprova. Se a primeira hipótese é a resposta, como este capricho arbitrário pode conferir valor moral à ação? Como algo pode ser bom simplesmente porque alguém lá em cima deseja chamá-lo de bom, na medida em que, se Ele por acaso estivesse com uma disposição diferente na ocasião, poderia da mesma forma considerar a ação exatamente oposta como boa? Por outro lado, se a segunda hipótese é a correta, então existe uma razão efetiva para a atitude normativa divina, sendo esta razão a razão tanto para a aprovação divina quanto para o valor moral daquilo que Ele aprova. Isto faz com que a aprovação divina, normativamente falando, seja redundante – ela é, como se diz hoje, um selo de aprovação. Em nenhum dos dois casos – seja a aprovação arbitrária ou não – esta aprovação sobrenatural faz qualquer diferença sobre a ação ser genuinamente certa ou errada. 

Esta questão, o ‘Dilema de Euthyphro’ ou ‘Argumento de Euthyphro’, permanece um dos argumentos mais utilizados contra a alegação de que a moralidade pode ser apenas fundada sobre teologia, de que é apenas a crença em Deus que se interpõe entre nós e o abismo moral do niilismo. Dostoiévski pode ter declarado que ‘sem Deus tudo é permissível’, mas a resposta de Platão, transmitida ao longo de milênios, é que qualquer ato moralmente inadmissível com Deus é também moralmente inadmissível sem Ele, deixando claro quão pouco a adição de Deus na equação ajuda a clarificar a questão ética” 

Este é apenas um entre todos os tópicos abordados no livro e é, na verdade, um dos tratados mais superficialmente. Todos são atuais e relevantes e a exposição na forma de diálogos ajuda muito no conhecimento também dos argumentos contrários às posições platônicas, além de demonstrar algo muito valioso nos dias atuais: o quanto a exposição e avaliação de diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema enriquece a discussão e o quanto é perigoso e empobrecedor nos cercarmos apenas de pessoas que validam nossas opiniões, seja no mundo físico, seja nas “redes sociais”. Ou, como colocado pelo Platão de Goldstein: 

“McCOY: Então você espera realmente que eu acredite que você acha que amigos são aqueles que tentam refutá-lo? 

PLATÃO: Certamente, quando o que eu digo está errado; e eu não posso ter certeza de que não esteja errado a não ser que ouça as melhores contestações possíveis. E eu espero que eu seja um amigo bom o suficiente para devolver o favor.”

** Uma entrevista recente com a autora pode ser ouvida no ótimo podcast Philosophy Bites, através do link:  http://philosophybites.com/2014/11/rebecca-newberger-goldstein-on-progress-in-philosophy.html



sábado, 26 de setembro de 2015

Sense8, ressonância límbica e A General Theory of Love

O primeiro episódio de Sense8 (série do Netflix) tem o nome curioso de "Ressonância Límbica". O termo aparece só uma vez, quando Riley Blue está conversando com Nyx, que acaba de conhecer, sobre suas "visões". Para Nyx, Riley teria experimentado um momento de "Ressonância Límbica", ou o efeito de fazer parte de uma "rede eco-biológica sináptica", que conectaria todos os seres vivos, formada "a partir de uma molécula simples chamada DMT". 

Fui atrás da origem do termo e, depois de removidas todas camadas de ficção e liberdades poéticas aplicadas pelos Wachowski, cheguei a ao livrinho extraordinário onde o termo foi cunhado pela primeira vez: "A General Theory of Love", de Thomas Lewis, Fari Amini e Richard Lannon (Vintage Book, 2000), três professores de psiquiatria de três gerações diferentes que procuram dar respostas três perguntas: "O que é o amor e porque algumas pessoas não conseguem encontrá-lo? O que é solidão e porque dói? O que são relacionamentos e como e porque eles funcionam da forma que funcionam?". 




Antes de prosseguir, esclareço apenas que não pretendo, aqui, fazer qualquer tipo de juízo de valor sobre os conceitos apresentados ou sobre as opiniões dos autores. Meu objetivo é simplesmente descrever de forma breve sobre o que trata o livro, que não foi publicado no Brasil e nem tanta gente assim deve ter lido ou irá encontrar por aí. Peço desculpas se alguns trechos ofenderem algumas sensibilidades, mas não é, em absoluto, esta a intenção. 

Inicia com um questionamento bastante pesado sobre a teoria psicanalítica criada por Freud. Para os autores, trata-se de uma construção elaborada a partir de bases puramente especulativas e artificialmente dotada de uma aura de solidez que jamais poderia possuir, simplesmente devido ao fato de Freud não ter tido acesso, no início do século XIX, de praticamente nenhuma informação sobre a fisiologia do cérebro, muito menos dos modernos recursos de diagnóstico e monitoramento por imagens, de que dispomos hoje. Além disso, enfatizam que, em sua experiência clínica, seus pacientes nunca se comportavam como previsto pela teoria freudiana e tampouco se beneficiavam dos modelos por ela prescritos. Na verdade, as técnicas que os efetivamente ajudavam, jamais lhes haviam sido ensinadas. 

Outro aspecto que deporia contra a validade da teoria freudiana seria o dos avanços das medicações: como reconciliá-la com moléculas que, quando ingeridas, são capazes de apagar desilusões, remover depressão, atenuar as oscilações de humor ou acabar com a ansiedade? Como alguém poderia encaixar esses medicamentos em um racional que pressupõe a proeminência de impulsos sexuais reprimidos como a causa de transtornos emocionais? 

Como o arcabouço fornecido pela teoria freudiana para compreensão da vida emocional de seus pacientes percebido como nitidamente inadequado, os autores passaram então a buscar outras bases para a compreensão dos casos que se apresentavam diariamente em seus consultórios, como os recentes avanços na compreensão da fisiologia e química cerebrais. 

Entretanto, ao mesmo tempo em que a ciência moderna evolui e tende a emergir como sucessora de Freud, traz o desequilíbrio para o outro extremo da escala: um reducionismo físico-químico sem alma. Ou seja, medicações como Prozac e Ritalin seriam as únicas soluções para pacientes com distúrbios emocionais? Quando uma esposa perde o marido e entra em depressão, sua dor tem significado ou se trata apenas de química desregulada? 

De qualquer modo, emoções emanam do cérebro e o cérebro é um órgão físico, ao mesmo tempo em que é inevitavelmente pessoal e subjetivo. Apenas uma mistura cuidadosa de evidência científica e intuição pode, portanto, trazer à tona uma imagem verdadeira da mente emocional. Uma falha neste equilibro leva ao reducionismo vazio de um lado ou à credulidade sem base do outro. 

O modelo trino do cérebro 

O modelo básico do cérebro necessário para a compreensão dos conceitos usados no livro é o modelo trino, ou triúnico, representado abaixo. 



Ao contrário da noção comum de que o cérebro humano seria um órgão único e harmônico, ele não é assim. Segundo o modelo trino proposto pelo Dr. Paul Maclean em "A Triune Concept of the Brain and Behaviour" (University of Toronto Press, 1973), o cérebro seria composto por três sub-cérebros distintos, cada um resultado de uma etapa diferente de nossa história evolutiva. Os três se conectam e se intercomunicam mas, em função das diferenças anatômicas e químicas entre eles, parte da informação é inevitavelmente perdida nesta processo. 

O mais antigo é o cérebro reptiliano, responsável pelas funções vitais como respiração, batimentos cardíacos ou deglutição. Em termos evolutivos é o único de que dispõe vertebrados até o nível dos répteis e possibilita apenas interações rudimentares como mostras de agressividade, disposição para acasalamento ou defesa de território. Não possui as estruturas necessárias para o desenvolvimento de uma mente emocional, nem mesmo nos termos mais básicos, como afeição de mãe pela prole (ou seja, se você pensa que seu iguana realmente gosta de você, pense de novo). 

O segundo cérebro na sequência evolutiva é o cérebro límbico. Começa a se desenvolver a partir dos primeiros mamíferos e todos eles possuem esta estrutura em comum (trata-se do "grande lóbulo límbico" identificado em 1879 pelo cirurgião francês Paul Broca). Seres dotados de cérebros límbicos, mesmo que pouco desenvolvidos, já começam a manifestar emoções. Por exemplo, mamíferos se importam e cuidam de sua prole, chegando ao ponto de arriscar suas vidas para defendê-la, ao mesmo tempo em que a prole busca os pais por proteção. 

Mamíferos também se comunicam vocalmente com sua prole (remova um filhote de cão de perto de sua mãe e ele inicia um uivo incessante de chamado, algo que realmente só faz sentido em animais cujos cérebros podem conceber o conceito de buscar seus progenitores por proteção). Finalmente, mamíferos também brincam uns com os outros, uma atividade interativa complexa e exclusiva das criaturas que dispõe do cérebro límbico. Em suma, é o cérebro límbico que fornece tanto as estruturas necessárias para a formação de emoções como as necessárias para interações sociais. 

O terceiro subcérebro do modelo é o neocórtex, o maior no cérebro humano e presente em maior ou menor grau em diversos outros mamíferos, de coelhos a macacos. Fala, escrita, planejamento, raciocínio e principalmente a capacidade de abstração têm origem no neocórtex. 

A forma difusa com que ocorrem as interações entre os três cérebros e suas diferentes funções é a grande responsável por ocultar os mecanismos e dificultar a compreensão da vida emocional dos seres humanos e da real natureza do amor. Como as pessoas têm consciência plena apenas da parte racional de seus cérebros, assumem que suas mentes emocionais sejam suscetíveis à pressão de argumentos e vontades racionais. Mas infelizmente não é assim que a coisa funciona. Grande parte da mente humana simplesmente não aceita ordens. Pelo contrário, a neuroanatomia moderna indica que todo o neocórtex humano continua sendo indefectivelmente regulado pelas mesmas regiões paralímbicas a partir das quais se desenvolveu. 

Ou seja, se as estruturas responsáveis emoções se concentram em um cérebro e as responsáveis por razão e lógica em outro, que simplesmente não tem capacidade de comandar o primeiro, é irreal imaginar que alguém possa realmente "querer" a coisa certa ou "amar" a pessoa certa. A vida emocional pode ser influenciada, mas não comandada. 

Emoções como vantagem evolutiva 

Mas quais seriam as funções da emoção em termos de evolução? Darwin considerou as emoções como parte de uma adaptação evolutiva dos organismos que se desenvolveu pelas mesmas razões das demais adaptações - sobrevivência. Sua teoria era de que as emoções têm funções biológicas objetivas e que se as estudarmos em detalhe, entenderemos quais são. Por exemplo, bebês cegos sorriem quando interagem com sua mães, da mesma forma que bebês visão perfeita. O sorriso é expresso por criaturas ainda incapazes de falar, andar ou sentar, mas que já sabem como demonstrar sua felicidade através da contração de determinados músculos faciais mesmo que jamais tenham visto outra pessoa expressar-se da mesma maneira. Este sorriso deve, portanto, refletir a arquitetura emocional do cérebro, herdada geneticamente. 

A hierarquia evolutiva das emoções começa com reações simples como o nojo por alimentos podres, que evita o risco de doenças. As seguintes envolvem por exemplo raiva, que prepara o animal para o combate, ou ciúme, que o alerta sobre a possibilidade de ser preterido em um potencial acasalamento. As mais elaboradas envolvem algum nível de abstração do neocórtex, como é o caso do fervor religioso, sendo improvável que possam se manifestar em outros mamíferos além de nós, mas a grande maioria delas são como reflexos que não requerem ou envolvem simplesmente nenhum grau de raciocínio. 

A sintonia emocional entre mamíferos 

Mamíferos podem ler e responder ao estado emocional de outras espécies de mamíferos. Seu cachorro sabe quando você está triste e a recíproca é verdadeira, mas tente ler o estado emocional de um jaboti e ficará bastante desapontado. Variações da mesma linguagem emocional existem ao longo de toda a família dos mamíferos, embora algumas das quais nos sejam totalmente incompreensíveis e outras perfeitamente decodificáveis pelo nosso cérebro límbico. 

Tudo que um mamífero vê, ouve, sente ou cheira é informado ao cérebro límbico, da mesma forma que dados sobre seus batimentos cardíacos, temperatura, pressão e outras dezenas de processos somáticos. Toda esta informação converge para o sistema límbico e é usada no ajuste fino da adequação da fisiologia do corpo ao mundo exterior, como por exemplo no aumento do nível de suor, frequência cardíaca ou respiração. Expressões faciais espontâneas também são uma forma de interação com o mundo exterior e diversas delas, como expressões de raiva ou surpresa são também comandadas pelo cérebro límbico e, em muitos casos, incontroláveis. 

As expressões faciais, têm uma função fundamental na comunicação entre humanos. Como os músculos da face são os únicos conectados diretamente à pele, formam um canal de comunicação extremamente rápido (e universal), disponível ao cérebro límbico. Um bebê, por exemplo, avalia instintiva e constantemente a expressão facial de sua mãe - ao se deparar com um objeto ou situação nova, avalia sua reação e sabe imediatamente se ela está apreensiva ou relaxada, e assim deduzindo indiretamente e se o objeto ou situação em questão lhe oferece algum tipo de perigo. Do mesmo modo, adolescentes e adultos que precisam se comunicar sem contato visual, como em redes sociais, rapidamente aprendem como é muito mais fácil expressar-se com o apoio dos emoticons do que tentando transmitir entonações em um texto digitado. 

Esta conexão e comunicação implícitas são naturais aos seres humanos desde o nascimento. Imagine uma situação em que um bebê pode ver numa tela o rosto de sua mãe. Se for uma conexão de vídeo em tempo real, mãe e filho irão olhar um para o outro, sorrir e estarão felizes e tranquilos. Se a conexão for substituída por uma gravação análoga de imagens da mãe, o bebê percebe rapidamente e fica progressivamente nervoso. Não é apenas a sinalização de satisfação da mãe que ele busca, mas a sincronia e a interação mútua com ela. Mas como e porque uma criatura em um estágio ainda tão preliminar de seu desenvolvimento já seria tão eficiente e tão focada em detectar mínimas contrações faciais no rosto de outra criatura, antes mesmo de conseguir sentar sozinha?

Morcegos desenvolveram sonares para "ver" no escuro. Enguias possuem estruturas capazes de detectar mínimas perturbações em campos elétricos próximos. As emoções nascidas no cérebro límbico, por sua vez, são os órgãos de sensibilidade social dos mamíferos. São o que nos permite avaliar o estado interno de outros mamíferos ao nosso redor e assim ajustar a nossa fisiologia de acordo - uma alteração que é sentida também pelo outro e que por sua vez também se adapta, em um intercâmbio contínuo entre dois cérebros sensíveis e maleáveis. 

É justamente a esta capacidade de troca e adaptação interna que os autores dão o nome de ressonância límbica. É ela que torna o simples ato de olhar nos olhos de uma outra criatura uma experiência tão rica e multifacetada: quando olhares se cruzam, nossa visão vai fundo, sensações se multiplicam e dois sistemas nervosos distintos atingem uma sobreposição íntima e palpável. A conexão é tão natural e esperada para nós que, quando falha, achamos sua ausência perturbadora. Olhe um peixe ou réptil nos olhos e não terá resposta alguma, nenhum sinal de reconhecimento. A frieza de seus olhares dá calafrios aos mamíferos - não é por acaso que são incorporados em criaturas mitológicas que matam com o olhar, como as serpentes no cabelo da Medusa ou o Basilisco. 

Para as criaturas capazes de formar vínculos entre suas mentes, a ressonância límbica é a porta para esta conexão. Ela propicia a harmonia silenciosa que vemos a todo momento, mas que não percebemos explicitamente, como entre mãe e filho, entre uma criança e seu cachorrinho ou entre namorados de mãos dadas no restaurante. É tão integrada a nossas vidas que nem nos damos conta de sua ação. 

Emoções, ao contrário de ideias ou abstrações, são contagiosas justamente por sua natureza límbica. Se alguém tem uma ideia inspirada, ninguém ao redor irá percebê-la. Já a atividade límbica das pessoas ao nosso redor atrai nossas as emoções para uma convergência quase que instantaneamente. É por isso que assistir a filmes no cinema pode ser uma experiência eletrizante, enquanto assistir sozinho ao mesmo filme em casa não o será, por melhor que seja seu equipamento - é a multidão que faz com que a história libere sua mágica. Uma mesma e simultânea evocação límbica transforma indivíduos em uma massa coesa e síncrona, compartilhando os sustos ou a excitação nos cinemas, o fervor religioso no Hajj muçulmano, ou o ódio nas torcidas organizadas. 

E finalmente, voltando ao Sense8 

"A General Theory of Love" progride muito a partir da definição de ressonância límbica, levando a dois outros conceitos básicos para a teoria de possibilidades terapêuticas que apresenta: a regulação e a revisão límbica. Embora sejam extremamente ricos e interessantes, exigiriam um texto relativamente extenso para serem explicados decentemente e o tamanho deste aqui já extrapolou. Sendo assim, paro por aqui e voltarei a abordá-los em um post futuro. 

Voltando ao Sense8, o que se pode concluir é que as tais camadas de ficção e liberdades poéticas depositadas pelo Wachowski sobre o conceito de ressonância límbica são obviamente bem exageradas... Extrapolam muito, mas muito, os fundamentos da teoria e induzem a alguns erros básicos, como na afirmação de Nyx sobre a rede "conectar todos os seres vivos" (em vez de ser uma característica restrita aos mamíferos) ou na referência à molécula DMT (https://pt.wikipedia.org/wiki/Dimetiltriptamina), sobre a qual não há uma única menção na obra, mas que até faz algum sentido no contexto do envolvimento de Nyx com tráfico de drogas. De qualquer modo, devo-lhes um sincero agradecimento por terem me conduzido a um livro tão excepcionalmente interessante, polêmico e rico em insights quanto este.


domingo, 16 de agosto de 2015

Ernest Hemingway - Contos - Volume 1

Hemingway é um autor para ser lido em silêncio. Assim como os personagens dos contos reunidos em "Contos - Volume 1" (7a edição - Bertrand Brasil, 2015), os próprios textos são duros, brutos.


Não são textos pretensiosos, ou com qualquer fundo filosófico. Em sua crueza, contudo, falam diretamente à natureza humana. Quando lidos em silêncio, lhe permitem o prazer de ouvir a sua própria alma respondendo. 

E, para mim, é aí onde está a grandeza de Hemingway.