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sábado, 2 de maio de 2020

O Novo Iluminismo

Várias das minhas opiniões mudaram bastante com o passar do tempo, mas poucas mudaram de forma tão radical quanto o meu conceito sobre Bill Gates. Tive lá a minha fase de adolescente anti-Microsoft e já critiquei bastante o seu fundador por suas práticas monopolistas na época da "guerra dos browsers", mas o meu conceito começou a mudar com os anos e, especialmente depois da fundação Bill e Melinda Gates, hoje eu sou um fã. Como fã, portanto, quando encontro um livro que ele recomenda como sendo “Meu novo livro favorito de todos os tempos.”, tenho que conferir. 

“O novo Iluminismo – Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” de Steven Pinker (Companhia das Letras, 2018) é exatamente o que o título indica: uma obra focada em fazer a defesa dos três pilares fundamentais do Iluminismo: a razão, a ciência e o humanismo, em um momento em que imaginaríamos não precisarem mais de defesa. Apesar de denso, com quase 700 páginas recheadas de excelentes referências bibliográficas, é surpreendentemente simples, direto e agradável de se ler. Logo nas primeiras páginas fica claro que Gates não estava exagerando quando fez seu comentário. 



O último livro que abordei neste blog tratava de uma visão pessimista quanto aos rumos da humanidade ("A Nova Idade das Trevas"). Este é o extremo oposto. Nas palavras do próprio Pinker: “...essa avaliação desoladora do mundo é errada. E não apenas errada: erradíssima, espetacularmente errada, mais errada impossível.” e ele defende sua causa com uma clareza e um volume de dados impressionante distribuídos ao longo de 3 partes. 

A 1ª parte trata da revisão do que consideramos em linhas gerais como o movimento do Iluminismo, bem como seu momento histórico e conceitos fundamentais. A 2ª parte foca em contestar, com dados objetivos, visões pessimistas ou catastrofistas do mundo contemporâneo em aspectos como riqueza, desigualdade, meio ambiente, saúde e segurança. A 3ª parte se concentra, finalmente, na defesa dos ideais iluministas. Iniciando com a 1ª parte, vamos assumir a definição de Iluminismo como apresentada atualmente pela Wikipedia: 

“O iluminismo, também conhecido como século das luzes e ilustração, foi um movimento intelectual e filosófico que dominou o mundo das ideias na Europa durante o século XVIII, "O Século da Filosofia". O Iluminismo incluiu uma série de ideias centradas na razão como a principal fonte de autoridade e legitimidade e defendia ideais como liberdade, progresso, tolerância, fraternidade, governo constitucional e separação Igreja-Estado. Na França, as doutrinas centrais dos filósofos do Iluminismo eram a liberdade individual e a tolerância religiosa em oposição a uma monarquia absoluta e aos dogmas fixos da Igreja Católica Romana. O Iluminismo foi marcado por uma ênfase no método científico e no reducionismo, juntamente com o crescente questionamento da ortodoxia religiosa - uma atitude capturada pela frase Sapere aude (em português: "Atreva-se a conhecer").”

Para ter-se uma dimensão do que representou a Revolução Científica ocorrida neste período, tome-se a descrição do que o historiador David Wootton faz do que um inglês instruído “sabia” com toda segurança do mundo em 1.600, às vésperas da revolução industrial: 

“Ele acredita que bruxas podem invocar tempestades para afundar navios no mar. [...] Acredita em lobisomens, ainda que por acaso essas criaturas não existam na Inglaterra – sabe que existem na Bélgica. [...] Acredita que camundongos surgem por geração espontânea em montes de palha. Acredita em magos contemporâneos. [...] Ele já viu um chifre de unicórnio, mas não um unicórnio. Ele acredita que o corpo de uma pessoa assassinada sangrará na presença do assassino. Acredita na existência de um unguento que, se for aplicado na adaga que causou um ferimento, curará o ferimento. [...] Acredita ser possível transformar metal sem valor em ouro [...] Acredita, obviamente, que a Terra é imóvel e que o Sol e as estrelas fazem um giro em torno dela a cada 24 horas.” 

Apenas um século mais tarde, um descendente instruído deste inglês já não acreditaria em mais nada disso. 

Além da razão e da ciência, o humanismo também tem um papel central no Iluminismo. Deixando para trás séculos de Cruzadas, Inquisição, guerras e caça às bruxas, os pensadores iluministas condenaram crueldades como escravidão, despotismo, punições sádicas e execuções por crimes triviais, colocando fim a práticas hoje consideradas bárbaras, mas extremamente comuns ao longo de milênios em diversas civilizações diferentes. Decorre ainda da fé na ciência e no humanismo o ideal iluminista de progresso, tanto em termos de evolução das leis e costumes, quanto da evolução científica. Todos aspectos que atuam em conjunto, levando a uma melhoria contínua do bem-estar das pessoas e uma gradual transformação do mundo em um lugar melhor.

Infelizmente, como um típico ser humano do início do século XXI e mais do que habituado a ler barbaridades nas time-lines das redes sociais, você já deve ter se acostumado com a ideia de que mesmo as coisas mais obviamente benéficas (como vacinas) ou mesmo os conceitos mais obviamente evidentes (como a Terra ser redonda), precisam de defesa. O mesmo vale para o Iluminismo. Pinker passa um capítulo na primeira parte apresentando um assustador elenco de movimentos contrailuministas religiosos, nacionalistas, filosóficos e intelectuais que são bem explorados ao longo do livro, sempre com referências a trabalhos recentes e muito interessantes. Como exemplos destas referências, posso citar alguns livros relativamente novos que abordei aqui nos últimos meses e que analisam movimentos bem recentes como a emergência da polarização e sua relação com o fenômeno da formação de tribos morais (“Moral Tribes”, de Joshua Greene) ou os problemas da crescente rejeição à livre exposição de ideias em universidades (“The Coddling of the American Mind”, de Lukianoff e Haidt). 

Como já dito, a 2ª parte do livro trata da refutação, com dados, de pontos de vista saudosistas, pessimistas ou decadentistas sobre o estado atual da humanidade. É a parte mais extensa do texto e também a que inclui o maior volume de informações interessantes e surpreendentes, que demonstram de forma incontestável a brutal evolução da condição humana no último século em aspectos como desigualdade, expectativa de vida, saúde, meio ambiente, segurança, paz, democracia, terrorismo, conhecimento, igualdade de direitos e felicidade. Não vou me ater a cada um destes aspectos, mas gostaria de chamar a atenção para apenas dois pontos realçados por Pinker e que servem como exemplos do tipo de insight que são encontrados no livro sobre os temas do meio ambiente e da desigualdade. 

Em “Moral Tribes”, que citei acima, Joshua Greene detalha como a polarização entre esquerda e direita nos EUA (assim como no Brasil), fez com que o tema do aquecimento global tenha passado a ser associado a uma bandeira de esquerda: 

“Em 1998, pesquisas indicavam que eleitores Republicanos e Democratas apresentavam probabilidades praticamente iguais de concordar com o argumento de que a mudança climática estava realmente ocorrendo. De lá para cá, ao mesmo tempo em que as evidências científicas sobre o tema apenas aumentaram, surgiu uma curiosa divergência entre eleitores Republicanos e Democratas com relação ao assunto, a ponto de em 2010 um Democrata ter passado a ter uma probabilidade duas vezes maior de afirmar acreditar na mudança climática do que um Republicano. Isso não ocorreu por questões técnicas ou por um eventual menor acesso às informações científicas por parte dos Republicanos, mas simplesmente pelo fato do assunto ter tomado contornos políticos que levaram os dois partidos a se posicionar em campos opostos, forçando um grande número de eleitores Republicanos a ter de optar (até de forma inconsciente) entre aceitar racionalmente as opiniões dos especialistas no assunto ou simplesmente recusá-las e se comportar, então, como um bom e confiável membro de sua “tribo” política.” 

A abordagem de Pinker, entretanto, vai mais além: ele questiona se o fato do democrata Al Gore ter abraçado a causa do aquecimento global no documentário “Uma Verdade Inconveniente” em 2006 não teria sido uma dos fatores principais do recrudescimento desta polarização e, assim, causado um dano irreparável à causa. Questiona ainda a racionalidade de bandeiras muito tradicionais de ambientalistas contrários a alimentos transgênicos e energia nuclear e o prejuízo que estas posições radicais causam ao meio ambiente ao influenciar a opinião pública contra as opções comprovadamente mais eficientes de geração de energia e produção de alimentos. 

Pinker encara de frente também a questão da desigualdade e a incensada obra de Thomas Piketty, “O Capital no Século XXI”. Ele dedica um capítulo inteiro ao tema e a demonstrar que a desigualdade humana não pode ser usada como um contraexemplo para o progresso humano. Argumenta também que não estamos vivendo, ao contrário do que alega Piketty e as esquerdas ao redor do globo, uma distopia de rendas declinantes que teria revertido séculos de aumento da prosperidade. Defende que a tendência de longo prazo desde o Iluminismo é, na verdade, o aumento de riqueza para todos e, desmonta com surpreendente elegância o livro de Piketty em apenas um parágrafo. (Não, não vou reproduzir aqui, mas lhe desafio a encontrar). 

Finalmente, a 3ª parte é dedicada especificamente aos ideais da razão, ciência e humanismo, cabendo um capítulo para cada um. Como no restante do livro, os argumentos são claros, convincentes e, acima de tudo, necessários. 

Já estávamos vivendo uma época de polarização, escalada de autoritarismo e tendência ao desmonte de conquistas que considerávamos mais do que consolidadas. Com a pandemia de COVID-19, estes movimentos parecem ter se acentuado. Neste cenário, a obra de Pinker é um testemunho muito oportuno de fé na humanidade e no progresso e um necessário sopro de otimismo em um momento de profunda crise global. O comentário de Gates sobre o livro não é, de forma alguma, descabido. 

***

PS – Por uma dessas coincidências malucas do mundo, no momento em que escrevo isso, às 18:30 do dia 02 de maio de 2020, Warren Buffett está fazendo ao vivo a sua apresentação na reunião de acionistas da Berkshire Hathaway e estou ouvindo ao fundo. A mensagem que está passando agora: apesar de tudo, não há época melhor para se estar vivo do que agora em termos de bem-estar, direitos, segurança, paz, etc.. Impressionante a clareza de raciocínio e a energia deste senhor de 89 anos. Bom, estando com Gates e Buffett, Pinker está muito bem acompanhado...



domingo, 2 de fevereiro de 2020

A Nova Idade das Trevas

Um conceito que temos enraizado profundamente em nossa forma de pensar e que poucas pessoas já pararam para questionar é o do progresso contínuo da humanidade. Parece natural esperar que, a cada ano, os avanços da técnica representem evolução recorrente em qualquer área, seja na área da saúde, na engenharia, ou na tecnologia da informação. Entretanto, o que dizer de nossa compreensão real das tecnologias que embasam essa evolução? Ou ainda, quais os efeitos e impactos destas tecnologias sobre o ambiente e as sociedades no médio e longo prazos? 

Os reflexos indesejáveis dos avanços da técnica e suas consequências reais ou potenciais são o tema do livro “A Nova Idade das Trevas - a Tecnologia e o Fim do Futuro”, de James Bridle (Todavia, 2018). Bridle é jornalista e escritor e colabora com veículos como o The Guardian, Atlantic e a Wired e conseguiu escrever um livrinho bem interessante e perturbador sobre o assunto. 


Um dos pontos centrais do texto está na crítica à “opacidade” inerente aos sistemas de computação complexos, especialmente dos sistemas distribuídos (em rede). Como exemplo: um engenheiro mecânico que usa hoje uma ferramenta computacional de análise estrutural por elementos finitos para avaliar a resistência de uma peça automotiva que esteja projetando, compreende melhor ou pior os fenômenos físicos reais envolvidos na análise do que um engenheiro da década de 80 que não dispunha desse ferramental? Até que ponto o uso da ferramenta deixa a análise mais nítida e simples? Até que ponto o conhecimento fundamental envolvido na análise não passou a ficar concentrado apenas nas mãos dos poucos especialistas responsáveis projetar e implementar os algoritmos em que o software se baseia, em vez de compartilhado entre os milhares de usuários da ferramenta, que acabam tendo apenas uma noção superficial dos conceitos envolvidos? Um dos maiores especialistas brasileiros nesta área da engenharia costuma afirmar repetidamente que “se o engenheiro não sabe modelar o problema sem ter o computador, não deve fazê-lo tendo o computador”, mas receio que ele seja minoria. Nas palavras de Bridle: 

“Aquilo que a computação busca mapear e modelar, ela acaba dominando. O Google se determinou a indexar todo o conhecimento humano e se tornou fonte e árbitro do conhecimento: tornou-se o que as pessoas pensam. O Facebook se determinou a mapear as conexões entre as pessoas – o grafo social – e se tornou a plataforma para essas conexões, reformatando irrevogavelmente as relações sociais. Assim como um sistema de controle aéreo que confunde uma revoada de pássaros com uma esquadra de bombardeiros, o software é incapaz de distinguir entre seu modelo de mundo e a realidade – e, uma vez condicionados, nós também não.” 

Dado o grau de integração entre diferentes sistemas complexos e a intensidade destas interações, os sistemas computacionais são hoje complicados demais para que uma pessoa possa ter uma visão do panorama total – em grande medida, em qualquer projeto de sistema computacional, faz-se uso de componentes e módulos que operam como “caixas pretas”, que recebem entradas, resolvem problemas específicos e retornam saídas para o sistema principal, mas que não foram desenvolvidos e codificados pela mesma empresa que os aplica. Ou seja, a fé no desempenho adequado de cada módulo é um pré-requisito para o seu uso e para o sistema de forma geral. Esse modelo de pensamento de confiança a priori no software é a base para um viés cognitivo que nos leva a considerar que respostas automatizadas seriam inerentemente mais confiáveis que as não automatizadas – o viés da automação. Você já experimentou isso quando digitava um texto que sofreu uma correção ortográfica sobre a qual tinha dúvidas, mas que aceitou. Também experimentou quando deixou que o Waze o guiasse por um caminho pior do que o que faria normalmente. É o responsável, entre outras coisas, também por um número significativo de acidentes de aviação e motivo de preocupação crescente por parte das companhias aéreas. 

O segundo ponto abordado por Bridle diz respeito ao clima, mais especificamente às consequências do aquecimento global e do aumento da concentração de CO2 na atmosfera. São abordadas algumas consequências pouco discutidas do aumento da temperatura e das quais poucas pessoas fora da comunidade científica têm conhecimento. Uma exemplo diz respeito ao derretimento de áreas congeladas a séculos, como o permafrost siberiano: no verão de 2016, o derretimento inédito de uma área na península de Yamal causou a exposição de carcaças de renas enterradas sob o permafrost. As carcaças estavam infectadas com bactérias antraz, que ficaram dormentes até serem novamente, causando um surto na região que levou à morte de uma criança e hospitalização de mais de 40 pessoas. 

Outras consequências dizem respeito a aspectos tão variados quanto a queda no desempenho das transmissões sem fio, riscos para aviação em função do aumento de áreas de turbulência e um dos mais perturbadores de todos: a queda da capacidade cognitiva em função do aumento da concentração de CO2. A concentração de CO2 na atmosfera antes da revolução industrial variava entre 275 e 285 ppm, tendo começado a subir desde então e atingido 310 ppm em torno de 1950 e 400 ppm em 2015. Em um ambiente com uma concentração de 1.000 ppm de CO2, a capacidade cognitiva humana cai 21%. Pode-se considerar que ainda estaríamos longe disso e que não há garantias de que o ritmo de aumento irá se manter, mas fica a observação de que estamos falando de concentração em espaços abertos – em salas de aula de algumas escolas na California e no Texas já chegou-se a medir concentrações de 2.000 ppm ainda em 2012. 

Segundo o filósofo Timothy Morton, o aquecimento global é um “hiperobjeto”: algo que nos envolve e afeta, mas que é tão grande que se torna impossível de ver por completo. Apenas podemos perceber os hiperobjetos por meio de suas influências nas coisas. Por estarem próximos demais e ainda assim tão difíceis de enxergar, são difíceis de dominar e controlar e requerem uma quantidade enorme de computação para modelar. 

É um conceito interessante. Talvez ajude a explicar a ainda grande resistência em se aceitar a realidade do aquecimento global, mesmo dada a enorme quantidade de estudos indicando o fenômeno. Quando olhamos para a abundância de informações que nos foi tornada acessível pelo advento na Internet sobre esse e uma infinidade de outros temas, seria de se esperar que o acesso generalizado a vastos repositórios de conhecimento iluminaria o mundo e colaboraria para a solução dos problemas. Curiosamente, entretanto, em vez da emergência de um consenso coerente, o que se viu foi o despertar de narrativas fundamentalistas simplistas, teorias da conspiração e pós-verdades. 

Além dos dois pontos que abordei acima (opacidade dos sistemas computacionais complexos e efeitos climáticos negativos da atividade humana), o livro aborda ainda uma série de outras questões, como a queda na eficiência no desenvolvimento de pesquisas de medicamentos, o aumento do poder das burocracias e o uso excessivo de dispositivos eletrônicos por crianças para traçar uma perspectiva preocupante de futuro, ao considerar a confluência de todos estes fenômenos em um mesmo momento histórico. É exageradamente pessimista em alguns trechos e faz algumas extrapolações questionáveis, mas traz uma visão diferente de alguns tópicos sobre os quais pensamos pouco no dia-a-dia, mas que realmente mereceriam pelo menos um pouco mais de atenção.

domingo, 24 de março de 2019

The Coddling of the American Mind – How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure

Há um fenômeno novo ocorrendo nas universidades americanas e que vem preocupando seus professores e administradores: ações organizadas por estudantes para impedir palestras de convidados externos que defendam opiniões controversas ou vistas como hostis às suas próprias. Estas ações vão de protestos dentro dos auditórios ao bloqueio do acesso às salas e manifestações mais violentas, com depredação de patrimônio das universidades e agressões físicas. O primeiro destes movimentos a cruzar a linha do uso explícito de violência ocorreu em Berkeley em fevereiro de 2017, com a chamada “Milo Riot” (que recebeu este nome por se tratar de um protesto contra a palestra que seria proferida por Milo Yiannopoulos, um jovem inglês homossexual, apoiador de Trump e com um talento incomum na arte de provocar opositores ao extremo para então usar as reações em benefício de sua própria agenda). Teve todo o arsenal comum das ações black blocs a que nos acostumamos por aqui: coquetéis molotov, ataques a policiais, destruição de caixas eletrônicos, etc. O que foi particularmente perturbador nesse caso foi a justificativa de alguns dos estudantes envolvidos entrevistados posteriormente: a violência física das manifestações seria uma forma legítima de “autodefesa” contra a potencial agressão intelectual representada pela fala do convidado. 

Já em 2014, mudanças de comportamento nos campi universitários americanos chamaram a atenção de Greg Lukianoff, CEO da Foundation for Individual Rights in Education (FIRE) e de Jonathan Haidt, PhD em psicologia social e professor de liderança ética na Universidade de Nova York, levando-os a escrever em 2015 um artigo de grande repercussão sobre o tema para o The Atlantic. Desde então, a escalada na frequência e gravidade desse tipo de ocorrência nos EUA ao longo dos últimos 2 anos os levou a buscar aprofundar sua compreensão do cenário, analisar suas causas e escrever o livro “The Coddling of the American Mind – How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure” (algo como “Mimando a mente americana – como boas intenções e péssimas ideias estão condenando uma geração ao fracasso”). O livro é obviamente novo, mas tem sido muito elogiado por pessoas como Steven Pinker e foi escolhido como o melhor livro de 2018 pela Bloomberg. Conta a história de um tempo estranho e perturbador, em que muitas instituições estão funcionando mal, a confiança vem caindo e uma nova geração (a iGen ou Geração Z - os pós-Millenials), está apenas começando a se formar no ensino superior e a entrar no mercado de trabalho. 



É uma obra focada principalmente na sociedade americana e que analisa eventos ocorridos em instituições americanas, de modo que talvez não venha a ser traduzido para o português tão logo, mas eu sinceramente recomendo a todos que, como eu, têm filhos iGen – posso estar errado, mas temo que o mesmo tipo de movimentação vista nos EUA em breve estará chegando às nossas universidades, uma vez que os aspectos sociais e políticos descritos pelos autores como as razões fundamentais dos fenômenos observados são muito similares aos percebidos atualmente no Brasil (veja a parte III abaixo). Como todo livro bom, é muito difícil de resumir e nenhum resumo substitui a leitura do original, mas as principais ideias apresentadas podem ser resumidas em 4 partes: ideias ruins, seus efeitos, como chegamos a elas e como resolver o problema. 

1 – As péssimas ideias 

Na primeira parte do livro os autores apresentam as ferramentas intelectuais de que o leitor precisa para compreender a nova cultura de “segurança” que vem sendo incorporados à vida dos campi americanos a partir de 2013 e que possibilitam reconhecer o que chamam de as Três Grandes Falácias (ou inverdades, para uma tradução mais precisa). 

A primeira Grande Falácia é a da Fragilidade: crianças e adolescentes são criados hoje em uma cultura de superproteção que, na esteira da paranoia pela criação de espaços e ambientes seguros, as está isolando da exposição a situações e experiências que são fundamentais para a formação de adultos fortes e resilientes. Um exemplo clínico é o caso do banimento de produtos derivados de amendoim nas escolas americanas em meados da década de 90: em vez de diminuir, a taxa de crianças que desenvolveram alergia a amendoim em 2018 foi o triplo do que era observado quando a norma foi implantada. Um estudo publicado pela LEAP (Learn Early About Peanut Allergy) demonstrou que a falta de exposição ao amendoim estava agravando o problema, em vez de amenizá-lo. Como colocado por um dos pesquisadores da LEAP em uma entrevista: 

“Por décadas os alergistas vêm recomendando que crianças pequenas evitem o consumo de alimentos com presença de substâncias alergênicas como amendoim, como uma forma de se prevenir o desenvolvimento de alergias alimentares. Nossas descobertas sugerem que esse conselho seja incorreto e que possa ter contribuído para o aumento da incidência de alergias ao amendoim e outros alimentos” 

Esse é o conceito fundamental em que se baseia a “hipótese da higiene”, a principal hipótese explicativa de porque as taxas de alergias aumentam conforme os países se tornam mais limpos e saudáveis. Segue a explicação desta hipótese por Alison Gopnik e sua extrapolação para o tema de que trata o livro: 

“Graças à higiene, aos antibióticos e a pouca brincadeira fora de casa, as crianças não são tão expostas a micróbios como eram. Isso pode levá-las a desenvolver sistemas imunológicos que reagem de forma exagerada a substâncias que não são verdadeiramente nocivas, causando alergias. Do mesmo modo, ao se isolar as crianças de qualquer risco possível, pode-se levá-las a reagir com medo exagerado frente a situações que não apresentam qualquer risco real e assim impedir que desenvolvam habilidades que lhes serão necessárias na idade adulta.” 

Os autores contam como essa cultura de “segurança” se instaurou na sociedade e como o conceito se infiltrou por outros aspectos da vida americana, ao ponto de, por exemplo, elevar desconforto emocional ao status de perigo equivalente ao de um risco físico - justamente o argumento apresentado no primeiro parágrafo deste post pelo estudante questionado sobre sua participação na Milo Riot. 

A segunda Grande Falácia é a da “Racionalização Emocional”, ou “sempre confie em seus sentimentos”, uma distorção cognitiva que vem se difundindo ao longo dos últimos anos, inclusive por meio da difusão de algumas linhas de livros de autoajuda. Basicamente trata-se de racionalizar, intencionalmente ou não, as emoções de modo que o seu lado racional atue no sentido de sempre buscar elaborar uma teoria para validar uma resposta emocional em vez de questioná-la. Para quem leu “Rápido e Devagar de Daniel Kahneman”, seria como ter o seu sistema racional (lento) sempre submisso ao sistema emocional (rápido). Um exemplo de consequência dessa falácia é a difusão do conceito de “microagressões”. 

Microagressão refere-se a uma forma de se interpretar pequenas indignidades e atos falhos de comunicação contra minorias. Pequenos atos de agressão são reais e o termo poderia ser útil, mas passou a incorporar também pequenas ofensas acidentais e não intencionais, de modo que o uso do termo “agressão” é infeliz. Olhar o mundo permanentemente sob as lentes do conceito de microagressão significa interpretar situações do dia-a-dia sempre da forma mais negativa possível (se eu posso interpretar este comentário do meu colega como racista, é porque foi racista mesmo), amplia a dor experimentada por minorias e escala conflitos desnecessária e injustamente. 

A terceira Grande Falácia é a de que “a vida é uma eterna batalha entre pessoas boas e más”, ou seja a falácia do “Nós contra Eles”. Essa falácia está no centro do efeito de polarização que vemos nas sociedades atuais e já escrevi bastante sobre isso no post sobre o livro “Moral Tribes”, de modo que não vou me alongar nesse tópico. Basta reproduzir a frase do rabino Lord Jonathan Sacks no livro “Not in God’s Name”: 

“Existe um dualismo moral que vê o bem e o mal como instintos dentro de nós e que nos forçam a uma escolha entre os dois. Mas existe também o que eu chamo de dualismo patológico, que vê a humanidade em si como radicalmente dividida entre os impecavelmente bons e os irremediavelmente maus. Você não é nem uma coisa nem outra.” 

2 – Os efeitos 

Na parte II, os autores apresentam as 3 falácias em ação e suas consequências nos campi: bloqueios a palestras, intimidação e violência física ocasional e como estas ocorrências estão tornando difícil a tarefa de educação e pesquisa das universidades. Por serem eventos muito específicos dos Estados Unidos, também não vou aprofundar esta parte, mas quem tiver interesse pode buscar artigos sobre os seguintes eventos:






3 – Como chegamos a isso? 

Na parte III são identificadas 6 fenômenos que explicam as mudanças rápidas de comportamento nos campi entre 2013 e 2017 e que tiveram enorme impacto na geração iGen. É o trecho mais relevante para os pais da minha geração e pode ser facilmente percebido o paralelo com fenômenos similares observados no Brasil: 

- O ciclo de polarização – Os EUA vêm experimentando um aumento constante da polarização partidária desde de os anos 80: uma polarização emocional que leva as pessoas que se identificam com um dos seus dois principais partidos a odiar e temer de forma crescente o partido oposto e seus apoiadores. Este fenômeno ajuda a entender as mudanças nos campi: a polarização partidária nos EUA em geral é praticamente simétrica, mas os estudantes e professores universitários tendem mais à esquerda. Deste modo, universidades são naturalmente mais propensas a se tornarem alvos de hostilidade e desconfiança por parte de conservadores e organizações com tendências de direita. O número de professores assediados ou atacados pela direita em razão de ideias expressas em entrevistas ou redes sociais começou a aumentar a partir de 2016, afetando nitidamente seu comportamento e criando um ambiente em que estão constantemente “pisando em ovos” ao expressar suas opiniões. 

- Ansiedade e depressão – Considera-se 1995 como o ano do nascimento da geração iGen. Em 2006, quando o primeiro iGen fazia 11 anos de idade, o Facebook alterou sua política de requisitos para adesão e deixou de exigir comprovação de matrícula em uma faculdade. A partir daí, qualquer pessoa a partir de 13 anos de idade (ou crianças mentindo a idade) passou a poder aderir. Entretanto, Facebook e mídias sociais em geral não atraíam muita atenção até a introdução do iPhone em 2007. Desde então, ao longo do período compreendido entre 2007 e 2012, a vida social do adolescente americano médio passou por uma mudança muito significativa – os iGen’s são a primeira geração totalmente imersa no enorme experimento social e comercial representado pelas mídias sociais. Não se pode afirmar categoricamente a correlação, mas é fato que os iGen’s apresentam taxas muito mais altas de ansiedade e depressão (especialmente as meninas, cujas taxas de suicídio dobraram desde 2007). As meninas podem estar sofrendo mais por serem mais afetadas por comparações sociais (percepções de realidade distorcidas por exemplo por fotos com beleza ampliada digitalmente), por sinais de que estão sendo deixadas de fora de grupos ou perdendo alguma coisa importante (FOMO – fear of missing out) e por bullying e agressões, todas situações muito mais difíceis de ignorar quando se porta um celular com acesso permanente às redes sociais. 

A chegada dos iGen’s às universidades coincide de forma exata com a intensificação da cultura de “segurança” nos campi e os iGen’s podem ser especialmente atraídos para ambientes de cultura superprotetora. Esta afinidade entre os iGen’s e ambientes “seguros” tem o reflexo de realimentar o ciclo de expansão da cultura de “segurança”, podendo ser entendido como um incentivo às universidades para adotar esse padrão em suas estruturas como uma ferramenta de atração e retenção de alunos, em detrimento do livre debate de ideias. 

- Pais paranoicos – Quando as crianças são superprotegidas, estão sendo prejudicadas. Crianças são naturalmente antifrágeis, no sentido da definição apresentada por Nassim Nicholas Taleb em seu livro “The Black Swan”: elas precisam de situações de stress e desafio para aprenderem, adaptarem-se e crescerem. A superproteção as torna mais fracas e menos resilientes. Comparadas com gerações anteriores, as crianças iGen têm nitidamente menos tempo para brincadeiras não-supervisionadas por adultos, possibilidades de exploração por conta própria e exposição a desafios, riscos e experiências negativas que ajudariam a torná-las adultos mais fortes, competentes e independentes. Além disso, leis e normas sociais superprotetoras bem-intencionadas, mas que dificultam ou impedem que se deixe crianças sem supervisão, podem estar impactando de forma negativa a saúde mental e a resiliência dos jovens de hoje. A criação por pais paranoicos faz com que as crianças abracem as Três Falácias desde cedo. Quando chegam à faculdade, então, são naturalmente seduzidas pela cultura de “segurança” e tendem a reagir negativamente à exposição de ideias e conceitos contrários aos seus, interpretando-os como agressão. 

- O declínio das brincadeiras – Crianças, como os demais mamíferos, precisam de tempo para brincar livremente e interagir em ambientes sem regras para finalizar a formação de seu complexo sistema neural. Crianças privadas de tempo para brincar são propensas a tornarem-se adultos menos competentes física e socialmente, menos tolerantes a riscos e mais suscetíveis a problemas de ansiedade. O declínio do tempo livre para brincar é causado por várias tendências, como um medo exagerado de estranhos e sequestros, o aumento da competitividade e exigências nos processos de admissão em universidades, o aumento da ênfase em atividades extracurriculares e lições de casa mesmo em idades mais tenras e a correspondente perda de ênfase em habilidades não acadêmicas. Além disso, o advento da disponibilidade smartphones e mídias sociais em combinação com estas tendências, vem mudando a forma como as crianças (americanas e brasileiras) gastam seu tempo e afetando os tipos de interação social e física que guiam o intrincado processo de formação e amadurecimento do sistema neurológico. 

- O crescimento da burocracia nos campi – A expansão de uma cultura de “espaços seguros” nos campi geralmente é oriunda de boas intenções, mas pode acarretar consequências ruins para os alunos. Nos Estados Unidos, uma onda crescente de ações legais contra universidades e também pressões de mercado por resultados, transformaram diversas instituições em empresas particularmente preocupadas em agradar a seus “clientes” e este fenômeno vem tendo efeito negativos sobre a liberdade de expressão em seus ambientes. Esforços para proteger estudantes por meio da criação de estruturas burocráticas formais para resolução de problemas e conflitos podem ter consequências não intencionais no sentido de ampliar dependência moral dos alunos e solapar as suas habilidades de resolver conflitos de forma direta e independente tanto ao longo dos cursos como após a graduação. 

- A busca por justiça – Eventos políticos ocorridos nos últimos anos tiveram um forte impacto emocional sobre os adolescentes em formação que estão hoje chegando às faculdades. Estes estudantes respondem a estes eventos com um forte compromisso com o ativismo em prol de justiça social. As noções intuitivas de justiça são de duas naturezas: distributiva (a percepção de que as pessoas estão recebendo o que merecem) e procedural (a percepção de que o processo e as regras são justos e confiáveis). O tema da justiça social é um conceito central nos campi hoje e assume várias formas, em particular de esforços no sentido da igualdade de oportunidades e de que todos sejam tratados com dignidade. Entretanto, quando ativistas estão dispostos a violar as regras e mudar o foco de igualdade de oportunidades para igualdade de resultados, movidos por um senso de justiça distorcido, eles passam a aderir a movimentos e campanhas contraproducentes, indo inclusive contra pessoas que compartilham seus objetivos. Deixam de compreender a verdadeira natureza dos problemas e perdem a legitimidade em seus esforços para resolvê-los. 

4 – Como solucionar o problema? 

Na parte IV são oferecidos conselhos sobre como pais e professores podem criar e educar crianças mais sábias, fortes e independentes e sugeridas formas pelas quais professores, administradores e estudantes universitários podem melhorar suas universidades e adaptá-las ao nosso cenário atual de “revolta turbinada por tecnologia”. Com relação às crianças, as principais sugestões dos autores podem ser resumidas da seguinte forma (incluí apenas 4 das 6 presentes no livro): 

- Prepare a criança para a estrada e não a estrada para a criança – você não vai conseguir ensinar antifragilidade para suas crianças diretamente, mas pode lhes dar o presente da experiência – as milhares de pequenas experiências diárias de que elas precisam para tornarem-se adultos resilientes e autônomos. Este presente começa ao se reconhecer que crianças precisam de tempo livre para brincar sem supervisão, em brincadeiras sem regras formais, para conseguirem aprender a como avaliar riscos por conta própria e a lidar com situações de frustração, tédio e conflitos interpessoais. Elas precisam brincar ao ar livre, com outras crianças. Em algumas situações a supervisão de um adulto pode ser necessária para garantir a segurança física, mas ele não deve interferir em disputas e conflitos. 

- Seu pior inimigo não vai conseguir prejudicá-lo tanto quanto seus próprios pensamentos, se não tomar cuidado com eles – Crianças, assim como adultos, são muito propensos a abraçar a falácia da Racionalização Emocional. Elas precisam aprender habilidades cognitivas e sociais que vão ajudar a limitar a prevalência das emoções sobre a razão e a lidar de forma mais produtiva com as provocações e desafios da vida. Especialmente hoje, quando a internet garante que elas serão expostas a um monte de lixo e frustrações diariamente, é vital que aprendam a interpretar e gerenciar suas respostas emocionais. A principal ferramenta proposta pelos autores é a chamada CBT (Terapia Cognitivo-comportamental), uma forma de psicoterapia que se baseia no conhecimento empírico da psicologia e que é de aplicação extremamente simples, podendo ser aprendida facilmente. Um dos livros que recomendam sobre o assunto é “Feeling Good: The New Mood Therapy” de David Burns), mas fornecem também um guia básico de aplicação de CBT em um dos apêndices do próprio livro. 

 - A linha que divide o bem e o mal corta ao meio o coração de todos os seres humanos – Ajude suas crianças a não cair na falácia dos “nós contra eles”. Não incentive nem propague discursos de ódio. Conceda às pessoas o benefícios da dúvida e pratique humildade intelectual (ou seja, reconheça que pode não estar certo e que o outro pode ter argumentos relevantes para refutar ou reforçar a sua posição). Observe como a escola de seus filhos lida com a questão de identidade política e se não incentiva a internalização da falácia do “nós contra -eles”. 

- Limite o tempo de uso dispositivos eletrônicos – Se as crianças puderem fazer sempre o que quiserem, vão gastar a maior parte do tempo olhando para telas. De acordo com a ONG Common Sense Media, nos EUA os adolescentes tendem a passar 9 horas (!) por dia em frente a telas e crianças de 8 a 12 anos tendem a passar 6 horas diárias. Isso ADICIONALMENTE ao tempo em que eles usam os dispositivos para tarefas e atividades escolares. Um número crescente de pesquisas indica que tal uso excessivo está associado a problemas mentais e sociais, mas o tema ainda precisa de muito estudo. Entretanto, a limitação de tempo a 2 horas diárias vem demonstrando ser um limite saudável e que aparenta evitar os efeitos mentais negativos. Para crianças pequenas, considere banir o uso de dispositivos eletrônicos durante os dias da semana e atrasar ao máximo a incorporação dos mesmos às rotinas diárias. Fique atento também a como as mídias sociais são usadas e sobre como seus filhos lidam com questões como FOMO (fear of missing out), comparações sociais e percepções irrealisticamente positivas sobre as vidas de seus colegas (especialmente sobre os que inundam seus perfis com fotos perfeitas de viagens, festas e passeios). Finalmente, proteja o tempo de sono de seus filhos e interrompa o uso de eletrônicos no mínimo entre 30 e 60 minutos antes da hora de dormir, além de deixar os dispositivos guardados fora do quarto das crianças. 

O livro inclui ainda recomendações às universidades e seus profissionais no estabelecimento de políticas que as fortaleçam em sua função fundamental de busca de conhecimento e da verdade e que também são bastante relevantes e práticas, incluindo um modelo de declaração de princípios de defesa da liberdade de expressão em suas dependências baseado no adotado pela Universidade de Chicago. 

Em suma, apesar de analisar um cenário não muito agradável no ambiente universitário de hoje, o livro oferece soluções práticas para ajudar a mudá-lo. Não é uma obra pessimista, pelo contrário. É bastante otimista com relação à nossa capacidade para resolver as dificuldades atuais e de evoluirmos com elas. Fecha com uma frase de 1830 de Thomas Babington Macaulay, um historiador e parlamentar britânico, que pode ser aplicada tranquilamente aos dias de hoje e a qualquer outro momento da história: 

“Nós não podemos absolutamente provar que estão errados aqueles que nos dizem que a sociedade atingiu um ponto de inflexão e que já vimos nossos melhores dias. Mas isso é a mesma coisa que disseram os que vieram antes de nós, com a mesma propriedade... Com base em que princípios nos baseamos para esperar nada além de deterioração à nossa frente, quando vemos nada além de progresso atrás de nós?”

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Tribos Morais: Emoção, Razão e o Abismo entre Nós e Eles

Qualquer cidadão brasileiro já está cansado de discussões sobre a polarização que se instalou na política e na sociedade brasileira. Não é um fenômeno exclusivamente nacional: situações análogas são claramente percebidas por exemplo na Argentina, EUA, Inglaterra, França e Venezuela, ao ponto do assunto já ter se tornado lugar-comum em boa parte do mundo. Um dos principais problemas acarretados por este fenômeno é a politização de temas graves e técnicos, que deixam de ser tratado com a frieza e seriedade necessária e passam a ser olhados com a profundidade de uma discussão entre torcidas de futebol. 

Tome-se o exemplo da questão do aquecimento global: em 1998, pesquisas indicavam que eleitores Republicanos e Democratas apresentavam probabilidades praticamente iguais de concordar com o argumento de que a mudança climática estava realmente ocorrendo. De lá para cá, ao mesmo tempo em que as evidências científicas sobre o tema apenas aumentaram, surgiu uma curiosa divergência entre eleitores Republicanos e Democratas com relação ao assunto, a ponto de em 2010 um Democrata ter passado a ter uma probabilidade duas vezes maior de afirmar acreditar na mudança climática do que um Republicano. Isso não ocorreu por questões técnicas ou por um eventual menor acesso às informações científicas por parte dos Republicanos, mas simplesmente pelo fato do assunto ter tomado contornos políticos que levaram os dois partidos a se posicionar em campos opostos, forçando um grande número de eleitores Republicanos a ter de optar (até de forma inconsciente) entre aceitar racionalmente as opiniões dos especialistas no assunto ou simplesmente recusá-las e se comportar, então, como um bom e confiável membro de sua “tribo” política. 

A compreensão desse comportamento tribal inerente ao ser humano e a proposição de um ferramental prático que possibilite a formação de consensos mínimos entre as diferentes tribos modernas é o foco do excelente livro “Moral Tribes – Emotion, Reason and the Gap Between Us and Them”, de Joshua Greene (Penguin Books, 2013). Por ser um assunto excepcionalmente denso, é um tanto complicado resumir os conceitos desenvolvidos ao longo das 360 páginas uma forma acessível sem perder os pontos principais, mas como a imensa maioria das pessoas dificilmente terá acesso a ele, acho que vale a pena fazer uma tentativa de transmitir pelo menos a ideia básica. 



1. Moral como adaptação evolutiva

Depois de Darwin, a moral humana mostrou-se um enigma científico. A teoria da seleção natural podia explicar muitas coisas sobre os seres humanos: a inteligência, a fala e o caminhar sobre duas pernas são adaptações evolutivas com benefícios claros. Entretanto, alguns aspectos de comportamento inatos observados não só nos seres humanos, mas também em nossos parentes mais próximos (chimpanzés), pareciam especialmente intrigantes, como a capacidade para empatia desde a primeira infância, um determinado grau de altruísmo e a disposição para a cooperação com outros indivíduos. Se o objetivo final de um organismo seria a máxima propagação de seus genes (ver os comentários sobre o clássico de Richard Dawkins, “O Gene Egoísta”, em https://paginaemblanco.blogspot.com/2016/04/genes-memes-e-richard-dawkins.html), qual o papel evolutivo desse tipo de comportamento cooperativo? A resposta é que, tanto humanos quanto chimpanzés, são seres eminentemente sociais - grande parte do sucesso da raça humana deriva justamente de sua capacidade de cooperação. Nesse sentido, tanto a fala quanto as noções básicas de não-agressão, altruísmo e empatia passam a fazer sentido, viabilizando a formação de grupos relativamente amplos e aumentando as chances de sobrevivência e reprodução dos membros quando comparadas às de indivíduos isolados. Na interpretação de Greene, é justamente a esse conjunto de comportamentos socialmente desejáveis (éticos) e que em grande medida possibilitam a convivência harmoniosa em grupos, que damos o nome genérico de “moral”: 

“Moral é um conjunto de adaptações psicológicas que possibilitam a indivíduos naturalmente egoístas capturar os benefícios da cooperação com outros.” 

Emerge como consequência imediata desse conceito de moral, portanto, a seguinte questão: As nossas noções básicas de comportamento moral são uma adaptação evolutiva, surgida como um sistema de freios contra comportamentos exclusivamente egoístas e que têm a importante função de orientar o comportamento em situações específicas em que é do interesse de um indivíduo colocar o “nós” à frente do “eu”. Deve, portanto, haver uma estrutura em nosso cérebro que tenha evoluído biologicamente para incorporar essa função, certo? Sim. 

Alguns anos atrás eu publiquei nesse blog um comentário sobre o livro “Rápido e Devagar” de Daniel Kahneman (https://paginaemblanco.blogspot.com/2014/06/rapido-e-devagar.html). Kahneman demonstra como o cérebro humano opera em dois modos diferentes e complementares: um modo “automático” extremamente rápido e intuitivo e um modo “manual”, mais lento e racional. Segundo Greene, boa parte de nossas noções básicas de moral vêm justamente do modo “automático”: nosso repúdio natural a matar outra pessoa ou a deixar uma criança desconhecida se afogar, por exemplo. Ao ver uma criança se afogando em uma piscina, nenhum ser humano mentalmente saudável para e considera o estrago que um mergulho vai fazer no seu terno novo – simplesmente se joga na água para salvá-la. Esse reflexo que induz a algumas ações moralmente perfeitas é inerente ao ser humano e vem justamente do sistema de resposta rápida do cérebro. 

Assumamos, então, que a moralidade básica seja uma evolução biológica que emergiu como indutora de comportamento cooperativo entre os seres humana. Essa inovação biológica teria se estabelecido milhares de anos atrás, em um ambiente em que os seres humanos cooperavam ainda em pequena escala, em grupos reduzidos. Fazia sentido biológico para um indivíduo neste momento a cooperação dentro de seu grupo ou tribo, mas o que ocorria quando dois grupos se encontravam e disputavam um determinado espaço? Era de se esperar a deflagração de um conflito em que o grupo mais forte subjugaria o grupo mais fraco, tomando seus estoques de comida, suas mulheres e animais. 

Mas porque a cooperação entre grupos não faria sentido biológico? Ao mesmo tempo que um nível limitado de cooperação dentro de um grupo poderia ser benéfico para a difusão do pool de genes de seus membros, a cooperação mais ampla entre grupos (universal) já passa a ser claramente inconsistente com os princípios de competição e “sobrevivência do mais apto” que governam a evolução por seleção natural. Deste modo, uma vez que se aceita a moral como uma adaptação biológica, decorre que ela teria que evoluir de modo a incentivar dois tipos de comportamento aparentemente antagônicos, mas coerentes em termos evolutivos: como um dispositivo capaz de induzir comportamento que privilegie o “nós” em detrimento do “eu”, mas simultaneamente como um dispositivo para priorizar o “nós” contra o “eles”. Harmonia dentro do grupo. Conflito entre os grupos. 

2. Meta-moralidade 

Considere-se agora a explosão populacional dos seres humanos nos últimos poucos milhares de anos, em que passamos de menos de 10 milhões de caçadores/coletores para mais de 7 bilhões pessoas habitando um mundo industrializado e altamente conectado. É uma mudança ambiental radical e repentina (numa escala de tempo evolutivo), que os nossos dispositivos “morais” biológicos simplesmente não conseguem acompanhar. Em outras palavras, a moral “natural” que regula nosso comportamento dentro de nossas tribos e que por muito tempo regulou o comportamento entre nossas tribos, simplesmente não é mais adequada (por mais que torcidas organizadas teimem em achar o contrário). Faz-se necessária então, segundo Greene, o estabelecimento de uma meta-moralidade que possa ser considerada aceitável e lógica pelos diversos grupos e assim ajudar a regular as relações entre eles, facilitando os consensos mínimos a que já me referi acima. 

A visão defendida por Greene em seu livro é de que a solução está no Utilitarismo, uma doutrina ética desenvolvida por Jeremy Bentham e John Stuart Mill no século XIX. Basicamente, o Utilitarismo define uma ação como “boa” (moral) quando ela resulta em um aumento líquido do nível de “felicidade” no mundo e “má” quando suas consequências reduzem esse nível. Para um utilitarista, a ação correta a ser tomada em qualquer circunstância pode ser calculada examinando-se as prováveis consequências das várias linhas de ação possíveis, sendo a ação certa (moralmente preferível), aquela com maior probabilidade de resultar em maior “felicidade” líquida à humanidade, ou, como colocado por Greene, com maior probabilidade de melhorar a experiência humana. Em suma, em situações de disputa entre duas visões antagônicas de dois grupos diferentes, as pessoas deveriam simplesmente adotar a melhor solução mediante uma análise racional e isenta das consequências de ambas as opções. Ou seja, identificar e escolher a resposta que apresente a maior probabilidade de melhorar o nível geral de felicidade das pessoas. Fácil de dizer, mas extremamente difícil de implementar. 

Quando avaliavam leis e práticas comuns de sua época, Bentham e Mill consideravam apenas um ponto: isso aumenta ou diminui nossa felicidade e em que medida? Eles argumentaram, por exemplo, que a escravidão não é errada porque “Deus se opõe à escravidão”, mas sim porque qualquer benefício que ela possa trazer (em termos de produtividade econômica, por exemplo), é vastamente superado pela miséria que ela produz. Argumentaram do mesmo modo objetivo contra as restrições de direitos das mulheres, contra o tratamento brutal a animais, a favor do divórcio, a favor dos direitos dos homossexuais, pela separação entre Igreja e Estado, por acesso amplo a educação e assim por diante. Enfim, é uma filosofia de profundo pragmatismo e bastante avançada para seu tempo. 

Uma das críticas que se faz ao utilitarismo, entretanto, é de que seu pragmatismo pode levar a conclusões absurdas e a potenciais violações de direitos básicos das pessoas. Sim, é verdade. No caso da escravidão mencionado acima, por exemplo: mesmo que um cálculo utilitarista chegasse à conclusão, pelo motivo que fosse, de que a escravidão de um determinado povo pudesse aumentar a felicidade líquida da humanidade, ninguém em sã consciência apoiaria tal barbaridade. Obviamente, o que Greene defende, portanto, não é um pragmatismo absoluto, mas sim o utilitarismo respeitando restrições óbvias no que se refere à violação de direitos humanos fundamentais. 

3. Direitos como argumentos 

Mencionei acima a restrição à teoria utilitarista no caso de situações em que a melhor solução calculada implica violação de direitos humanos. Obviamente, mesmo que matar e coletar os órgãos de uma pessoa possa salvar a vida de outras cinco que esperam por um transplante, é uma solução escandalosamente errada por implicar uma violação grotesca do direito à vida do “doador”. Entretanto, Greene alerta de forma muito enfática contra o uso de “direitos” como argumento em uma discussão, uma vez que os mesmos não são consenso entre as diversas tribos e simplesmente não há nenhuma teoria universalmente aceita para se estabelecer quem tem direito exatamente a quê. 

Tome-se o tema atualmente em discussão no Brasil sobre o direito à posse e porte de armas de fogo. É um assunto extremamente politizado, em que boa parte dos argumentos gira em torno do “direito à autodefesa”. Quando um debatedor pró-armas apela para esse argumento e introduz o “direito” na discussão, não está ajudando a resolver a questão. Pelo contrário, está simplesmente fingindo que o assunto já foi resolvido por uma entidade superior em algum reino abstrato ao qual apenas ele e sua tribo teriam acesso privilegiado. A partir daí, então, nenhum argumento, estudo ou estatística que possam ser colocados na mesa pela outra parte e que contradiga sua certeza será levado em consideração. A alegação de um suposto “direito” está, portanto, sendo usada descaradamente como uma arma para encerrar a discussão. 

Evidentemente, há direitos fundamentais que desempenham papel vital em nossa vida moral. Discutir sobre direitos pode ser inútil, mas algumas vezes as discussões são mesmo inúteis. Algumas vezes o que você precisa numa controvérsia moral não é de argumentos, mas justamente de armas. E essa é a hora para se levantar e defender seus direitos. Apenas tenha em mente de que os casos em que é realmente legítimo apelar para direitos em uma discussão são a absoluta exceção e sempre desconfie de quem entra com esse tipo de arma na sala. 

4. Moeda comum e soluções de compromisso 

A partir da introdução da proposta de adoção do Utilitarismo como a meta-moralidade mais adequada para resolver os conflitos do tipo “nós” contra “eles”, Greene passa ao detalhamento aprofundado de sua teoria, usando dados de experimentos de psicologia e neurociência, grande parte deles envolvendo o clássico “Dilema do Bonde”, que já mencionei aqui em um post mais antigo sobre moral (https://paginaemblanco.blogspot.com/2011/07/criancas-e-moral.html). Passa também a buscar um instrumento que possa funcionar como uma “moeda comum” entre os diversos grupos e que forneça uma base de comparação justa para os resultados das diferentes linhas de ação possíveis em uma dada situação de conflito entre grupos com opiniões opostas. Em outras palavras, tenta identificar um conjunto de conceitos comuns que possam ajudar a quantificar alternativas e identificar de forma objetiva qual solução funciona melhor em cada situação, levando a um comprometimento geral das partes envolvidas com ela. 

Para tanto, precisamos olhar para coisas básicas que todos nós, participantes das diferentes tribos, temos em comum: em primeiro lugar, somos todos irremediavelmente unidos pelos altos e baixos da experiência humana. Todos queremos ser felizes e nenhum de nós deseja sofrer. Em segundo lugar, todos somos capazes de entender e aceitar a Regra de Ouro (não fazer aos outros o que não gostaria que fosse feito contra si) e que o bem-estar de cada um tem sempre o mesmo peso e importância dos demais. São dois conceitos básicos razoáveis e compreensíveis por todas as tribos. Juntando-se os dois, dá-se o primeiro passo na construção da “moeda comum” procurada por Greene. 

Em seguida, é necessária uma ferramenta, uma régua que ajude a determinar de forma efetiva qual é a melhor solução para uma dada questão. Existem muitas possíveis fontes de conhecimento, mas a mais confiável e aceita é, sem dúvida, a ciência. A ciência pode não ser infalível e certamente há pessoas dispostas a rejeitar de pronto o conhecimento científico quando ele vai contra suas crenças tribais. Do mesmo modo, entretanto, todo mundo adoraria apelar à ciência para legitimar suas crenças (imagine a felicidade dos criacionistas no dia em que um estudo hipotético venha a mostrar, por exemplo, que a Terra na verdade só tem alguns milhares de anos?). Nenhuma outra forma de conhecimento tem essa capacidade. Para o papel de definir qual é a “melhor solução”, portanto, devemos contar com a ciência. Isso significa buscar provas objetivas e observáveis, ter a honestidade de assumir nossa ignorância quando necessário e disposição para ouvir e aceitar a opinião tecnicamente embasada dos especialistas em assuntos que não dominamos. 

 5. Concluindo 

Apresentados estes conceitos, pode-se finalmente resumir de forma objetiva a ideia central defendida no livro: todos nós, participantes das diversas tribos (coxinhas ou mortadelas, cristãos ou ateus, carnívoros convictos ou vegetarianos), temos embutido em nossos cérebros um dispositivo moral “automático” moldado por influências biológicas, culturais e sociais variadas. Esse dispositivo fornece respostas imediatas que nos servem muito bem nos relacionamentos dentro de nossos grupos. Entretanto, nossas teias de relacionamento são hoje muito mais amplas e um comportamento obviamente moral para um determinado grupo não o é necessariamente para outro (imagine pontos como o direito ao aborto, casamento gay, ou direito à posse de armas, por exemplo). Para a resolução de conflitos morais entre grupos e a definição de políticas adequadas que tragam o melhor resultado em termos de felicidade líquida global, nosso dispositivo “automático” não nos serve na maior parte dos casos – podemos (e devemos), ouvi-lo, mas temos que estar preparados para ignorá-lo quando necessário e aprender a nos guiar pelo nosso mecanismo “manual” (lento e racional). Isso é fundamental se quisermos estabelecer comparações isentas e sem vieses entre possíveis linhas de ação, chegando a decisões embasadas, defensáveis e principalmente aceitáveis para todos os interessados. Proceder de tal modo significa o estabelecimento de soluções de compromisso, as quais podem (e normalmente irão) representar resultados sub-ótimos para cada tribo individualmente, mas que pelo menos viabilizarão os consensos mínimos de que tanto precisamos para progredir. 

Se você chegou até aqui, agradeço pela paciência. Quaisquer que sejam as tribos de que faz parte, espero que esse resumo lhe ajude a ter uma visão mais ampla dos mecanismos que estão em ação em qualquer discussão polarizada em que venha a se envolver, por exemplo, nas redes sociais. Lembre-se do exemplo da mudança climática e de como a “tribalização” de opiniões sobre fatos concretos pode levar à implantação de políticas erradas e potencialmente incoerentes em termos utilitaristas. Perceba as situações em que a sua resposta intuitiva possa estar levando a melhor sobre a sua análise racional. Informe-se. Escute os especialistas. Responda e argumente com fatos. Desconfie de quem usa “direitos” como arma em uma discussão. Mas, acima de tudo, esteja preparado também para ouvir, analisar e absorver evidências, especialmente aquelas que contradigam suas certezas mais arraigadas.

domingo, 22 de novembro de 2015

Plato at the Googleplex

O filósofo inglês Alfred North Whitehead uma vez escreveu que “A generalização mais segura sobre a filosofia ocidental é de que ela não passa de uma série de notas de rodapé à obra de Platão”. Esse tipo de afirmação, especialmente vinda de um filósofo, funciona bastante bem como munição para os muitos que não veem qualquer utilidade prática na filosofia. Afinal, se séculos e séculos de discussões não nos trouxeram mais perto de responder às questões fundamentais formuladas por um cidadão ateniense que viveu há mais de 2.400 anos, qual sua serventia? 

Certamente, afirmam os críticos, a filosofia e seus questionamentos tiveram sua contribuição na origem das ciências. Entretanto, à medida que o conhecimento científico avança e especulações filosóficas vão gradualmente sendo confirmadas ou desmontadas por dados, formulações e constatações científicas sólidas, ela estaria progressivamente perdendo sua utilidade, fadada à irrelevância. 

A defesa da filosofia e a demonstração da relevância e atualidade dos temas por ela tratados são os objetivos do livro “Plato at the Googlepex” (Platão no Googleplex), de Rebecca Newberger Goldstein (Vintage Books, 2015). A forma de tratar o assunto escolhida por Goldstein é bem peculiar: trazer Platão para os dias de hoje e envolvê-lo em diálogos do mesmo estilo dos que escrevia, mas com interlocutores atuais. Em um capítulo, Platão discute o que é uma vida que valha a pena ser vivida com um engenheiro da Google e uma media escort; em outro, debate sobre a melhor forma de se criar crianças com uma tiger mom e uma psicóloga bicho-grilo; num terceiro atua como consultor para uma conselheira sentimental de revista feminina; participa de um programa de entrevistas em uma emissora da extrema direita americana; e por aí vai. 



Todas as posições defendidas pelo Platão de Goldstein são embasadas em referências aos seus textos originais e cada diálogo é precedido por um capítulo em que a autora apresenta as bases filosóficas e históricas para estas posições, o que confere mais profundidade ao texto e ajuda o leitor a acompanhar com mais facilidade estas discussões. 

Interessante ver como as questões levantadas por Platão 2.400 anos atrás permanecem pertinentes e atuais. Há menos de 15 dias, por exemplo, ataques terroristas a Paris chocaram boa parte do mundo e causaram, entre outras, discussões sobre a relação entre religião e moralidade, um dos assuntos de que Platão já tratava em Euthyphro (bem antes de Spinoza e Bertrand Russell) e que Goldstein apresenta da seguinte forma (em uma tradução livre): 

“Platão começa o questionamento de forma bem inocente, com Sócrates perguntando a Euthyphro: ‘O que é santo, é santo porque os deuses aprovam, ou eles aprovam porque é santo?’ (IOa). Platão usa a pergunta para separar os conceitos de ações ‘ordenadas pela divindade’ de ações providas de valor moral. O argumento é formulado em termos de ‘dos deuses’, mas é, sem prejuízo à sua força, suscetível à substituição de ‘deuses’ por ‘Deus’. Em suma, o argumento de Platão é o seguinte: Se Deus aprova uma ação, ou Ele o faz arbitrariamente, sem qualquer razão, de modo que é apenas a Sua aprovação que confere valor moral a esta ação; ou existe uma razão para Sua aprovação, de forma que não se trata simplesmente um capricho de Sua parte, havendo uma razão para que Ele aprove tal ação, esta razão sendo o valor moral intrínseco daquilo que Ele aprova. Se a primeira hipótese é a resposta, como este capricho arbitrário pode conferir valor moral à ação? Como algo pode ser bom simplesmente porque alguém lá em cima deseja chamá-lo de bom, na medida em que, se Ele por acaso estivesse com uma disposição diferente na ocasião, poderia da mesma forma considerar a ação exatamente oposta como boa? Por outro lado, se a segunda hipótese é a correta, então existe uma razão efetiva para a atitude normativa divina, sendo esta razão a razão tanto para a aprovação divina quanto para o valor moral daquilo que Ele aprova. Isto faz com que a aprovação divina, normativamente falando, seja redundante – ela é, como se diz hoje, um selo de aprovação. Em nenhum dos dois casos – seja a aprovação arbitrária ou não – esta aprovação sobrenatural faz qualquer diferença sobre a ação ser genuinamente certa ou errada. 

Esta questão, o ‘Dilema de Euthyphro’ ou ‘Argumento de Euthyphro’, permanece um dos argumentos mais utilizados contra a alegação de que a moralidade pode ser apenas fundada sobre teologia, de que é apenas a crença em Deus que se interpõe entre nós e o abismo moral do niilismo. Dostoiévski pode ter declarado que ‘sem Deus tudo é permissível’, mas a resposta de Platão, transmitida ao longo de milênios, é que qualquer ato moralmente inadmissível com Deus é também moralmente inadmissível sem Ele, deixando claro quão pouco a adição de Deus na equação ajuda a clarificar a questão ética” 

Este é apenas um entre todos os tópicos abordados no livro e é, na verdade, um dos tratados mais superficialmente. Todos são atuais e relevantes e a exposição na forma de diálogos ajuda muito no conhecimento também dos argumentos contrários às posições platônicas, além de demonstrar algo muito valioso nos dias atuais: o quanto a exposição e avaliação de diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema enriquece a discussão e o quanto é perigoso e empobrecedor nos cercarmos apenas de pessoas que validam nossas opiniões, seja no mundo físico, seja nas “redes sociais”. Ou, como colocado pelo Platão de Goldstein: 

“McCOY: Então você espera realmente que eu acredite que você acha que amigos são aqueles que tentam refutá-lo? 

PLATÃO: Certamente, quando o que eu digo está errado; e eu não posso ter certeza de que não esteja errado a não ser que ouça as melhores contestações possíveis. E eu espero que eu seja um amigo bom o suficiente para devolver o favor.”

** Uma entrevista recente com a autora pode ser ouvida no ótimo podcast Philosophy Bites, através do link:  http://philosophybites.com/2014/11/rebecca-newberger-goldstein-on-progress-in-philosophy.html



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

Deve ser algum tipo de recorde: 3 meses sem nenhuma postagem. Para afastar a falta de assunto, um rápido comentário sobre o "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia", do Luiz Felipe Pondé.

Eu já havia escrito aqui sobre um outro livro dele, o "Contra um Mundo Melhor" e muito do que eu poderia falar sobre este novo já foi dito sobre o velho, mas assim como no anterior, separei alguns trechos que vão lhe dizer se vai gostar ou odiar este aqui, que se dedica a combater a "praga do politicamente correto". Vamos a eles:



- Sobre as mulheres modernas: "É fato que a própria noção de que a mulher seria o sexo frágil sempre deu a ela a possibilidade de ter "crises" de modo mais tranquilo. Dificilmente veremos homens recomeçando suas vidas num curso de Pedagogia aos 50 anos."

- Sobre religiões da moda: "Uma palavrinha sobre o budismo light ou sustentável, como costumo dizer. Esse tipo de budismo, que se relaciona bem com a "Nova Era" (salada de conceitos religiosos de várias tradições mal cozidos, para consumo da classe média semiletrada e com alta opinião sobre si mesma), é normalmente típico de gente bem egoísta e dissimulada. Dizer que se é budista (ninguém deixa de ser católico ou judeu e vira budista em três semanas num workshop em Angra dos Reis ou num centro budista nas Perdizes, em São Paulo) pega bem em jantares inteligentes, porque dá a entender que você não é um materialista grosseiro, mas sim um espiritualista sustentável."

- Povo e política: "O povo é sempre opressor. Quando aparece politicamente, é para quebrar coisas. O povo adere fácil e descaradamente (como aderiu nos séculos 19 e 20) a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que você pedir. Confiar no povo como regulador da democracia é confiar nos bons modos de um leão à mesa. Só os mentirosos e ignorantes têm orgasmos políticos com "o povo".

- Sobre a diversidade: "Muçulmanos são lindos, índios são lindos, a África é linda, canibais são lindos, imigrantes ilegais são lindo, enfim, todos os "outros" são lindos. Uma das áreas mais amadas pela praga do politicamente correto é a chamada "ética do outro", ou seja, uma obrigação de acharmos que o "outro" é sempre legal. "Outro" aqui significa quase sempre outras culturas ou algo oposto a Igreja, Deus, heterossexual, capitalismo ou arrumar o quarto e lavar o banheiro todo dia."

- Crianças: "Uma coisa simples que aparentemente muita gente não entende: lindos são apenas seus filhos para você, para os outros são pequenos seres humanos mal-educados fazendo barulho. Aqui se traça uma fronteira clara entre você ser ou não um espírito de churrasco na laje: nunca pense que seus filhos são lindos universalmente."

Bom, e por aí vai. Mas só para deixar a certeza de que você não vai gostar de tudo que vai ler (mesmo que tenha gostado de tudo até agora), vai uma que não foi especialmente popular aqui em casa: "Mesmo homens com diploma universitário de engenharia, por exemplo, se julgam capazes de pensamentos profundos sobre o mundo (...)". Palhaço.


PS - não consigo deixar de achar um paradoxo no mínimo curioso o fato deste livro ter ficado tanto tempo como a obra de "não-ficção" mais vendida do Brasil. O dia em que a primeira candidata a "Miss alguma coisa" citá-lo como sua obra preferida, tenho certeza que o Pondé se joga de um viaduto.