terça-feira, 17 de julho de 2018

Civilização - Ocidente x Oriente

Se você vivesse no século XV e tivesse oportunidade de viajar o mundo, ficaria impressionado com o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida das civilizações orientais, como a China e o Império Otomano. Já a Europa Ocidental lhe pareceria um lugar sujo miserável, lutando para recuperar-se da devastação da Peste Negra e enfrentando uma sucessão interminável de conflitos entre reinos vizinhos. Você certamente chamaria de maluco qualquer um que lhe dissesse que o Ocidente dominaria o mundo pela maior parte dos 500 anos seguintes. Mas, como sabemos, foi exatamente isso que aconteceu. 

Em “Civilização - Ocidente x Oriente” (Editora Crítica - 2017), Niall Ferguson busca identificar as razões pelas quais os pequenos e atrasados estados da Europa Ocidental conseguiram produzir uma civilização capaz de subjugar os impérios orientais, conquistar os demais continentes e ainda converter os povos de todo o mundo a seu modo de vida. E não, o demonizado “imperialismo ocidental” não está entre elas. 



Houve muitos impérios ao longo da história da humanidade, muito antes dos construídos pelas nações europeias – impérios eram praticamente a regra no mundo até o século XIX. No século XVI, enquanto os portugueses chegavam ao Brasil, o Império Otomano se estendia da atual Áustria à Argélia, de forma praticamente contínua: 



Ao mesmo tempo, a China prosperava atrás da sua Grande Muralha: 



Para os grandes impérios orientais os navegantes portugueses e holandeses que chegavam às suas praias pareciam o exato oposto de “portadores de civilização” – eram apenas mais alguns bárbaros a aparecer por lá. 

O que então seriam as razões para o que Ferguson denomina de “Grande Divergência” entre os rumos do desenvolvimento das civilizações ocidental e oriental a partir do século XVI e que levou à dominância europeia? Fazendo uma analogia com termos de informática, ele identifica no livro seis “apps” inovadores desenvolvidos pelos europeus e cujo poder combinado foi fundamental para seu sucesso como civilização: 

1- A competição (a concorrência como motor de inovação tanto na economia quanto na política) 

2- A ciência (o conceito e o método para se interpretar e transformar o mundo natural de forma eficiente, que deu, por exemplo uma vantagem militar fundamental aos europeus) 

3- Os direitos de propriedade (lei como proteção aos proprietários privados e ferramenta de solução de conflitos e base estável para um governo representativo) 

4- A medicina (aumento da expectativa de vido e melhoria extremamente significativa nas condições de saúde, inclusive nas colônias) 

5- A sociedade de consumo (modo de vida material como forma de criação de uma demanda infinitamente elástica por produtos, possibilitando as bases para a Revolução Industrial) 

6- A ética do trabalho (como um sistema moral capaz de fornecer coesão à estrutura social resultante dos outros 5 fatores) 

Todos os 6 são dissecados em profundidade ao longo de “Civilização”, juntamente com alguns fatores adicionais, que, apesar de não terem sido consequência direta de ações do Ocidente, também contribuíram de forma fundamental para seu triunfo, como a crise interna e o subsequente colapso da Dinastia Ming, por exemplo. 

Olhando-se estes seis “apps” como uma mera lista de tópicos, tem-se a sensação de que Ferguson faz uma analogia rasa e simplista, mas não é o caso. Do mesmo modo que, ao usar um app no seu celular, tudo lhe pareça muito simples (mesmo que o aplicativo demande uma tecnologia extremamente complexa por trás), ao mesmo tempo em que as seis ideias e instituições relacionadas por Ferguson pareçam simples e óbvias, demandam um código social e histórico extremamente complexo para funcionar. Um código que boa parte das nações (incluindo o Brasil) ainda hoje não dominam totalmente. 

Mas e daqui para frente? 

Em sua conferência proferida pelo programa “Fronteiras do Pensamento” em novembro de 2017, Ferguson analisou também os rumos futuros desta civilização: estaríamos chegando ao fim deste ciclo e começando a sentir os efeitos de uma “Re-convergência”, com a exaustão da hegemonia ocidental? 

É evidente que algumas nações orientais já absorveram e colocaram em prática os tais “apps” relacionados acima (Japão e a Coréia do Sul são apenas os exemplos mais óbvios). Outras, como a China, abraçaram a maioria com entusiasmo, mas ainda encontram dificuldades imensas com os itens 1 e 3, por exemplo. Entretanto, os maiores riscos à hegemonia ocidental não vêm, segundo Ferguson, de fora. Eles se encontram em fenômenos internos bastante recentes, característicos dos países ocidentais nesse início de século: 

1- A quebra do contrato entre as gerações – de um lado os baby-boomers, uma geração que conseguiu acumular mais riqueza que as anteriores e agora se aposenta também mais protegida do que as anteriores. Do outro, os millenials: atolados em dívidas, mal-remunerados, vendo recessão, crises fiscais e déficits previdenciários explodirem pelo mundo, cujas contas terão que pagar. 

2- O excesso de regulação às atividades econômicas – a quantidade de normas e restrições impostas a empresas e negócios no ocidente, comparada com as enfrentadas por seus pares nos países orientais. 

3- The rule of LAW x The rule of LAWYERS – apesar de ser uma tradução difícil para o português, o significado é intuitivamente simples: a indústria de ações e litígios que prolifera nas nações ocidentais, engordando um batalhão de advogados que fazem com que a lei deixe de ser uma ferramenta de proteção ao indivíduo e passe a ser simplesmente um negócio lucrativo; deixe de ser simples e objetiva para ser propositalmente complexa e interpretativa. Caso ainda não esteja claro, passe pela porta de qualquer sindicato na sua cidade com uma carteira de trabalho na mão e veja o que acontece. 

4- A decadência da sociedade civil – a queda brutal na participação em associações voluntárias como entidades de caridade ou ambientais, sindicatos, associações de arte, igrejas e associações esportivas. Ou seja, o desmonte da sociedade civil organizada e a transferência progressiva de responsabilidades para os órgãos governamentais. 

5- O foco excessivamente concentrado nos “pecados” da civilização ocidental, especialmente nos meios acadêmicos, em contraposição à valorização de seus aspectos positivos. Ou seja, a supervalorização, por exemplo, das chamadas “dívidas históricas”, tão propaladas nas nações latino-americanas e a rejeição a priori de que o imperialismo ocidental possa ter trazido qualquer benefício às colônias. 

6- O efeito nocivo de polarização causado diretamente pelas redes sociais – o modelo de negócio de redes como Facebook em que o valor está na captura da atenção e cliques dos usuários representa um incentivo monetário concreto para que estas redes foquem progressivamente na exibição de conteúdo alinhado com o perfil e ideologia do usuário, o que realimenta continuamente suas convicções em vez de lhe oferecer contrapontos e resulta rapidamente na formação de clusters de iguais, cada vez mais desconectados de opiniões divergentes e menos capazes de avaliar de forma crítica e serena cenários políticos, sociais e econômicos. As consequências no mundo físico desta polarização apenas agora começam, após eventos como a eleição de Trump, o Brexit e o escândalo com a Cambridge Analytica, a ser estudadas a sério (*). 

A questão da “Re-convergência” é explorada por Ferguson no seu último livro, “The Square and the Tower”, lançado em outubro de 2017 nos EUA e até o momento sem tradução para o português. 



Se estes fatores identificados por ele serão realmente capazes de reverter o domínio ocidental e elevar um novo modelo à posição de dominância global ainda é cedo para dizer, mas uma coisa é certa: pelo menos os chineses já têm absoluta convicção de que estes últimos séculos foram apenas um acidente de percurso e de que agora a hora deles chegou. 

(*) OBS – para um exemplo interessante de modelo de análise de formação de clusters em redes sociais, ver o artigo “Role of social environment and social clustering in spread of opinions in coevolving networks” disponível em
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4108632/

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Uma dose carnavalesca de otimismo, para variar

Nestes dias de Carnaval é bastante comum nos depararmos com posts nas redes sociais do tipo “o Brasil do jeito que está e o pessoal pulando Carnaval...”, ou “se o povo usasse a mesma energia do Carnaval para lutar por um país melhor...”. É realmente muito fácil nos deixarmos deprimir pela enxurrada de notícias negativas que vemos nos noticiários todos os dias, então eu gostaria de compartilhar um ponto de vista um pouco diferente sobre o Brasil, que talvez ajude o pessoal a ver um outro lado e se animar um pouco. 

Tive oportunidade de participar, há alguns meses, de uma palestra para empresários do setor de embalagens proferida pela jornalista de economia Míriam Leitão em um evento pequeno promovido pela Henkel dentro da programação da Fispal Tecnologia 2017. O tema era tendências econômicas, mas Míriam usou o espaço para apresentar a sua visão macro sobre o futuro do Brasil e transmitiu um otimismo bem fundamentado, que teve um impacto sensível sobre os que tiveram a sorte de participar do evento. 

O primeiro insight que ofereceu foi sua visão de que o Brasil vem evoluindo paulatinamente em ciclos de formação de grandes “consensos nacionais”. De tempos em tempos, mais especificamente a cada década, o país tende a compartilhar uma visão comum com relação a um de seus grandes problemas fundamentais e este grande consenso se torna parte do motor da mudança, levando a uma solução definitiva de questões que até então pareciam insolúveis. Teríamos passado, assim, pelos seguintes ciclos nas últimas décadas: 

- Década de 1980 – Processo de redemocratização, com o fim de um governo militar de mais de vinte anos; 
- Década de 1990 – Estabilização econômica e fim do ciclo de hiperinflação; 
- Década de 2000 – Implantação de programas sociais de distribuição de renda e combate à fome. 

Cada um destes consensos atacou problemas críticos e estabeleceu novas realidades tão solidamente estabelecidas que nem se cogita a possibilidade de retorno à condição anterior – não é mais factível imaginar-se hoje o retorno de uma ditadura militar, da mesma forma que não temos mais o medo constante de um ciclo de hiperinflação. Também não há como se imaginar a erradicação de programas de distribuição de renda que, por mais que precisem de aperfeiçoamento, não deixam de ser fundamentais e irreversíveis. 

Estaríamos agora, na década de 2010, passando por um novo ciclo, desta vez atacando o problema da corrupção endêmica e dos vínculos escusos entre a velha política e as velhas estruturas empresariais. Assim como nos ciclos passados, o processo exige sacrifícios, mas ao que tudo indica, está se estabelecendo no Brasil um novo patamar de governança e uma nova forma de se fazer negócios, em que as práticas antigas do compadrio, da sonegação e do jeitinho deixaram de ser o padrão aceitável e natural e passaram a ser o que sempre deveriam ter sido: a exceção condenável.


A corroborar a visão de Míriam Leitão sobre o tema, vem a opinião de um amigo com quem conversei em dezembro, diretor de compliance de uma grande multinacional europeia e uma das maiores referências em governança corporativa no Brasil. Estava me queixando da situação de concorrência desleal que encontro em meu mercado de atuação, com concorrentes praticando sonegação escancarada e subfaturamento de produtos e a resposta dele foi surpreendente: riu. Disse: “Você não entendeu ainda, não é? O Brasil não está mudando. O Brasil já mudou. Isso que você está me contando não existe mais. Não há mais espaço. Pode ser que ainda existam empresas operando dessa forma, sim. Mas o caso é que esse pessoal já está preso. Pode ser que ainda não saibam, mas já estão presos”. 

O ponto principal do argumento é que há toda uma nova situação de ferramentas de controle nas mãos da fiscalização, toda uma nova geração de profissionais no setor público e principalmente todo um clima de combate às práticas antigas que fazem com que corrupção e sonegação tendam a se tornar inviáveis e arriscadas demais para serem compensadoras. Quem não acordou ainda para essa realidade está em sério risco. Ou já está preso. 

O segundo insight compartilhado na palestra foi o da situação estratégica do Brasil no cenário mundial previsto para as próximas décadas. Em diversos aspectos temos razões concretas para otimismo: 


1 – O Brasil é detentor da maior biodiversidade do mundo, que é um ativo fundamental e extremamente valioso para o desenvolvimento de tecnologias para desde a medicina, até as indústrias de alimentos e cosméticos; 

2 – O Brasil possui uma das maiores reservas hídricas do mundo, tanto em termos de rios quando em termos de aquíferos subterrâneos e que se torna mais valiosa a cada ano (vide a situação caótica na Cidade do Cabo hoje, ou mesmo a crise por que passou a cidade de São Paulo pouco tempo atrás); 

3 – Temos um potencial gigantesco em termos de energias limpas: o país possui condições ideias para instalação de usinas de energia solar em praticamente todos os estados da federação, à exceção talvez do Paraná. Mesmo no caso do pior deles, a condição ainda é melhor do que na Alemanha, que hoje é o maior produtor mundial de energia de origem solar. Além disso, o potencial para energia eólica em terra é dos melhores do mundo: nossos ventos são de baixa altitude, constantes e de baixa turbulência – uma condição ideal para a implantação de usinas eólicas; 

4 – O Brasil é um grande produtor e exportador de alimentos e continuará sendo. Além do sucesso atual do agronegócio brasileiro, as atividades de pesquisa desenvolvidas em institutos como a Embrapa já garantem a disponibilidade de sementes adaptadas às situações de mudança climática que o planeta vem enfrentando, adequadas às condições de produção previstas para as próximas décadas, garantindo a sustentabilidade de nossa produção a longo prazo; 

5 – O tamanho da população e ritmo de crescimento são adequados, não exercendo pressões demográficas excessivas. Ou seja, a população jovem não é tão grande que represente um problema nem estamos enfrentando um processo de envelhecimento que implique em risco de escassez de mão-de-obra; 

6 – A disponibilidade de terras no Brasil para expansão agrícola, sem que seja necessário desmatamento adicional, é extraordinária. O estoque disponível é atualmente de 60 milhões de hectares, equivalente exatamente à soma das áreas totais da Alemanha e do Reino Unido. 

Note-se que todos os seis pontos mencionados acima são concretos e representam vantagens estratégicas reais a curto e médio prazos. Não se está mencionando pontos questionáveis como o valor das reservas de petróleo no pré-sal, por exemplo. Alguns são ainda intangíveis, mas não por isso deixam de ser uma realidade. 

Enfim, sabemos todos que o Brasil não é uma nação desprovida de problemas. Pelo contrário, somos pródigos nesse sentido. Mas a mensagem que gostaria de transmitir aqui é a de que às vezes precisamos ter um certo distanciamento dos noticiários negativos e olhar o cenário macro – há muitas e boas razões para acreditarmos no nosso futuro e podemos, sim, celebrar. 

“(...) Se tudo correr bem, chegaremos um dia a ser como outra nação desenvolvida qualquer – algo semelhante, digamos, a um estado do Sul dos Estados Unidos ou a um país do Mediterrâneo europeu (...). “Se tivermos racionalidade e competência, chegaremos lá.” - Eduardo Giannetti

sábado, 18 de novembro de 2017

Bourgeois Dignity - Why economics can't explain the modern world

Por volta de 1800, um ser humano médio consumia o equivalente a US$ 3 por dia. Atualmente, um morador de países como França ou Japão consome algo próximo a US$ 100 por dia. Esta é a magnitude do crescimento econômico neste período. Se forem levados em conta os benefícios para a qualidade de vida média por conta de inovações que vão da anestesia às viagens de avião, pode-se afirmar sem sombra de dúvida que as condições materiais da humanidade evoluíram em uma proporção ainda muito maior. Em “Bourgeois Dignity - Why economics can't explain the modern world” (The University of Chicago Press, 2011), a economista Deirdre N. McCloskey busca identificar as causas desta onda repentina de desenvolvimento que nos trouxe até o mundo moderno e porque ela se originou no ocidente e não no oriente, apesar de algumas regiões (como a China) apresentarem condições muito mais promissoras que as da Europa, com séculos de antecedência. 


Para McCloskey, forças econômicas não foram a causa original do crescimento visto a partir de 1800 – a economia descreve como essa onda de desenvolvimento se expressou nas diversas regiões do globo, mas não explica as suas causas. Quais seriam então estas causas? O argumento defendido em “Bourgeois Dignity” (e nos dois outros dois volumes que compõe a trilogia da qual o livro é o 2º volume), é uma mudança ética e de retórica a partir de 1800 na Europa foi absolutamente fundamental para abrir o caminho para o modelo capitalista, que possibilitou e levou à Revolução Industrial. 

Ao se referir ao capitalismo, McCloskey adota outro termo: “inovação”, por considerá-lo mais adequado e menos carregado de preconceitos. O que ela argumenta ao longo das 500 páginas do livro é que o verdadeiro liberalismo, que foi como Adam Smith denominou o “sistema óbvio e simples de liberdade natural”, foi o grande responsável pelo crescimento moderno e que ele tem indiscutivelmente as evidências históricas ao seu lado, ao contrário tanto da ideologia socialista quanto da conservadora (focada em acumulação de capital). 

McCloskey defende que a parcela da sociedade responsável pela explosão de crescimento a partir da disseminação dos fundamentos do capitalismo foi uma classe particularmente desprezada até o século XVI: a Burguesia. O termo “burguesia” é usado no texto em seu sentido francês original, de uma classe de profissionais liberais, arquitetos, artesãos, engenheiros, donos de negócios e empreendedores, usualmente moradores das cidades - a chamada “classe média” - e não no sentido marxista usual de “alta burguesia” (os capitães da indústria). 

Após séculos sendo desprezada pelas elites da nobreza, da intelectualidade e do clero, que viam suas atividades como “indignas”, finalmente, trezentos anos atrás, em lugares como a Holanda e a Inglaterra, a imagem da classe média começou a mudar. Conversas sobre negócios, inovação e mercados começaram a ser mais difundidas e aceitas. Os filósofos e teóricos foram levados a repensar o seu preconceito contra a burguesia. As ideias disseminadas pelos países do Atlântico Norte alteraram radicalmente a economia, a política e a retórica. Uma ampla e repentina mudança de posição da opinião pública com relação à burguesia começou a ocorrer no noroeste europeu, em especial em favor das noções de mercado, empresas e inovação. Primeiro a economia no Mar do Norte começou a mudar, depois a economia no Atlântico e finalmente a economia mundial começou a crescer por causa destas mudanças de discurso. O capitalismo como sistema econômico surge quando o comerciante e o empreendedor finalmente começam a ser socialmente aceitos (a “dignidade” do título) e a ser protegidos contra a exploração do estado e do clero (“liberdade”). Os países do Mar do Norte atingem a “dignidade burguesa” com liberdade para empreender e o desenvolvimento econômico vem logo a seguir. 

O livro discorre em detalhes sobre essa questão da mudança de mentalidade e não é possível relacioná-los todos aqui, mas um exemplo interessante refere-se à forma como a inovação virou o jogo diz respeito à dinâmica econômica nas sociedades rurais até 1800: até esta época, quaisquer inovações, digamos, em vestuário ou em embarcações, faziam muito pouco para mudar a vida a US$ 3 por dia mencionada no início deste texto. Se as coisas melhorassem para uma comunidade, as pessoas tendiam a ter mais filhos e então a situação novamente se deteriorava, uma vez que parcela de terra disponível para a produção de alimentos na referida comunidade permanecia a mesma. Ou seja, tinha-se estabelecido um jogo de soma zero. O homem comum não tinha nenhuma razão para acreditar que a vida de seus descendentes seria melhor do que a sua própria. 

Com o capitalismo, entretanto, o jogo passou a ser de soma positiva e a maldição malthusiana foi quebrada. O regime frenético de inovações após 1800 e especialmente após 1900 enriqueceu as pessoas de maneira geral. As novidades, como o motor a vapor, o avião ou o Walmart, eram agora disseminadas de forma abrangente e as pessoas comuns se beneficiavam das inovações pela primeira vez na história. Em 200 anos, o nível médio de consumo mundial explodiu e hoje é de US$ 30 por dia (US$ 137 se você for norueguês). A este aumento puramente monetário, acrescente os benefícios materiais e intangíveis trazidos pela disseminação cada vez maior do acesso à saúde, educação, transporte, energia elétrica, alimentação e informação. Pela primeira vez tem-se estabelecido um sistema econômico operando em favor do povo em geral, em vez de apenas de uma casta de privilegiados. Como colocado por McCloskey: pense um pouco na pobreza e opressão a que os seus ancestrais eram submetidos cinco gerações atrás e regozije-se. Sem falar na expectativa de vida. 

Como “Bourgeois Dignity” não tem uma edição brasileira, é de se imaginar que poucos terão acesso ou mesmo contato com o livro no Brasil, mas a versão digital na Amazon está disponível por US$ 13,20. É um livro denso, mas escrito de forma surpreendentemente leve, bem humorada e que merece ser lido – é especialmente gratificante para aqueles que acordam todos os dias para enfrentar uma realidade em que a retórica de esquerda tenta emplacar um falacioso discurso de monopólio de todas as virtudes e em que um governo inchado e corrupto parece convencido de que a classe média existe para sustentar os privilégios de uma casta medieval de “eleitos” do funcionalismo público. 

Deirdre McCloskey esteve em São Paulo em outubro de 2017 para uma conferência e debate como parte da programação do  Fronteiras do Pensamento, com mediação de Mônica Waldvogel e participação do economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil. Alguns momentos da apresentação podem ser vistos neste link.


Finalmente, a despeito da imagem que você possa ter formado a seu respeito, acho que cabe informar que não se trata de uma catedrática conservadora. Autodenominada uma liberal cristã, com 71 anos e Ph.D. em Economia por Harvard, Dreidre McCloskey é transexual e ativa defensora da economia de livre mercado, da ética e dos direitos das pessoas transgênero. Nada mais coerente. Afinal, como colocado pelo intelectual espanhol José Ortega y Gasset em 1920: “Ao contrário da visão comum, que tende a reduzir o liberalismo econômico a uma receita de livre mercado, impostos baixos, despesas governamentais controladas e negócios privados, o liberalismo é, acima de tudo, uma atitude perante a vida e a sociedade baseada na tolerância e coexistência, no respeito pela história e pelas experiências únicas de diferentes culturas e na defesa firme da liberdade. (...) A liberdade econômica é um elemento chave da doutrina liberal, mas certamente não é o único.”.

sábado, 9 de setembro de 2017

O homem que amava os cachorros

Escrito pelo premiado cubano Leonardo Padura, “O homem que amava os cachorros” (Boitempo, 2013) é um thriller histórico excelente sobre o exílio imposto a Trotski por Stalin e sua posterior caçada pelo assassino espanhol Ramón Mercader no final da década de 30. 




Em forma de romance, alternando 3 pontos de vista diferentes (o do próprio Trostki, o de Mercader e o de um escritor cubano que tem contato com a história décadas depois), é um relato histórico detalhado de um episódio pouco lembrado, tendo por fundo três revoluções desvirtuadas e perdidas: a russa, a espanhola e a cubana. 

O livro acompanha a última década da vida de Trotski, já considerado por Stalin um traidor e contrarrevolucionário, iniciando por seu exílio em Alma-Ata, na União Soviética, e continuando por sua deportação e posteriores exílios em Prinkipo (Turquia), França, Noruega e México, ao mesmo tempo em que narra o recrutamento e transformação do revolucionário espanhol Ramón Mercader em Jacques Monard, que veio a assinar Trotski no México em 1940. 

Mais do que contar a história dos últimos anos de Trotski, Padura descreve o ambiente de terror vivido na União Soviética nos tempos dos expurgos stalinistas, expõe a lógica que levou o governo soviético a assinar o pacto de não-agressão com a Alemanha nazista em 39 e que deixou Hitler livre para dominar a Europa, mostra como as divisões internas entre os diversos grupos na revolução espanhola contribuíram para o seu fracasso e retrata a atmosfera de fome e desespero que assolou Cuba após o fim da União Soviética, mas, acima de tudo, é um relato da admirável tenacidade e resiliência de Trotski e da fé na sua causa.

sábado, 27 de maio de 2017

Sete breves lições de física

Apesar da revolução por que vem passando a Física desde o século passado, a maior parte dos novos conceitos permanecem um mistério para a maioria dos leigos. Mesmo para aqueles que cursaram faculdades de ciências exatas como Engenharia, a compreensão dos conceitos da mecânica quântica, por exemplo, não é nada trivial e demanda um ferramental matemático razoavelmente sofisticado. 

Nesse contexto, uma obra curta, simples e acessível como “Sete breve lições de física” do italiano Carlo Rovelli, são extremamente úteis para quem deseja uma introdução ao assunto que lhe permita absorver os conceitos básicos em linhas gerais e compreender, por exemplo, porque investimentos científicos bilionários como os realizados no colisor de partículas do CERN são importantes. Dados os aumentos na frequência e intensidade dos ataques que a ciência vem sofrendo recentemente por parte de fundamentalismos das mais variadas naturezas, a relevância deste tipo de texto é grande.




O trabalho de pesquisa de Rovelli concentra-se em uma das fronteiras da física: a teoria da Gravitação Quântica em Loop, nas palavras de Rovelli, “uma tentativa cautelosa de combinar relatividade geral e mecânica quântica, sem utilizar outras hipóteses além destas duas teorias, oportunamente reescritas para tornarem-se compatíveis”. O livro, portanto, começa com alguns conceitos básicos e história da Física e vai progredindo no seu embasamento teórico até dar ao leitor leigo condições de assimilar em linhas gerais as premissas e consequências desta teoria (que, devo avisar, contradiz e desconstrói maravilhosamente boa parte das suas certezas sobre o espaço e o tempo). 

Rovelli esteve no Brasil agora em maio para proferir as palestras inaugurais do ciclo 2017 do Fronteiras do Pensamento. Como seria de se esperar de um bom físico-celebridade, apareceu descabelado e de sandálias e encantou a plateia com sua clareza e simplicidade. Um breve resumo de sua apresentação sobre “O que é ciência?” pode ser acessado na plataforma de conteúdo digital do Fronteiras, em: http://www.fronteiras.com/resumos/o-que-e-ciencia-sp

sábado, 25 de março de 2017

22/11/63

A data que Stephen King usa como título de seu bestseller de 2012, "11/22/63" (Gallery Books, 2012), pode não dizer muito à maior parte dos brasileiros, mas é gravada na história americana de forma tão marcante quanto o 09/11 - o assassinato de John F. Kennedy em plena paranoia da Guerra Fria, com efeitos profundos na condução das políticas interna e externa norte-americanas e considerado por muitos um divisor de águas nos eventos da 2a metade do século XX (para um breve panorama dos efeitos políticos da morte de JFK, vai um link para artigo do Washington Examiner



A premissa do livro é justamente a especulação sobre o que poderia ter acontecido com o mundo se o assassinato não tivesse acontecido: a guerra do Vietnam poderia ter sido evitada? Como teria sido a evolução dos conflitos pelos direitos civis dos negros e a luta de Martin Luther King? Bobby Kennedy ainda teria sido assassinado no Ambassador Hotel depois das primárias na Califórnia em 68? Enfim, quantos eventos-chave na história seriam afetados se a morte de JFK fosse de algum modo evitada e quais as consequências? Jake Epping, um professor de inglês americano em 2011, recebe a oportunidade real de testar esta hipótese. 

O proprietário/cozinheiro de um pequeno restaurante no estado do Maine, amigo de Epping, lhe apresenta uma passagem nos fundos de seu depósito, capaz de transportá-lo até o ano de 1958, a partir de onde (ou de quando), poderá viver , planejar e trabalhar ao longo dos cinco anos seguintes para tentar evitar o assassinato. Entretanto, algumas questões importantes precisarão ser esclarecidas para que o plano tenha sucesso: 

- O tiro que matou Kennedy realmente partiu da arma de Lee Harvey Oswald? 

- Oswald estava agindo sozinho, ou o havia um segundo ou terceiro atiradores? 

- Tratou-se de uma atitude isolada de um lunático, ou havia envolvimento da própria CIA? 

Ou seja, a tarefa de Epping não se restringe a deter Oswald, uma vez que caso ele fizesse parte de uma conspiração elaborada, Kennedy acabaria morto por outra pessoa e o esforço de cinco anos teria sido em vão. 

Além disso, como Epping vai percebendo rapidamente, o passado é extremamente resistente a mudanças e, quanto maior a importância do evento, mais difícil é alterá-lo. O livro é bastante longo (cerca de 840 páginas), mas bom o suficiente para prender a atenção até o final. Aborda alguns temas muito interessantes como as diferenças entre a situação do preconceito racial nos estados do norte e do sul dos EUA nas décadas de 50/60, a tensão constante entre EUA e URSS e o medo da hecatombe nuclear na Guerra Fria, a vida e costumes nas cidades do interior americano e, é claro, o famoso "efeito borboleta" e as consequências imprevisíveis de se mexer com o passado. 

"11/22/63" foi dividido em partes bem definidas, como se já tivesse sido escrito com uma adaptação para série de TV em mente, que realmente foi produzida e lançada em 2016 no Hulu, com direção de JJ Abrams e a promessa de chegar ao Netflix Brasil em breve. Um teaser pode ser visto abaixo:




Finalmente, cabe observar que há também uma dose de crítica política por parte de King, que recebe kudos por incluir no livro (de 2012), o seguinte diálogo imaginário entre George de Mohrenschildt (russo amigo de Oswald nos EUA) e o próprio Oswald, sobre a possibilidade do general super conservador Edwin Walker concorrer à Casa Branca: 

"That could never happen." But Lee sounded unsure. 

"It´s unlikelly to happen," de Mohrenschildt corrected. "But never underestimate the American bourgeoisie's capacity to embrace fascism under the name of populism. Or the power of television. (...)"


sábado, 8 de outubro de 2016

O direito à "felicidade"

Estamos em um tempo de obsessão das pessoas por seus supostos "direitos". Por todos os lados, um desfile interminável de demandas por direitos - algumas justas e outras nem tanto. Como colocado por Luiz Felipe Pondé, vivemos no ocidente uma cultura de direitos e não de deveres: "O mundo contemporâneo pensa em termos de direitos. Esse mundo rico, capitalista, bem-sucedido, de gente jovem, saudável, narcisista, que tem poucos filhos e anda de bike. A psicologia dessa gente é: o mundo me deve. Eles operam a partir do que o outro deve prover e não do que eles devem prover." [PONDÉ, 2016] 

A combinação de um mundo de superexposição a mídia, marketing intensivo, onipresença de redes sociais, egoísmo endêmico e uma cultura de "direitos" parece uma receita para o desastre: uma geração em que todo mundo acredita que tem direito a um iPhone de última geração, um apartamento com varanda gourmet e uma família de comercial de margarina... mas com um emprego de Canal Off, é claro. Afinal, temos o direito à felicidade e quem consegue ser feliz com um emprego chato? 

Há um dialogo chave no filme Interestellar em que o protagonista (Cooper, interpretado por Matthew McConaughey), enfrentando os últimos dias de um mundo arrasado, desértico e assolado pela fome, escuta o seguinte de Donald (John Lithgow): "Quando eu era criança parecia que eles faziam uma coisa nova todos os dias. Algum gadget ou ideia. Como se todo dia fosse Natal. Mas seis bilhões de pessoas... tente imaginar. E cada uma delas tentando ter tudo.

Resume bem, não é? Somos uma geração de mimados. 

Em uma palestra excepcional sobre infidelidade para TED em março de 2015, a psicoterapeuta Esther Perel expõe ainda um outro lado desta realidade : 

"(...) Mas então nós temos que lidar com um outro paradoxo hoje em dia. Por causa deste ideal romântico, nós estamos confiando na fidelidade de nossos parceiros com um fervor único. Mas também nós nunca fomos tão inclinados a trair, e não porque hoje tenhamos novos desejos, mas porque vivemos em uma era em que sentimos que somos merecedores de perseguir nossos desejos, porque esta é a cultura onde eu mereço ser feliz. E se nós antigamente costumávamos nos divorciar porque éramos infelizes, hoje nós nos divorciamos porque podemos ser mais felizes. E se (antes) o divórcio vinha com vergonha, hoje escolher ficar, quando você pode partir, é a nova vergonha." [PEREL, 2015] 

Na educação o panorama também não é diferente: converse com um professor universitário e verá que nunca tivemos tantos alunos, mas tão pouco estudantes. Os adolescentes (sim, adolescentes, porque hoje as pessoas se comportam como adolescentes até pelo menos uns 30 anos), conseguem entrar em uma faculdade particular sem esforço e depois se espantam por precisarem se dedicar para conseguir o diploma. Fazem abaixo-assinados contra professores exigentes, esperneiam porque têm aulas à noite às sextas-feiras, reclamam dos trabalhos, largam o curso no meio e vão fazer reviews de games ou montar uma barraca de açaí em Maresias, porque afinal é o que "realmente gostam de fazer". Tudo bem se seus canais não derem certo no YouTube e os pais tiverem que sustentá-los pelo resto da vida. Afinal, merecem ser felizes. 

Olhe para qualquer lado e você verá inúmeros exemplos análogos: "suplementos" milagrosos em academias que vão lhe deixar com um corpo de celebridade do Instagram em poucas semanas; cursos de inglês que vão lhe deixar fluente em 6 meses; franquias que vão lhe deixar rico em 1 ano; aplicativos para encontrar o seu par ideal. Tudo para lhe dar o que você sempre mereceu, tudo fácil e rápido. 

Até mesmo uma proposta de emenda já foi apresentada em 2010 para incluir na constituição brasileira o "direito à busca da Felicidade por cada indivíduo e pela sociedade". E, no melhor estilo contemporâneo, "mediante a dotação pelo Estado e pela própria sociedade das adequadas condições de exercício deste direito": 




A proposta em questão foi arquivada em 2014. 

O risco é que esta obsessão moderna pela felicidade torne-se nossa ruína. Um grande mercado, certamente já se tornou. Como dito pelo filósofo Mark Rowlands [ROWLANDS, 2010]: 

"Desde aquela época,no final dos anos 1990 (...), a felicidade foi adquirindo um perfil mais elevado, nem tanto na filosofia, mas na cultura, de modo geral. Tornou-se até um grande negócio. (...) A crescente sofisticação (do conceito de felicidade) é assinalada pela expansão dos tipos de sentimentos que os seres humanos desejam classificar na categoria de felicidade. Mas trata-se de uma expansão construída sobre o modelo original. O que quer que seja a felicidade, é um sentimento de algum tipo. Isto é o que distingue os seres humanos: a busca perpétua e fútil por sentimentos. Nenhum outro animal faz isso. Somente os humanos acham que sentimentos são tão importantes.

Uma das consequências desta fixação obsessiva é que os humanos têm tendência a sofrer de neurose. Isto ocorre quando o foco se transfere da produção de sentimentos para o exame destes. Você está verdadeiramente feliz com sua vida atual? Seu parceiro entende suas necessidades de forma adequada? Você realmente se realiza ao criar seus filhos? Não há nada de errado, claro, em examinar a própria vida. A vida é tudo o que temos, e viver uma boa vida é a coisa mais importante que existe. Mas os humanos se caracterizam por uma interpretação errônea: pensamos que analisar nossa vida é a mesmíssima coisa que examinar nossos sentimentos. Quando examinamos nossos sentimentos e olhamos para dentro de nós, a conclusão a que chegamos é frequentemente negativa. Não nos sentimos do modo como gostaríamos, ou do modo como achamos que deveríamos. O que fazer, então? Bons viciados em felicidade que somos, partimos em busca de uma nova dose: um amante ou uma amante, um novo automóvel, uma nova casa, uma nova vida - qualquer coisa nova. Para o viciado, a felicidade é sempre trazida pelo novo e exótico, em vez do velho e familiar. Se tudo isso falhar - o que muitas vezes acontece - há um exército de profissionais muito bem remunerados, que ficarão felizes em nos dizer como poderemos arranjar nossa próxima dose. "


Referências e links:

[PONDÉ, 2016] - Pondé, Luiz Felipe – Filosofia para corajosos - Editora Planeta - 2a edição - 2016
[PEREL, 2015] - Perel, Esther - Rethinking infidelity... a talk for anyone who has ever loved - Palestra proferida durante o evento TED2015 - 2015
[ROWLANDS, 2010] - Rowlands, Mark - O filósofo e o lobo: lições sobre amor, morte e felicidade - Editora Objetiva - 2010