segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

sábado, 10 de novembro de 2012

Obrigado, Rui Barbosa

Deve haver alguma razão especial para a revista Veja resolver esporadicamente torturar seus leitores com reportagens como a da capa de 01-11-2012 da Veja São Paulo, festejando o herdeiro da Galeria Pagé: "Reinaldo Kherlakian sonha em ser o novo Cauby Peixoto"

Levei uma semana pensando no que eu gostaria de dizer a respeito, mas então dei de cara (literalmente), com uma das grandes frases de Rui Barbosa:


"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." - Sessão do Senado em 17-12-1914.

E nada mais precisa ser dito...

 

domingo, 23 de setembro de 2012

Indignação

Philip Roth é um dos maiores escritores americanos da atualidade e o único escritor americano vivo a ter sua obra completa publicada pela Library of America. Eu já havia lido dois livros dele: Adeus Columbus e Fantasma Sai de Cena, e não havia ficado particularmente empolgado com nenhum dos dois. Acabo de ler Indignação e, agora sim, acho que posso recomendá-lo. Não que eu me julgue qualificado para questionar a obra de um ganhador do Pulitzer, mas eu simplesmente achei os dois primeiros que li muito chatos e um tanto amargos. (A rabugice de Philip Roth é tão notória que há um episódio dos Simpsons em que aparece o seguinte aviso numa faixa anunciando a feira literária de Springfield: "Cuidado: Philip Roth pode estar de mau humor".)


Entretanto, Indignação é muito bom. Conta a estória de Marcus Messner, um garoto de cerca de 18 anos, filho de um açougueiro kosher de Newark no ano de 1951 - 2o ano da guerra da Coréia. Messner estuda em uma faculdade local e mora com os pais, até que seu pai tem um presságio ruim com relação ao futuro do filho e passa a adotar uma postura superprotetora, intolerável para Marcus.

Marcus, apesar de um ateu racionalista e fã de Bertrand Russell, muda então para uma universidade cristã no interior de Ohio (Winesburg), onde conhece e se apaixona por Olivia Hutton, uma garota tão deslocada quanto nele no ambiente americano conservador da Winesburg. Entre sua preocupação obsessiva com a possibilidade de ser recrutado e mandado para a Coréia, seu caso com Olivia e seus desentendimentos com o reitor da universidade, Marcus vai tomando uma série de pequena decisões e desencadeando uma série de eventos que vão levando-o lentamente ao destino trágico pressentido e temido por seu pai, como mostrado no trecho abaixo (de uma discussão entre Marcus e ele):

"Então papai, qual a razão para tudo isso?"
"A razão é a vida, onde o menor passo em falso pode ter consequências trágicas"
"Ah, meu Deus, você fala como se fosse uma cartomante."
"Ah, é? Falo? Não como um pai preocupado mas como uma cartomante? É isso que pareço quando estou falando com meu filho sobre o futuro que ele tem à sua frente e que qualquer coisinha pode destruir, a menor coisinha?"

Além de um romance muito bom, o livro é fantástico como retrato da cultura e do comportamento nos Estados Unidos no início dos anos 50 e do clima do front doméstico durante uma guerra com a qual temos muito pouco contato, ao contrário do que acontece com a guerra do Vietnam. Mudou a minha visão com relação à obra de Philip Roth e agora quero ler pelo menos outros dois: Pastoral Americana (que lhe rendeu o Pulitzer citado acima) e Complô contra a América, em que imagina como seriam os Estados Unidos governados por Charles Lindbergh (em vez de Roosevelt) e simpática a Hitler.

Para quem ler Indignação, posso recomendar também uma entrevista de Roth sobre o livro disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=rLbhzf6Fx_A

Para mais sobre Philip Roth, o link da Wikipedia apresenta informações interessantes: http://en.wikipedia.org/wiki/Philip_Roth

domingo, 16 de setembro de 2012

Dívida de Honra

Todo mundo gosta de ler alguma bobagem de vez em quando, especialmente nas férias. A minha bobagem preferida para férias atende por Tom Clancy: são livros enormes (para quando você tem tempo disponível para desperdiçar sem dor na consciência), baratos para comprar no Kindle e duros de largar.


Para quem não sabe de quem estou falando, ou nunca fez associação entre os livros e filmes que ele escreve, é o autor criador dos personagens Jack Ryan e John Clark, que você já deve ter visto em filmes como Caçada ao Outubro Vermelho, Perigo Real e Imediato ou A Soma de Todos os Medos, ou ainda em videogames como a série Rainbow Six, Ghost Recon ou Splinter Cell. Sim, se você prestar atenção, todos esses filmes e jogos, assim como os livros, são interconectados e a maior parte deles integra uma sequência.

Nas últimas férias eu li "Dívida de Honra", que não foge do roteiro clancyano tradicional: uma conspiração dos zaibatsu inicia uma guerra entre Japão e os EUA e Jack Ryan é chamado para ajudar a resolver a crise com seus insights fabulosos sobre política internacional. O curioso em "Dívida de Honra" é como a coisa começa a partir de uma briga comercial entre empresas de autopeças, avança por um lote de tanques de gasolina defeituosos, passa pela destruição de dois submarinos nucleares, uma invasão japonesa nas Marianas e chega a um ataque em Washington, que é o ponto alto do livro.

Uma coisa que se pode dizer a respeito de Clancy é que ele tem um cuidado bastante grande em imaginar cenários de guerra e em tornar factíveis situações absurdas. Neste caso, a solução que ele dá para equilibrar as forças entre Japão e EUA a fim de tornar o conflito verossímil é bastante elegante: ele consegue dar armamentos nucleares aos japoneses, criar uma crise financeira mundial, incapacitar os porta-aviões americanos no Pacífico, afundar os submarinos que mencionei acima e explodir o capitólio com um Boeing. "Dívida de Honra" não é novo, foi escrito em 1994 e é impossível não imaginar se essa ideia de destruir o Capitólio com um Boeing não foi lida pelo Osama.

Claro que Jack Ryan e John Clark salvam o dia, inclusive com Ryan chegando à presidência americana, mas isso é sempre esperado. De qualquer modo, o livro é divertido e serve como um bom passatempo.

domingo, 12 de agosto de 2012

Feliz dia dos pais!



Léo e o papai na Lua, com um robô mostrando o caminho e avisando para tomar cuidado com a cratera em erupção. Se cuida, Rembrandt!

Feliz dia dos pais para todo mundo!

sábado, 4 de agosto de 2012

A churrasqueira mais alta do mundo!

O que é bacana de morar São Paulo é que a prefeitura faz de tudo para acabar com a monotonia da vida do cidadão. O esforço e a criatividade são dignos de elogios!

Essa semana, por exemplo, recebi uma cartinha da prefeitura informando que eu precisava apresentar alguns documentos para finalizar o processo de regularização de uma churrasqueira que construí no quintal há uns dez anos. Havia lá algumas pérolas, como o pedido de uma carta da minha vizinha do fundo, concordando com o meu vitrozinho do banheiro que fica a menos de 1,5 m da divisa do terreno, mas o sensacional, a cereja do bolo, o Oscar da imaginação legislativa fica com um pedido de uma declaração do comando da Aeronáutica, afirmando que o meu mega-empreendimento não constitui risco ao tráfego aéreo da capital paulista!


É isso aí. Acho que a minha chaminé é algo comparável ao hotel do Bahamas ou a uma torre de celular, sei lá. E antes que perguntem, não, eu não moro em uma cobertura. É um sobrado, mesmo.

O mais bacana é que quando tentamos conseguir o documento, a pessoa que nos atendeu na Aeronáutica disse que não fazem essa declaração e ainda nos pediu para avisar para a sub-prefeitura que também não fazem uma tal declaração de ruído (ao que parece, e não é piada, a prefeitura agora exige de imóveis que estão na rota de aviões uma declaração dizendo que o barulho da turbina não é forte o suficiente para derrubar a construção). Sendo assim, fica o aviso, viu prefeito?



O que é que se pode dizer de uma coisa dessas? A minha opinião é impublicável, mas podemos pedir ajuda a Ayn Rand e reproduzir um belo trecho de seu livro "A Revolta de Atlas":

"- O senhor realmente pensava que a gente queria que essas leis fossem observadas? (...) Nós QUEREMOS que sejam desrespeitadas. É melhor o senhor entender direitinho que não somos escoteiros, não vivemos numa época de gestos nobres. Queremos é poder e estamos jogando para valer. Vocês estão jogando de brincadeira, mas nós sabemos como é que se joga o jogo, e é melhor o senhor aprender. É impossível governar homens honestos. O único poder que qualquer governo tem é o de reprimir criminosos. Bem, então, se não temos criminosos o bastante, o jeito é criá-los. E fazer leis que proíbem tanta coisa que se torna impossível viver sem violar alguma. Quem vai querer um país cheio de cidadãos que respeitam as leis? O que se vai ganhar com isso? Mas basta criar leis que não podem ser cumpridas nem objetivamente interpretadas, leis que é impossível fazer com que sejam cumpridas a rigor, e pronto! Temos um país repleto de pessoas que violam a lei, e então é só faturar em cima dos culpados. O sistema é esse, Sr. Rearden, são essas as regras do jogo. E, assim que aprendê-las, vai ser muito mais fácil lidar com o senhor."

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Guia Politicamente Incorreto da Filosofia

Deve ser algum tipo de recorde: 3 meses sem nenhuma postagem. Para afastar a falta de assunto, um rápido comentário sobre o "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia", do Luiz Felipe Pondé.

Eu já havia escrito aqui sobre um outro livro dele, o "Contra um Mundo Melhor" e muito do que eu poderia falar sobre este novo já foi dito sobre o velho, mas assim como no anterior, separei alguns trechos que vão lhe dizer se vai gostar ou odiar este aqui, que se dedica a combater a "praga do politicamente correto". Vamos a eles:



- Sobre as mulheres modernas: "É fato que a própria noção de que a mulher seria o sexo frágil sempre deu a ela a possibilidade de ter "crises" de modo mais tranquilo. Dificilmente veremos homens recomeçando suas vidas num curso de Pedagogia aos 50 anos."

- Sobre religiões da moda: "Uma palavrinha sobre o budismo light ou sustentável, como costumo dizer. Esse tipo de budismo, que se relaciona bem com a "Nova Era" (salada de conceitos religiosos de várias tradições mal cozidos, para consumo da classe média semiletrada e com alta opinião sobre si mesma), é normalmente típico de gente bem egoísta e dissimulada. Dizer que se é budista (ninguém deixa de ser católico ou judeu e vira budista em três semanas num workshop em Angra dos Reis ou num centro budista nas Perdizes, em São Paulo) pega bem em jantares inteligentes, porque dá a entender que você não é um materialista grosseiro, mas sim um espiritualista sustentável."

- Povo e política: "O povo é sempre opressor. Quando aparece politicamente, é para quebrar coisas. O povo adere fácil e descaradamente (como aderiu nos séculos 19 e 20) a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que você pedir. Confiar no povo como regulador da democracia é confiar nos bons modos de um leão à mesa. Só os mentirosos e ignorantes têm orgasmos políticos com "o povo".

- Sobre a diversidade: "Muçulmanos são lindos, índios são lindos, a África é linda, canibais são lindos, imigrantes ilegais são lindo, enfim, todos os "outros" são lindos. Uma das áreas mais amadas pela praga do politicamente correto é a chamada "ética do outro", ou seja, uma obrigação de acharmos que o "outro" é sempre legal. "Outro" aqui significa quase sempre outras culturas ou algo oposto a Igreja, Deus, heterossexual, capitalismo ou arrumar o quarto e lavar o banheiro todo dia."

- Crianças: "Uma coisa simples que aparentemente muita gente não entende: lindos são apenas seus filhos para você, para os outros são pequenos seres humanos mal-educados fazendo barulho. Aqui se traça uma fronteira clara entre você ser ou não um espírito de churrasco na laje: nunca pense que seus filhos são lindos universalmente."

Bom, e por aí vai. Mas só para deixar a certeza de que você não vai gostar de tudo que vai ler (mesmo que tenha gostado de tudo até agora), vai uma que não foi especialmente popular aqui em casa: "Mesmo homens com diploma universitário de engenharia, por exemplo, se julgam capazes de pensamentos profundos sobre o mundo (...)". Palhaço.


PS - não consigo deixar de achar um paradoxo no mínimo curioso o fato deste livro ter ficado tanto tempo como a obra de "não-ficção" mais vendida do Brasil. O dia em que a primeira candidata a "Miss alguma coisa" citá-lo como sua obra preferida, tenho certeza que o Pondé se joga de um viaduto.