sábado, 10 de abril de 2021

Hello, Brasil! e outros ensaios

Faleceu em 30 de março o psicanalista, ensaísta e escritor italiano Contardo Calligaris, autor de “Hello, Brasil! e outros ensaios – Psicanálise da estranha civilização brasileira” (Editora Três Estrelas, 2017), uma excepcional análise da sociedade brasileira feita a partir de sua condição de imigrante europeu do final dos anos 80. É um livro pequeno, mas repleto de insights muito interessantes sobre diversas peculiaridades do povo brasileiro que são ao mesmo tempo estranhas aos olhos de quem nos visita e invisíveis a nós mesmos, de tão enraizadas que estão em nosso comportamento. 



O livro não chega a ser extraordinariamente complexo, mas alguns dos ensaios requerem um certo esforço e não são simples de se resumir em alguns parágrafos, o que vou deliberadamente evitar fazer aqui. Os temas englobam colonização, os paralelos entre os processos colonizatórios nas Américas do Sul e do Norte, os desejos de emigração, criminalidade, corrupção, consumo, aniversários e filhos entre outros. Vou me limitar a reproduzir alguns pequenos trechos, como exemplo do que se pode esperar encontrar nas análises de Calligaris: 

Sobre a autoimagem do país: “Este país não presta”. É uma frase corriqueira (...). Causa-me estranheza ainda a facilidade com que, mesmo em situações que não são extremas, é enunciado – como prova e demonstração – um projeto de emigração: aqui não presta, vamos embora para um lugar que preste. (...) A frase pareceria natural se fosse dita por um estrangeiro, mas, como enunciação dos próprios brasileiros, ela surpreende.” 

Sobre a relação com as crianças: “O Brasil me aparece como o paraíso das crianças. (...) De um hotel cinco estrelas é exigido que haja uma sala de jogos eletrônicos para as crianças e que se prevejam atividades infantis. Assusta-me a insistência com que se defende a necessidade de “lúdico” na aprendizagem (...). Em algumas das melhores escolas privadas, decorar as lições é considerado um ato de tortura impingido às crianças. Assombra-me a importância que assume a programação das crianças na vida cotidiana (...). O adulto brasileiro parece constantemente preocupado com o prazer das crianças. Para ser breve: no Brasil, a criança é rei”. 

Sobre contracepção: “A primeira vez que uma paciente brasileira me falou da decisão, tomada de comum acordo pelo casal, de seu marido sofrer uma vasectomia, pensei que estava lidando com alguma patologia do laço conjugal. Aos poucos, como se sucedessem as vasectomias projetadas e feitas de fato, eu me daria conta de que tal cirurgia era uma prática culturalmente comum. Não sem que eu estranhasse.” 

Sobre a obsessão em “tirar a cidadania” de outros países: “O apelo ao pai antigo encontra sua expressão mais simples nas filas diante dos consulados para pedir nacionalidade e passaporte aos países da origem da linhagem que emigrou. É uma corrida de obstáculos burocráticos e um investimento considerável de tempo e dinheiro (...). Quase todos dizem que fazem isso para os filhos, de maneira que possam viajar mais facilmente, estudar “lá fora”, conseguir trabalho e sobretudo viver em segurança. O efeito mais provável é um enfraquecimento suplementar da identidade nacional dos filhos, os quais cresceriam com a sensação de que o que os pais querem para eles é que tenham uma chance de ir embora...” 

“Em 2005, produziu certo alvoroço a notícia de que a primeira-dama brasileira, Marisa Letícia, obtivera a cidadania italiana (...). Acrescentou, porém que tinha feito os trâmites por insistência dos filhos, para “dar uma oportunidade” aos meninos. Era no mínimo curioso: os filhos do presidente do Brasil confirmavam que a “oportunidade” para eles estava na Itália, não aqui”. 

E por aí vai. É uma obra sincera, sem meias-palavras, que chama à reflexão e abre os olhos para alguns vícios e vieses importantes de nosso comportamento como sociedade. Merece ser lido com atenção. 

OBS.: Contardo Calligaris participou da edição de 2019 do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, que versou sobre o tema “Os Sentidos da Vida”. O resumo de sua conferência e um vídeo curto podem ser acessados no link:

sábado, 17 de outubro de 2020

Everybody Lies – Big Data, new data and what the Internet can tell us about who we really are

Uns 15 anos atrás, Steven Levitt e Stephen Dubner publicaram "Freakonomics", um best-seller que aplicava a abordagem dos economistas a análise de assuntos do dia a dia, do comportamento de corretores de imóveis e lutadores de sumô, a causas não-convencionais para queda da criminalidade em Nova York. Foi um grande sucesso e influenciou o cientista de dados Seth Stephens-Davidowitz a buscar dar o passo seguinte com "Everybody Lies", basicamente uma versão turbinada de "Freakonomics".



A diferença fundamental entre eles, entretanto, é que Davidowitz tem hoje acesso a uma massa infinitamente maior de dados e ferramentas muito mais poderosas para analisá-los. E isso faz toda a diferença.

Uma das fontes utilizadas nas análises de Davidowitz, por exemplo, está nos dados consolidados de buscas realizadas no Google – ele avalia os números de perguntas similares feitas sobre um determinado tema em diferentes regiões e momentos para analisar tópicos como a eficácia de discursos do Obama em diminuir o preconceito contra muçulmanos, a prevalência do racismo em diferentes regiões americanas ou as neuras sexuais dos internautas.

Mas porque o título “Everybody Lies”? Bom, a grande sacada de Davidowitz foi perceber que a tela de consulta do Google e o comportamento on-line em parte dos sites funcionam como um grande “soro da verdade”. Todo mundo (normal) se preocupa com a própria imagem no dia a dia, no Facebook, no médico ou mesmo ao responder uma pesquisa de opinião, mas se comporta de forma bem mais livre e autêntica quando não tem ninguém olhando, inclusive quando faz suas buscas no Google ou navega de forma anônima. Cruzar os dados de uma rede social com outras bases que não sejam enviesadas pela preocupação com imagem pode resultar em incoerências surpreendentes e bem interessantes. Por exemplo: é muito provável que ao pesquisar a sua rede de amigos no Facebook, você vá encontrar mais gente seguindo publicações como “The Economist” ou “Harvard Business Review” do que “Caras”, mas quando você for até a casa deles, qual revista vai encontrar?

O livro foi publicado em 2017, ou seja, antes do sucesso atual de “The Social Dilemma” na Netflix. Entretanto, um de seus insights mais interessantes é justamente com relação ao consenso de que a internet e as redes sociais estariam agravando a polarização política. Com base em um estudo realizado pelos economistas Matt Gentzkow e Jesse Shapiro em 2011, que coletou dados sobre o comportamento de um grande número de americanos de diferentes linhas ideológicas e avaliou o grau da segregação política na internet, Davidowitz sugere uma abordagem diferente:

Nós tendemos a ter um número muito maior de amigos no Facebook do que na vida real. Nossa lista de contatos nas redes sociais incluem pessoas como aqueles conhecidos do tempo de escola com quem nunca mais falamos, vizinhos de condomínio, ex-colegas de trabalho, o amigo do primo que conhecemos 10 anos atrás e mais um monte de gente que nunca convidaríamos para jantar em casa ou para um churrasco no final de semana. Entretanto, todo esse pessoal publica seus comentários e links e frequenta a nossa timeline diariamente, fazendo com que sejamos expostos a opiniões e assuntos a que dificilmente teríamos acesso dentro da nossa bolha de relacionamentos próximos, que tendem naturalmente a ser muito mais alinhados com as nossas próprias posições e realidade. Em suma, a internet acaba se tornando um ponto de contato entre pessoas com perfis muito mais diversos do aquelas com quem temos contato diário no mundo físico. Você pode ser um liberal que passa sua manhã com uma esposa e filhos liberais, a tarde com seus colegas de trabalho liberais, volta para casa ouvindo a rádio liberal a que se acostumou, mas à noite, quando acessa o Facebook, tem contato com os posts conservadores radicais de seu ex-colega de escola. Esta será provavelmente sua maior exposição a opiniões conservadoras no dia todo e este contraponto não é algo necessariamente ruim. 

“Everybody Lies” apresenta diversas análises de dados similares a esta, que desafiam o senso comum em áreas como comportamento, esportes, educação e política. É uma obra curta, mas muito interessante. Vale a pena.  

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

The Righteous Mind – Why Good People are Divided by Politics and Religion

Ainda em 2012, o doutor em psicologia Jonathan Haidt publicou um livro extraordinário buscando responder à pergunta que hoje todos nós nos fazemos diariamente ao navegar pelas timelines de nossas redes sociais: Por que tanta gente inteligente e bem intencionada pode ter posições tão diferentes sobre temas fundamentais como política? E, principalmente, por que essas pessoas desenvolvem com tanta facilidade a plena convicção de que os de posição diferente da sua são completos idiotas?

“The Righteous Mind – Why Good People are Divided by Politics and Religion” (Vintage, 2013), tem um título particularmente difícil de traduzir. A edição brasileira recebeu o título de “A Mente Moralista”, embora eu considere que “Righteous” tenha um sentido um pouco mais forte do que “Moralista”. Segundo o dicionário de Cambridge, por exemplo, se refere a “pessoas que se comportam de uma forma moralmente correta”, mas acho que a intenção de Haidt no título era dar uma abordagem mais próxima de “self-righteous”... ou “pessoas que acreditam que suas ideias e comportamentos são moralmente superiores ao de outras pessoas”. Para quem leu Pollyanna, um bom exemplo seria a tia solteirona de Pollyanna. Ela é “self-righteous” até os ossos. Imagine-a vivendo hoje no Brasil com uma conta de Whatsapp na mão...



O livro é dividido em três partes, cada uma associada a uma metáfora diferente desenvolvida para resumir um conceito fundamental.

PARTE I - “Intuições vêm primeiro, raciocínio vem depois”

A primeira parte é “Intuições vêm primeiro, raciocínio vem depois”. Ela compara a mente humana a um elefante enorme com um “condutor” (um cavaleiro) em cima dele, mas cujo trabalho é servir ao elefante e não vice-versa. Nessa metáfora, o elefante representa nosso pensamento intuitivo, enquanto o condutor representa o pensamento racional. Esta dualidade  é bastante similar à defendida por Daniel Kahneman em “Rápido e Devagar”, mas a abordagem é um pouco diferente. Para Haidt, é nítido que o chefe é o elefante (emoção / intuição) e que o condutor (razão) existe para servi-lo.

“Portanto, se você quer mudar a opinião de alguém com relação a um tema moral ou político, fale primeiro com o elefante. Se você pedir às pessoas para acreditar em algo que viola as suas intuições, elas irão dedicar todos os seus esforços a encontrar uma saída – uma razão para duvidar de seus argumentos ou conclusões. E vão conseguir quase sempre.”

Especialmente quando as discussões se tornam hostis, o elefante começa a se inclinar para longe do oponente e o condutor (seu servo) vai trabalhar freneticamente para encontrar dados e motivos “racionais” para refutar todos os argumentos que receber. Inclusive no Google.

Um dos insights mais importantes apresentados nesta parte é justamente neste sentido e é bem pouco intuitivo: apesar de gostarmos de nos ver como criatura racionais, nossa consciência opera em grande medida com o objetivo descarado de persuadir em vez de analisar. A conclusão deprimente de cientistas cognitivos que pesquisaram o raciocínio humano ao longo de anos é que ele se desenvolveu como uma ferramenta para nos ajudar a argumentar, persuadir e manipular outras pessoas e não para nos ajudar a “descobrir a verdade”. Esta conclusão se aplica inclusive no nosso auto convencimento, ou seja, o condutor trabalha muito também para justificar e nos convencer da validade e moralidade de nossas próprias ações, preservando nossa autoimagem de boas pessoas mesmo quando temos atitudes bastante questionáveis. É por isso que o chamado “viés de confirmação” é tão poderoso e difícil de combater.

Nosso pensamento moral é muito mais como um político caçando votos do que um cientista buscando a verdade.”

Ter esse conceito em mente é fundamental para se ter uma conversa minimamente produtiva com alguém cujo elefante está apontado para um lado oposto ao seu: argumentos puramente racionais não falam ao elefante – ele responde à emoção, não à razão. Enquanto o elefante do outro não estiver sensibilizado e disposto a se inclinar pelo menos um pouco para o seu lado, não adianta nem tentar argumentar com o condutor.   

Especialmente quando se trata de temas morais ou políticos a situação se agrava um pouco mais. Nestes temas temos também uma tendência a um comportamento mais grupal do que individualista – nós aplicamos nossas habilidades de raciocínio para apoiar a posição de nosso time e para demonstrar nosso compromisso com ele, de modo que a chance de se convencer alguém em uma discussão pública na internet a mudar de ideia com relação a um ponto importante na estrutura moral de seu grupo político é completamente impossível. Desista. (especificamente sobre esse comportamento tribal, pode ser interessante conhecer também os argumentos de Joshua Greene em “Moral Tribes

PARTE II - “Há mais na moralidade do que apenas cuidado e justiça”

Nesta parte são apresentadas seis diferentes dimensões ou fundamentos do pensamento moral e a metáfora usada é a de que a mente moralista é como uma língua capaz de sentir seis tipos diferentes de gostos ou sabores.

Inicialmente, Haidt cuida de introduzir o leitor à noção de que a ética ocidental a que estamos habituados é algo bastante particular e não uma verdade universal, como somos inclinados a pensar. Para isso, nos apresenta as três principais abordagens éticas (baseadas na teoria do antropologista Richard Shweder), que permeiam o mundo contemporâneo com diferenças fundamentais que não são facilmente percebidas pelas pessoas, mas que norteiam boa parte do comportamento das comunidades que adotam cada uma delas:

- Ética da autonomia – é à qual estamos mais habituados, ou seja, a ideia de que as pessoas são, acima de tudo, indivíduos autônomos que devem ser livres para satisfazer seus desejos e preferências. Deste modo, estas sociedades desenvolvem valores como direitos, liberdades e justiça, que possibilitam às pessoas coexistir pacificamente sem interferir nas vidas uns dos outros. É a ética dominante nas sociedades individualistas e nos textos utilitaristas de John Stuart Mill e Peter Singer, por exemplo;

- Ética da comunidade – é baseada no princípio de que as pessoas são, acima de tudo, membros de entidades maiores, como famílias, times, empresas, tribos, exércitos e nações. Estas entidades são mais do que a soma de seus membros; são reais, importam e precisam ser protegidas. As pessoas têm obrigação de atuar conforme os papéis que lhe cabem nestas estruturas e, portanto, os conceitos que emergem são os de dever, hierarquia, patriotismo, respeito e reputação. Nestas sociedades (como nas orientais), o individualismo ocidental é visto como egoísta e perigoso – uma forma de enfraquecer a trama da sociedade e destruir as instituições das quais todos dependem;

- Ética da divindade – baseada na ideia de que as pessoas são, acima de tudo, “recipientes” em que uma alma divina habita temporariamente. Pessoas não são apenas animais com uma dose extra de consciência, mas sim filhos e filhas de Deus e que, portanto, devem agir de acordo. O corpo é um templo, não um playground e mesmo que uma ação ou comportamento privado individual qualquer não cause nenhum dano a terceiros, ele pode ser interpretado e condenado como imoral ou proibido se visto como ofensivo ao Criador ou à ordem sagrada do universo. É a moral dominante em boa parte do mundo muçulmano, por exemplo.

A moral dominante nas sociedades dos ocidentais países ricos, democráticos e industrializados, costuma ser limitada à ética da autonomia, mas ela pode ser bem mais ampla e incluir frequentemente as éticas da comunidade e da divindade nas matrizes éticas de diversos subgrupos religiosos ou conservadores e este é um ponto fundamental para se começar a compreender as diferenças radicais entre as visões de mundo dos liberais e dos conservadores.

Haidt usa frequentemente a expressão “morality binds and blinds” (a moralidade une e cega) para lembrar que matrizes éticas reforçam de forma muito significativa a coesão dos grupos que as adotam, mas ao mesmo tempo tornam seus membros praticamente cegos para a coerência ou a mera existência de outras matrizes. Esse fenômeno torna muito difícil para uma pessoa que tenha assimilado os valores de um determinado grupo de forma muito radical sequer considerar a possibilidade de que possa existir mais de uma verdade moral válida, parâmetros diferentes dos seus para se avaliar a conduta das outras pessoas ou mesmo mais de uma forma legítima para se organizar e conduzir uma sociedade.

Após a introdução das três éticas é a apresentada a Teoria dos Fundamentos Morais e são apresentados cinco diferentes “sabores” que a mente moralista consegue discernir, descritos como cinco diferentes fundamentos morais inatos e comuns a todos os seres humanos, adaptações que foram sendo lentamente incorporadas a nossos cérebros como respostas automáticas a uma série de ameaças e oportunidades inerentes à vida em sociedade e que disparam reações intuitivas e possivelmente algumas emoções específicas, como simpatia ou raiva:

- Fundamento do Cuidado / Dano – evoluiu em resposta ao desafio evolutivo do cuidado para com crianças vulneráveis. Ele nos torna sensíveis a sinais de sofrimento e necessidade e nos faz rejeitar a crueldade e nos importar com os que sofrem;

- Fundamento da Justiça / Trapaça – evoluiu em resposta ao desafio evolutivo de se extrair os benefícios da cooperação sem se deixar explorar. Faz com que nos tornemos sensíveis a indícios de que outras pessoas sejam potenciais bons parceiros para colaboração e altruísmo recíproco. Faz com que desejemos punir trapaceiros e exploradores e pode estar intrinsicamente ligado a um desejo por proporcionalidade (de que as pessoas recebam o que mereçam na intensidade adequada);

- Fundamento da Lealdade / Traição – evoluiu em resposta ao desafio evolutivo de formação e manutenção de alianças. Faz com que sejamos sensíveis a sinais de que uma pessoa é um bom e confiável membro do time e nos leva a confiar e recompensar tais pessoas na mesma medida em que nos leva a punir e renegar os que nos traem ou traem o grupo;

- Fundamento da Autoridade / Subversão – resposta ao desafio da formação de relacionamentos benéficos dentro de uma estrutura hierárquica. Faz com que sejamos sensíveis a sinais de posição e de status, bem como a indícios de que as outras pessoas estão (ou não) se comportando de acordo com suas respectivas posições;

- Fundamento da Santidade (Pureza) / Degradação – evoluiu inicialmente como resposta ao “dilema do onívoro” (o que um bicho que come de tudo pode comer e o que deve evitar) e posteriormente ao desafio de se viver em um mundo repleto de patógenos e parasitas. Trata-se de uma forma de “imunidade comportamental” que nos leva a ter receio e evitar uma variedade de ameaças reais ou simbólicas. Faz com que as pessoas atribuam arbitrariamente valores extremamente positivos ou negativos a determinados objetos e comportamentos que acabam servindo como mecanismos auxiliares para se manter os grupos unidos.

Olhando-se para os dois extremos do espectro político, pode-se perceber que os partidários da esquerda têm suas doutrinas focadas principalmente nos fundamentos do Cuidado e da Justiça, com pouca ou nenhuma ênfase nos demais. Os partidários de direita, por sua vez, operam com um foco mais abrangente, com doutrinas que abraçam os 5 fundamentos e incorporam uma ênfase significativamente grande em Autoridade, Lealdade e Santidade. Assista a um discurso de um candidato de direita e conte quantas vezes são mencionados temas como patriotismo, forças armadas e religião, por exemplo.


Aqui pode-se abrir parênteses e comentar-se um pouco sobre uma vantagem significativa que os conservadores levam quando falam ao público em geral. Considerando-se que os 6 fundamentos morais são inatos aos seres humanos e que estes podem dar maior ou menor importância a cada um deles, independente de sua formação ou posição social, é natural que um grupo político que aborde um número maior de fundamentos em sua doutrina e sua comunicação encontre ressonância do seu discurso em um número maior de pessoas do que um grupo que se restrinja a dois ou três fundamentos. Ou seja, se uma pessoa tem uma predisposição natural a priorizar os fundamentos da Autoridade e da Lealdade, mesmo que seja de uma camada desfavorecida da sociedade, não vai responder de forma positiva ao discurso centrado nos fundamentos de Cuidado e Justiça de um partido de esquerda, para a grande surpresa e indignação de boa parte dos liberais que são praticamente cegos aos demais fundamentos morais. Moralidade une e cega.

Posteriormente, Haidt acrescenta um sexto fundamento como forma de complemento à sua Teoria dos Fundamentos Morais original:

- Fundamento da Liberdade / Opressão – faz com que as pessoas percebam e se ressintam de qualquer sinal de uma tentativa de dominação. Dispara um sentimento de desejo de união para resistir e derrotar opressores e tiranos. Este fundamento suporta tanto a noção de equidade e de “anti-autoritarismo” na esquerda quanto o sentimentos “anti-opressão” e de “defesa da liberdade” na direita.

PARTE III - “Moralidade une e cega”

Em linhas gerais, é focada na demonstração do conceito de que a natureza humana é majoritariamente egoísta e individualista, mas com uma camada grupal que resulta do fato de que a seleção natural opera em diferentes níveis simultaneamente e que resulta em comportamentos surpreendentes e a princípio incoerentes com o interesse do indivíduo.

Indivíduos competem contra outros indivíduos e esta competição recompensa o individualismo, mas ao mesmo tempo, os grupos humanos competem contra outros grupos permanentemente e esta competição favorece os grupos compostos por verdadeiros “team players” – aqueles cujos integrantes estão dispostos a cooperar e trabalhar pelo bem do grupo mesmo em detrimento de seus interesses pessoais imediatos. Estes dois processos evolutivos complementares empurraram a natureza humana em direções diferentes e nos deram a estranha mistura de egoísmo e altruísmo que conhecemos hoje. A metáfora central desta terceira parte é: “nós somos 90% chimpanzés e 10% abelhas”.

O lado “chimpanzé” da metáfora refere-se ao fato de nossas mentes terem sido moldadas pela competição incansável de cada indivíduo com seu vizinho. Nós somos descendentes de uma longa linhagem de vencedores no jogo da vida social. Entretanto, a natureza humana incorporou mais recentemente uma nova camada, um comportamento grupal extremamente importante – apesar de majoritariamente chimpanzés, somos também um pouco como abelhas, no sentido de sermos criaturas ultra-sociais com mentes moldadas pela incansável competição entre grupos. Nós descendemos de antepassados cujo comportamento grupal os ajudou a cooperar e vencer outros grupos. Isso não significa que nossos ancestrais fossem “team players” incondicionais, apenas que eram adequadamente seletivos: quando as condições necessárias se apresentavam, eles podiam entrar em um estado mental de “um por todos e todos por um” em que passavam a trabalhar abnegadamente por um objetivo comum, aumentando de forma coletiva as chances de prevalência de seu grupo.

Este sentimento de ativação do “modo colmeia” em um grupo se manifesta ainda hoje na paixão ou êxtase que a participação em rituais grupais como esportes, raves, danças ou rituais religiosos podem ocasionar. É o tipo de efervescência coletiva ou “ressonância límbica” que foi tão bem descrita no livro “A General Theory of Love”, que já comentei aqui anteriormente.

A combinação de nossos comportamentos individualistas e grupais pode ser resumido no conceito de Homo Duplex: vivemos a maior parte de nossas vidas no mundo ordinário (profano), mas alcançamos nossas maiores alegrias naqueles breves momentos em que transcendemos a níveis mais elevados (coletivos) da existência. Somos projetados (por seleção natural) para nos locomover entre ambos os níveis de existência.  

Voltando ao tema da Teoria dos Fundamentos Morais, uma ideia curiosa defendida no livro é a de que as pessoas não adotam suas ideologias políticas aleatoriamente. Aqueles a quem os genes deram cérebros com maior afinidade a novidades, variedade e diversidade e uma menor sensibilidade a sinais de ameaça seriam predispostos (mas não predestinados) a se tornarem liberais e a reagir às narrativas dos movimentos de esquerda. Aqueles cujos genes conferiram cérebros com afinidades opostas seriam predispostos a se alinhar com as narrativas da direita.

Entretanto, a partir do momento que a pessoa adota qualquer um dos lados políticos ela é rapidamente incorporada à sua respectiva matriz moral. O condutor de seu elefante passa a encontrar confirmação da narrativa de seu grupo em todo lugar e é extremamente difícil convencê-la de que está errada se você tentar argumentar estando do lado de fora de sua matriz.

Dado o diferente enfoque que a esquerda e a direita dão aos seis fundamentos morais, pode-se deduzir que deve ser mais difícil para liberais (que em geral não se consideram relevantes os fundamentos de Autoridade, Santidade e Lealdade) entender os conservadores do que vice-versa. Em particular, liberais têm dificuldade em visualizar e compreender o conceito de “capital moral”, ou seja, o valor intrínseco de alguns recursos que sustentam uma comunidade moral, como valores, virtudes, normas, práticas, tradições, costumes, identidades e instituições, o que faz com que seja difícil para seu discurso ser assimilado por um público que aprecie estes valores na mesma medida em que os faz ter dificuldade em entender este público.

Em suma, a abordagem de Haidt é de que liberais e conservadores, esquerda e direita são como yin e yang – ambos elementos necessários para a vida política saudável de uma nação, como colocado por John Stuart Mill. Liberais são especialistas no fundamento do Cuidado – eles enxergam melhor as vítimas dos arranjos sociais e nos forçam a atualizar continuamente esses arranjos. Por outro lado, conservadores oferecem um contraponto fundamental aos movimentos de reforma liberal, em especial no que tange à liberdade dos mercados e à proteção de estruturas e valores que são caros a boa parte da sociedade.

Enfim, moralidade une e cega. Ela nos une a times ideologicamente coesos que lutam entre si como se o destino do planeta estivesse em jogo em cada batalha. Ela nos cega com relação ao fato de que ambos os times são compostos por boas pessoas que podem ter algo importante a dizer. Ter esse conceito em mente pode ajudar cada um de nós a compreender melhor o outro lado, ou pelo menos a evitar entrar em discussões absolutamente inúteis no Facebook.

 

PS – na data em que escrevo este resumo, Jonathan Haidt pode ser visto em uma participação rápida no documentário “The Social Dilemma”, que acaba de ser lançado na Netflix 

PS 2 – Haidt também será o convidado na segunda conferência do Fronteiras do Pensamento, programada para o próximo dia 30 de setembro

PS 3 – Para uma obra mais recente dele, você pode acessar o link para o meu texto sobre “The Coddling of the American Mind”. É outro livro com um título incrivelmente difícil de traduzir, mas excelente...

    

sábado, 2 de maio de 2020

O Novo Iluminismo

Várias das minhas opiniões mudaram bastante com o passar do tempo, mas poucas mudaram de forma tão radical quanto o meu conceito sobre Bill Gates. Tive lá a minha fase de adolescente anti-Microsoft e já critiquei bastante o seu fundador por suas práticas monopolistas na época da "guerra dos browsers", mas o meu conceito começou a mudar com os anos e, especialmente depois da fundação Bill e Melinda Gates, hoje eu sou um fã. Como fã, portanto, quando encontro um livro que ele recomenda como sendo “Meu novo livro favorito de todos os tempos.”, tenho que conferir. 

“O novo Iluminismo – Em defesa da razão, da ciência e do humanismo” de Steven Pinker (Companhia das Letras, 2018) é exatamente o que o título indica: uma obra focada em fazer a defesa dos três pilares fundamentais do Iluminismo: a razão, a ciência e o humanismo, em um momento em que imaginaríamos não precisarem mais de defesa. Apesar de denso, com quase 700 páginas recheadas de excelentes referências bibliográficas, é surpreendentemente simples, direto e agradável de se ler. Logo nas primeiras páginas fica claro que Gates não estava exagerando quando fez seu comentário. 



O último livro que abordei neste blog tratava de uma visão pessimista quanto aos rumos da humanidade ("A Nova Idade das Trevas"). Este é o extremo oposto. Nas palavras do próprio Pinker: ...essa avaliação desoladora do mundo é errada. E não apenas errada: erradíssima, espetacularmente errada, mais errada impossível.” e ele defende sua causa com uma clareza e um volume de dados impressionante distribuídos ao longo de 3 partes. 

A 1ª parte trata da revisão do que consideramos em linhas gerais como o movimento do Iluminismo, bem como seu momento histórico e conceitos fundamentais. A 2ª parte foca em contestar, com dados objetivos, visões pessimistas ou catastrofistas do mundo contemporâneo em aspectos como riqueza, desigualdade, meio ambiente, saúde e segurança. A 3ª parte se concentra, finalmente, na defesa dos ideais iluministas. Iniciando com a 1ª parte, vamos assumir a definição de Iluminismo como apresentada atualmente pela Wikipedia: 

“O iluminismo, também conhecido como século das luzes e ilustração, foi um movimento intelectual e filosófico que dominou o mundo das ideias na Europa durante o século XVIII, "O Século da Filosofia". O Iluminismo incluiu uma série de ideias centradas na razão como a principal fonte de autoridade e legitimidade e defendia ideais como liberdade, progresso, tolerância, fraternidade, governo constitucional e separação Igreja-Estado. Na França, as doutrinas centrais dos filósofos do Iluminismo eram a liberdade individual e a tolerância religiosa em oposição a uma monarquia absoluta e aos dogmas fixos da Igreja Católica Romana. O Iluminismo foi marcado por uma ênfase no método científico e no reducionismo, juntamente com o crescente questionamento da ortodoxia religiosa - uma atitude capturada pela frase Sapere aude (em português: "Atreva-se a conhecer").”

Para ter-se uma dimensão do que representou a Revolução Científica ocorrida neste período, tome-se a descrição do que o historiador David Wootton faz do que um inglês instruído “sabia” com toda segurança do mundo em 1.600, às vésperas da revolução industrial: 

“Ele acredita que bruxas podem invocar tempestades para afundar navios no mar. [...] Acredita em lobisomens, ainda que por acaso essas criaturas não existam na Inglaterra – sabe que existem na Bélgica. [...] Acredita que camundongos surgem por geração espontânea em montes de palha. Acredita em magos contemporâneos. [...] Ele já viu um chifre de unicórnio, mas não um unicórnio. Ele acredita que o corpo de uma pessoa assassinada sangrará na presença do assassino. Acredita na existência de um unguento que, se for aplicado na adaga que causou um ferimento, curará o ferimento. [...] Acredita ser possível transformar metal sem valor em ouro [...] Acredita, obviamente, que a Terra é imóvel e que o Sol e as estrelas fazem um giro em torno dela a cada 24 horas.” 

Apenas um século mais tarde, um descendente instruído deste inglês já não acreditaria em mais nada disso. 

Além da razão e da ciência, o humanismo também tem um papel central no Iluminismo. Deixando para trás séculos de Cruzadas, Inquisição, guerras e caça às bruxas, os pensadores iluministas condenaram crueldades como escravidão, despotismo, punições sádicas e execuções por crimes triviais, colocando fim a práticas hoje consideradas bárbaras, mas extremamente comuns ao longo de milênios em diversas civilizações diferentes. Decorre ainda da fé na ciência e no humanismo o ideal iluminista de progresso, tanto em termos de evolução das leis e costumes, quanto da evolução científica. Todos aspectos que atuam em conjunto, levando a uma melhoria contínua do bem-estar das pessoas e uma gradual transformação do mundo em um lugar melhor.

Infelizmente, como um típico ser humano do início do século XXI e mais do que habituado a ler barbaridades nas time-lines das redes sociais, você já deve ter se acostumado com a ideia de que mesmo as coisas mais obviamente benéficas (como vacinas) ou mesmo os conceitos mais obviamente evidentes (como a Terra ser redonda), precisam de defesa. O mesmo vale para o Iluminismo. Pinker passa um capítulo na primeira parte apresentando um assustador elenco de movimentos contrailuministas religiosos, nacionalistas, filosóficos e intelectuais que são bem explorados ao longo do livro, sempre com referências a trabalhos recentes e muito interessantes. Como exemplos destas referências, posso citar alguns livros relativamente novos que abordei aqui nos últimos meses e que analisam movimentos bem recentes como a emergência da polarização e sua relação com o fenômeno da formação de tribos morais (“Moral Tribes”, de Joshua Greene) ou os problemas da crescente rejeição à livre exposição de ideias em universidades (“The Coddling of the American Mind”, de Lukianoff e Haidt). 

Como já dito, a 2ª parte do livro trata da refutação, com dados, de pontos de vista saudosistas, pessimistas ou decadentistas sobre o estado atual da humanidade. É a parte mais extensa do texto e também a que inclui o maior volume de informações interessantes e surpreendentes, que demonstram de forma incontestável a brutal evolução da condição humana no último século em aspectos como desigualdade, expectativa de vida, saúde, meio ambiente, segurança, paz, democracia, terrorismo, conhecimento, igualdade de direitos e felicidade. Não vou me ater a cada um destes aspectos, mas gostaria de chamar a atenção para apenas dois pontos realçados por Pinker e que servem como exemplos do tipo de insight que são encontrados no livro sobre os temas do meio ambiente e da desigualdade. 

Em “Moral Tribes”, que citei acima, Joshua Greene detalha como a polarização entre esquerda e direita nos EUA (assim como no Brasil), fez com que o tema do aquecimento global tenha passado a ser associado a uma bandeira de esquerda: 

“Em 1998, pesquisas indicavam que eleitores Republicanos e Democratas apresentavam probabilidades praticamente iguais de concordar com o argumento de que a mudança climática estava realmente ocorrendo. De lá para cá, ao mesmo tempo em que as evidências científicas sobre o tema apenas aumentaram, surgiu uma curiosa divergência entre eleitores Republicanos e Democratas com relação ao assunto, a ponto de em 2010 um Democrata ter passado a ter uma probabilidade duas vezes maior de afirmar acreditar na mudança climática do que um Republicano. Isso não ocorreu por questões técnicas ou por um eventual menor acesso às informações científicas por parte dos Republicanos, mas simplesmente pelo fato do assunto ter tomado contornos políticos que levaram os dois partidos a se posicionar em campos opostos, forçando um grande número de eleitores Republicanos a ter de optar (até de forma inconsciente) entre aceitar racionalmente as opiniões dos especialistas no assunto ou simplesmente recusá-las e se comportar, então, como um bom e confiável membro de sua “tribo” política.” 

A abordagem de Pinker, entretanto, vai mais além: ele questiona se o fato do democrata Al Gore ter abraçado a causa do aquecimento global no documentário “Uma Verdade Inconveniente” em 2006 não teria sido uma dos fatores principais do recrudescimento desta polarização e, assim, causado um dano irreparável à causa. Questiona ainda a racionalidade de bandeiras muito tradicionais de ambientalistas contrários a alimentos transgênicos e energia nuclear e o prejuízo que estas posições radicais causam ao meio ambiente ao influenciar a opinião pública contra as opções comprovadamente mais eficientes de geração de energia e produção de alimentos. 

Pinker encara de frente também a questão da desigualdade e a incensada obra de Thomas Piketty, “O Capital no Século XXI”. Ele dedica um capítulo inteiro ao tema e a demonstrar que a desigualdade humana não pode ser usada como um contraexemplo para o progresso humano. Argumenta também que não estamos vivendo, ao contrário do que alega Piketty e as esquerdas ao redor do globo, uma distopia de rendas declinantes que teria revertido séculos de aumento da prosperidade. Defende que a tendência de longo prazo desde o Iluminismo é, na verdade, o aumento de riqueza para todos e, desmonta com surpreendente elegância o livro de Piketty em apenas um parágrafo. (Não, não vou reproduzir aqui, mas lhe desafio a encontrar). 

Finalmente, a 3ª parte é dedicada especificamente aos ideais da razão, ciência e humanismo, cabendo um capítulo para cada um. Como no restante do livro, os argumentos são claros, convincentes e, acima de tudo, necessários. 

Já estávamos vivendo uma época de polarização, escalada de autoritarismo e tendência ao desmonte de conquistas que considerávamos mais do que consolidadas. Com a pandemia de COVID-19, estes movimentos parecem ter se acentuado. Neste cenário, a obra de Pinker é um testemunho muito oportuno de fé na humanidade e no progresso e um necessário sopro de otimismo em um momento de profunda crise global. O comentário de Gates sobre o livro não é, de forma alguma, descabido. 

***

PS – Por uma dessas coincidências malucas do mundo, no momento em que escrevo isso, às 18:30 do dia 02 de maio de 2020, Warren Buffett está fazendo ao vivo a sua apresentação na reunião de acionistas da Berkshire Hathaway e estou ouvindo ao fundo. A mensagem que está passando agora: apesar de tudo, não há época melhor para se estar vivo do que agora em termos de bem-estar, direitos, segurança, paz, etc.. Impressionante a clareza de raciocínio e a energia deste senhor de 89 anos. Bom, estando com Gates e Buffett, Pinker está muito bem acompanhado...



domingo, 2 de fevereiro de 2020

A Nova Idade das Trevas

Um conceito que temos enraizado profundamente em nossa forma de pensar e que poucas pessoas já pararam para questionar é o do progresso contínuo da humanidade. Parece natural esperar que, a cada ano, os avanços da técnica representem evolução recorrente em qualquer área, seja na área da saúde, na engenharia, ou na tecnologia da informação. Entretanto, o que dizer de nossa compreensão real das tecnologias que embasam essa evolução? Ou ainda, quais os efeitos e impactos destas tecnologias sobre o ambiente e as sociedades no médio e longo prazos? 

Os reflexos indesejáveis dos avanços da técnica e suas consequências reais ou potenciais são o tema do livro “A Nova Idade das Trevas - a Tecnologia e o Fim do Futuro”, de James Bridle (Todavia, 2018). Bridle é jornalista e escritor e colabora com veículos como o The Guardian, Atlantic e a Wired e conseguiu escrever um livrinho bem interessante e perturbador sobre o assunto. 


Um dos pontos centrais do texto está na crítica à “opacidade” inerente aos sistemas de computação complexos, especialmente dos sistemas distribuídos (em rede). Como exemplo: um engenheiro mecânico que usa hoje uma ferramenta computacional de análise estrutural por elementos finitos para avaliar a resistência de uma peça automotiva que esteja projetando, compreende melhor ou pior os fenômenos físicos reais envolvidos na análise do que um engenheiro da década de 80 que não dispunha desse ferramental? Até que ponto o uso da ferramenta deixa a análise mais nítida e simples? Até que ponto o conhecimento fundamental envolvido na análise não passou a ficar concentrado apenas nas mãos dos poucos especialistas responsáveis projetar e implementar os algoritmos em que o software se baseia, em vez de compartilhado entre os milhares de usuários da ferramenta, que acabam tendo apenas uma noção superficial dos conceitos envolvidos? Um dos maiores especialistas brasileiros nesta área da engenharia costuma afirmar repetidamente que “se o engenheiro não sabe modelar o problema sem ter o computador, não deve fazê-lo tendo o computador”, mas receio que ele seja minoria. Nas palavras de Bridle: 

“Aquilo que a computação busca mapear e modelar, ela acaba dominando. O Google se determinou a indexar todo o conhecimento humano e se tornou fonte e árbitro do conhecimento: tornou-se o que as pessoas pensam. O Facebook se determinou a mapear as conexões entre as pessoas – o grafo social – e se tornou a plataforma para essas conexões, reformatando irrevogavelmente as relações sociais. Assim como um sistema de controle aéreo que confunde uma revoada de pássaros com uma esquadra de bombardeiros, o software é incapaz de distinguir entre seu modelo de mundo e a realidade – e, uma vez condicionados, nós também não.” 

Dado o grau de integração entre diferentes sistemas complexos e a intensidade destas interações, os sistemas computacionais são hoje complicados demais para que uma pessoa possa ter uma visão do panorama total – em grande medida, em qualquer projeto de sistema computacional, faz-se uso de componentes e módulos que operam como “caixas pretas”, que recebem entradas, resolvem problemas específicos e retornam saídas para o sistema principal, mas que não foram desenvolvidos e codificados pela mesma empresa que os aplica. Ou seja, a fé no desempenho adequado de cada módulo é um pré-requisito para o seu uso e para o sistema de forma geral. Esse modelo de pensamento de confiança a priori no software é a base para um viés cognitivo que nos leva a considerar que respostas automatizadas seriam inerentemente mais confiáveis que as não automatizadas – o viés da automação. Você já experimentou isso quando digitava um texto que sofreu uma correção ortográfica sobre a qual tinha dúvidas, mas que aceitou. Também experimentou quando deixou que o Waze o guiasse por um caminho pior do que o que faria normalmente. É o responsável, entre outras coisas, também por um número significativo de acidentes de aviação e motivo de preocupação crescente por parte das companhias aéreas. 

O segundo ponto abordado por Bridle diz respeito ao clima, mais especificamente às consequências do aquecimento global e do aumento da concentração de CO2 na atmosfera. São abordadas algumas consequências pouco discutidas do aumento da temperatura e das quais poucas pessoas fora da comunidade científica têm conhecimento. Uma exemplo diz respeito ao derretimento de áreas congeladas a séculos, como o permafrost siberiano: no verão de 2016, o derretimento inédito de uma área na península de Yamal causou a exposição de carcaças de renas enterradas sob o permafrost. As carcaças estavam infectadas com bactérias antraz, que ficaram dormentes até serem novamente, causando um surto na região que levou à morte de uma criança e hospitalização de mais de 40 pessoas. 

Outras consequências dizem respeito a aspectos tão variados quanto a queda no desempenho das transmissões sem fio, riscos para aviação em função do aumento de áreas de turbulência e um dos mais perturbadores de todos: a queda da capacidade cognitiva em função do aumento da concentração de CO2. A concentração de CO2 na atmosfera antes da revolução industrial variava entre 275 e 285 ppm, tendo começado a subir desde então e atingido 310 ppm em torno de 1950 e 400 ppm em 2015. Em um ambiente com uma concentração de 1.000 ppm de CO2, a capacidade cognitiva humana cai 21%. Pode-se considerar que ainda estaríamos longe disso e que não há garantias de que o ritmo de aumento irá se manter, mas fica a observação de que estamos falando de concentração em espaços abertos – em salas de aula de algumas escolas na California e no Texas já chegou-se a medir concentrações de 2.000 ppm ainda em 2012. 

Segundo o filósofo Timothy Morton, o aquecimento global é um “hiperobjeto”: algo que nos envolve e afeta, mas que é tão grande que se torna impossível de ver por completo. Apenas podemos perceber os hiperobjetos por meio de suas influências nas coisas. Por estarem próximos demais e ainda assim tão difíceis de enxergar, são difíceis de dominar e controlar e requerem uma quantidade enorme de computação para modelar. 

É um conceito interessante. Talvez ajude a explicar a ainda grande resistência em se aceitar a realidade do aquecimento global, mesmo dada a enorme quantidade de estudos indicando o fenômeno. Quando olhamos para a abundância de informações que nos foi tornada acessível pelo advento na Internet sobre esse e uma infinidade de outros temas, seria de se esperar que o acesso generalizado a vastos repositórios de conhecimento iluminaria o mundo e colaboraria para a solução dos problemas. Curiosamente, entretanto, em vez da emergência de um consenso coerente, o que se viu foi o despertar de narrativas fundamentalistas simplistas, teorias da conspiração e pós-verdades. 

Além dos dois pontos que abordei acima (opacidade dos sistemas computacionais complexos e efeitos climáticos negativos da atividade humana), o livro aborda ainda uma série de outras questões, como a queda na eficiência no desenvolvimento de pesquisas de medicamentos, o aumento do poder das burocracias e o uso excessivo de dispositivos eletrônicos por crianças para traçar uma perspectiva preocupante de futuro, ao considerar a confluência de todos estes fenômenos em um mesmo momento histórico. É exageradamente pessimista em alguns trechos e faz algumas extrapolações questionáveis, mas traz uma visão diferente de alguns tópicos sobre os quais pensamos pouco no dia-a-dia, mas que realmente mereceriam pelo menos um pouco mais de atenção.

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Narcosis


Mergulho é um esporte único. Não há competição no mergulho. Você não mergulha para ser melhor do que ninguém. Você mergulha porque é algo que ama e ponto. Para quem olha um mergulhador na água, pode até parecer uma atividade solitária. Nada mais longe da verdade... Você NUNCA está sozinho em um mergulho. Você mergulha com seu dupla e para seu dupla. Depende dele, assim como ele depende de você, seja para manter o seu mergulho seguro, seja para conseguir aquela sua foto bacana, seja para dividir com alguém aquela cena especial que encontrou. 

Vêm então as viagens de mergulho. Grupo maior, mas sempre com amigos que abraçam essa mesma essência do mergulho, com quem você terá o privilégio de conviver por vários dias, experimentar um outro mundo e descobrir o quanto podemos ser melhores, nele e no nosso. 

Vivemos em um mundo obcecado por competição e acumulação. O mergulho é o oposto. E nós precisamos desta pausa e desse contraponto, mesmo que só por uma semana. 

 Porque mergulho é sempre sobre dividir, não sobre acumular. É sobre dividir a sua experiência com quem está do seu lado para que todos possam aprender e evoluir, tornando o mergulho de todos melhor. É sobre levar aquele equipamento extra na mala, não para você mesmo, mas porque ele vai salvar o mergulho de alguém que vai precisar. É sobre dividir seu quarto e suas músicas. É sobre dividir o almoço na barraca da praia e o lanchinho que você trouxe do hotel. É sobre dividir a carona para o aeroporto e a bebida no bar. 

É claro que sempre está presente a adrenalina do mergulho em si, mas é a sensação de bem-estar desse tipo de convivência que torna as viagens de mergulho tão especiais... O sincronismo de emoções ao longo de vários dias, a ressonância límbica perfeita. Emoções, ao contrário de ideias ou abstrações, são contagiosas. A emoção das pessoas ao nosso redor atrai as nossas próprias para uma convergência quase instantânea. É por isso que assistir a filmes no cinema pode ser uma experiência eletrizante, enquanto assistir sozinho ao mesmo filme em casa nunca o será - é a multidão, o grupo que faz com que a história libere sua mágica. Uma mesma emoção une indivíduos em um organismo maior, coeso e síncrono, compartilhando os sustos ou a excitação nos cinemas, o fervor religioso no Hajj muçulmano, a euforia depois de um dia de mergulhos espetaculares ou a sensação de felicidade por alguns dias de tranquilidade quase transcendental, pores do sol espetaculares e margaritas perfeitas. 

Quando participa de uma viagem destas, você começa com amigos e termina com irmãos. Você olha para dentro da vida e ela olha para dentro de você. E ela sorri. E você nunca volta o mesmo. Volta melhor.

domingo, 24 de março de 2019

The Coddling of the American Mind – How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure

Há um fenômeno novo ocorrendo nas universidades americanas e que vem preocupando seus professores e administradores: ações organizadas por estudantes para impedir palestras de convidados externos que defendam opiniões controversas ou vistas como hostis às suas próprias. Estas ações vão de protestos dentro dos auditórios ao bloqueio do acesso às salas e manifestações mais violentas, com depredação de patrimônio das universidades e agressões físicas. O primeiro destes movimentos a cruzar a linha do uso explícito de violência ocorreu em Berkeley em fevereiro de 2017, com a chamada “Milo Riot” (que recebeu este nome por se tratar de um protesto contra a palestra que seria proferida por Milo Yiannopoulos, um jovem inglês homossexual, apoiador de Trump e com um talento incomum na arte de provocar opositores ao extremo para então usar as reações em benefício de sua própria agenda). Teve todo o arsenal comum das ações black blocs a que nos acostumamos por aqui: coquetéis molotov, ataques a policiais, destruição de caixas eletrônicos, etc. O que foi particularmente perturbador nesse caso foi a justificativa de alguns dos estudantes envolvidos entrevistados posteriormente: a violência física das manifestações seria uma forma legítima de “autodefesa” contra a potencial agressão intelectual representada pela fala do convidado. 

Já em 2014, mudanças de comportamento nos campi universitários americanos chamaram a atenção de Greg Lukianoff, CEO da Foundation for Individual Rights in Education (FIRE) e de Jonathan Haidt, PhD em psicologia social e professor de liderança ética na Universidade de Nova York, levando-os a escrever em 2015 um artigo de grande repercussão sobre o tema para o The Atlantic. Desde então, a escalada na frequência e gravidade desse tipo de ocorrência nos EUA ao longo dos últimos 2 anos os levou a buscar aprofundar sua compreensão do cenário, analisar suas causas e escrever o livro “The Coddling of the American Mind – How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure” (algo como “Mimando a mente americana – como boas intenções e péssimas ideias estão condenando uma geração ao fracasso”). O livro é obviamente novo, mas tem sido muito elogiado por pessoas como Steven Pinker e foi escolhido como o melhor livro de 2018 pela Bloomberg. Conta a história de um tempo estranho e perturbador, em que muitas instituições estão funcionando mal, a confiança vem caindo e uma nova geração (a iGen ou Geração Z - os pós-Millenials), está apenas começando a se formar no ensino superior e a entrar no mercado de trabalho. 



É uma obra focada principalmente na sociedade americana e que analisa eventos ocorridos em instituições americanas, de modo que talvez não venha a ser traduzido para o português tão logo, mas eu sinceramente recomendo a todos que, como eu, têm filhos iGen – posso estar errado, mas temo que o mesmo tipo de movimentação vista nos EUA em breve estará chegando às nossas universidades, uma vez que os aspectos sociais e políticos descritos pelos autores como as razões fundamentais dos fenômenos observados são muito similares aos percebidos atualmente no Brasil (veja a parte III abaixo). Como todo livro bom, é muito difícil de resumir e nenhum resumo substitui a leitura do original, mas as principais ideias apresentadas podem ser resumidas em 4 partes: ideias ruins, seus efeitos, como chegamos a elas e como resolver o problema. 

1 – As péssimas ideias 

Na primeira parte do livro os autores apresentam as ferramentas intelectuais de que o leitor precisa para compreender a nova cultura de “segurança” que vem sendo incorporados à vida dos campi americanos a partir de 2013 e que possibilitam reconhecer o que chamam de as Três Grandes Falácias (ou inverdades, para uma tradução mais precisa). 

A primeira Grande Falácia é a da Fragilidade: crianças e adolescentes são criados hoje em uma cultura de superproteção que, na esteira da paranoia pela criação de espaços e ambientes seguros, as está isolando da exposição a situações e experiências que são fundamentais para a formação de adultos fortes e resilientes. Um exemplo clínico é o caso do banimento de produtos derivados de amendoim nas escolas americanas em meados da década de 90: em vez de diminuir, a taxa de crianças que desenvolveram alergia a amendoim em 2018 foi o triplo do que era observado quando a norma foi implantada. Um estudo publicado pela LEAP (Learn Early About Peanut Allergy) demonstrou que a falta de exposição ao amendoim estava agravando o problema, em vez de amenizá-lo. Como colocado por um dos pesquisadores da LEAP em uma entrevista: 

“Por décadas os alergistas vêm recomendando que crianças pequenas evitem o consumo de alimentos com presença de substâncias alergênicas como amendoim, como uma forma de se prevenir o desenvolvimento de alergias alimentares. Nossas descobertas sugerem que esse conselho seja incorreto e que possa ter contribuído para o aumento da incidência de alergias ao amendoim e outros alimentos” 

Esse é o conceito fundamental em que se baseia a “hipótese da higiene”, a principal hipótese explicativa de porque as taxas de alergias aumentam conforme os países se tornam mais limpos e saudáveis. Segue a explicação desta hipótese por Alison Gopnik e sua extrapolação para o tema de que trata o livro: 

“Graças à higiene, aos antibióticos e a pouca brincadeira fora de casa, as crianças não são tão expostas a micróbios como eram. Isso pode levá-las a desenvolver sistemas imunológicos que reagem de forma exagerada a substâncias que não são verdadeiramente nocivas, causando alergias. Do mesmo modo, ao se isolar as crianças de qualquer risco possível, pode-se levá-las a reagir com medo exagerado frente a situações que não apresentam qualquer risco real e assim impedir que desenvolvam habilidades que lhes serão necessárias na idade adulta.” 

Os autores contam como essa cultura de “segurança” se instaurou na sociedade e como o conceito se infiltrou por outros aspectos da vida americana, ao ponto de, por exemplo, elevar desconforto emocional ao status de perigo equivalente ao de um risco físico - justamente o argumento apresentado no primeiro parágrafo deste post pelo estudante questionado sobre sua participação na Milo Riot. 

A segunda Grande Falácia é a da “Racionalização Emocional”, ou “sempre confie em seus sentimentos”, uma distorção cognitiva que vem se difundindo ao longo dos últimos anos, inclusive por meio da difusão de algumas linhas de livros de autoajuda. Basicamente trata-se de racionalizar, intencionalmente ou não, as emoções de modo que o seu lado racional atue no sentido de sempre buscar elaborar uma teoria para validar uma resposta emocional em vez de questioná-la. Para quem leu “Rápido e Devagar de Daniel Kahneman”, seria como ter o seu sistema racional (lento) sempre submisso ao sistema emocional (rápido). Um exemplo de consequência dessa falácia é a difusão do conceito de “microagressões”. 

Microagressão refere-se a uma forma de se interpretar pequenas indignidades e atos falhos de comunicação contra minorias. Pequenos atos de agressão são reais e o termo poderia ser útil, mas passou a incorporar também pequenas ofensas acidentais e não intencionais, de modo que o uso do termo “agressão” é infeliz. Olhar o mundo permanentemente sob as lentes do conceito de microagressão significa interpretar situações do dia-a-dia sempre da forma mais negativa possível (se eu posso interpretar este comentário do meu colega como racista, é porque foi racista mesmo), amplia a dor experimentada por minorias e escala conflitos desnecessária e injustamente. 

A terceira Grande Falácia é a de que “a vida é uma eterna batalha entre pessoas boas e más”, ou seja a falácia do “Nós contra Eles”. Essa falácia está no centro do efeito de polarização que vemos nas sociedades atuais e já escrevi bastante sobre isso no post sobre o livro “Moral Tribes”, de modo que não vou me alongar nesse tópico. Basta reproduzir a frase do rabino Lord Jonathan Sacks no livro “Not in God’s Name”: 

“Existe um dualismo moral que vê o bem e o mal como instintos dentro de nós e que nos forçam a uma escolha entre os dois. Mas existe também o que eu chamo de dualismo patológico, que vê a humanidade em si como radicalmente dividida entre os impecavelmente bons e os irremediavelmente maus. Você não é nem uma coisa nem outra.” 

2 – Os efeitos 

Na parte II, os autores apresentam as 3 falácias em ação e suas consequências nos campi: bloqueios a palestras, intimidação e violência física ocasional e como estas ocorrências estão tornando difícil a tarefa de educação e pesquisa das universidades. Por serem eventos muito específicos dos Estados Unidos, também não vou aprofundar esta parte, mas quem tiver interesse pode buscar artigos sobre os seguintes eventos:






3 – Como chegamos a isso? 

Na parte III são identificadas 6 fenômenos que explicam as mudanças rápidas de comportamento nos campi entre 2013 e 2017 e que tiveram enorme impacto na geração iGen. É o trecho mais relevante para os pais da minha geração e pode ser facilmente percebido o paralelo com fenômenos similares observados no Brasil: 

- O ciclo de polarização – Os EUA vêm experimentando um aumento constante da polarização partidária desde de os anos 80: uma polarização emocional que leva as pessoas que se identificam com um dos seus dois principais partidos a odiar e temer de forma crescente o partido oposto e seus apoiadores. Este fenômeno ajuda a entender as mudanças nos campi: a polarização partidária nos EUA em geral é praticamente simétrica, mas os estudantes e professores universitários tendem mais à esquerda. Deste modo, universidades são naturalmente mais propensas a se tornarem alvos de hostilidade e desconfiança por parte de conservadores e organizações com tendências de direita. O número de professores assediados ou atacados pela direita em razão de ideias expressas em entrevistas ou redes sociais começou a aumentar a partir de 2016, afetando nitidamente seu comportamento e criando um ambiente em que estão constantemente “pisando em ovos” ao expressar suas opiniões. 

- Ansiedade e depressão – Considera-se 1995 como o ano do nascimento da geração iGen. Em 2006, quando o primeiro iGen fazia 11 anos de idade, o Facebook alterou sua política de requisitos para adesão e deixou de exigir comprovação de matrícula em uma faculdade. A partir daí, qualquer pessoa a partir de 13 anos de idade (ou crianças mentindo a idade) passou a poder aderir. Entretanto, Facebook e mídias sociais em geral não atraíam muita atenção até a introdução do iPhone em 2007. Desde então, ao longo do período compreendido entre 2007 e 2012, a vida social do adolescente americano médio passou por uma mudança muito significativa – os iGen’s são a primeira geração totalmente imersa no enorme experimento social e comercial representado pelas mídias sociais. Não se pode afirmar categoricamente a correlação, mas é fato que os iGen’s apresentam taxas muito mais altas de ansiedade e depressão (especialmente as meninas, cujas taxas de suicídio dobraram desde 2007). As meninas podem estar sofrendo mais por serem mais afetadas por comparações sociais (percepções de realidade distorcidas por exemplo por fotos com beleza ampliada digitalmente), por sinais de que estão sendo deixadas de fora de grupos ou perdendo alguma coisa importante (FOMO – fear of missing out) e por bullying e agressões, todas situações muito mais difíceis de ignorar quando se porta um celular com acesso permanente às redes sociais. 

A chegada dos iGen’s às universidades coincide de forma exata com a intensificação da cultura de “segurança” nos campi e os iGen’s podem ser especialmente atraídos para ambientes de cultura superprotetora. Esta afinidade entre os iGen’s e ambientes “seguros” tem o reflexo de realimentar o ciclo de expansão da cultura de “segurança”, podendo ser entendido como um incentivo às universidades para adotar esse padrão em suas estruturas como uma ferramenta de atração e retenção de alunos, em detrimento do livre debate de ideias. 

- Pais paranoicos – Quando as crianças são superprotegidas, estão sendo prejudicadas. Crianças são naturalmente antifrágeis, no sentido da definição apresentada por Nassim Nicholas Taleb em seu livro “The Black Swan”: elas precisam de situações de stress e desafio para aprenderem, adaptarem-se e crescerem. A superproteção as torna mais fracas e menos resilientes. Comparadas com gerações anteriores, as crianças iGen têm nitidamente menos tempo para brincadeiras não-supervisionadas por adultos, possibilidades de exploração por conta própria e exposição a desafios, riscos e experiências negativas que ajudariam a torná-las adultos mais fortes, competentes e independentes. Além disso, leis e normas sociais superprotetoras bem-intencionadas, mas que dificultam ou impedem que se deixe crianças sem supervisão, podem estar impactando de forma negativa a saúde mental e a resiliência dos jovens de hoje. A criação por pais paranoicos faz com que as crianças abracem as Três Falácias desde cedo. Quando chegam à faculdade, então, são naturalmente seduzidas pela cultura de “segurança” e tendem a reagir negativamente à exposição de ideias e conceitos contrários aos seus, interpretando-os como agressão. 

- O declínio das brincadeiras – Crianças, como os demais mamíferos, precisam de tempo para brincar livremente e interagir em ambientes sem regras para finalizar a formação de seu complexo sistema neural. Crianças privadas de tempo para brincar são propensas a tornarem-se adultos menos competentes física e socialmente, menos tolerantes a riscos e mais suscetíveis a problemas de ansiedade. O declínio do tempo livre para brincar é causado por várias tendências, como um medo exagerado de estranhos e sequestros, o aumento da competitividade e exigências nos processos de admissão em universidades, o aumento da ênfase em atividades extracurriculares e lições de casa mesmo em idades mais tenras e a correspondente perda de ênfase em habilidades não acadêmicas. Além disso, o advento da disponibilidade smartphones e mídias sociais em combinação com estas tendências, vem mudando a forma como as crianças (americanas e brasileiras) gastam seu tempo e afetando os tipos de interação social e física que guiam o intrincado processo de formação e amadurecimento do sistema neurológico. 

- O crescimento da burocracia nos campi – A expansão de uma cultura de “espaços seguros” nos campi geralmente é oriunda de boas intenções, mas pode acarretar consequências ruins para os alunos. Nos Estados Unidos, uma onda crescente de ações legais contra universidades e também pressões de mercado por resultados, transformaram diversas instituições em empresas particularmente preocupadas em agradar a seus “clientes” e este fenômeno vem tendo efeito negativos sobre a liberdade de expressão em seus ambientes. Esforços para proteger estudantes por meio da criação de estruturas burocráticas formais para resolução de problemas e conflitos podem ter consequências não intencionais no sentido de ampliar dependência moral dos alunos e solapar as suas habilidades de resolver conflitos de forma direta e independente tanto ao longo dos cursos como após a graduação. 

- A busca por justiça – Eventos políticos ocorridos nos últimos anos tiveram um forte impacto emocional sobre os adolescentes em formação que estão hoje chegando às faculdades. Estes estudantes respondem a estes eventos com um forte compromisso com o ativismo em prol de justiça social. As noções intuitivas de justiça são de duas naturezas: distributiva (a percepção de que as pessoas estão recebendo o que merecem) e procedural (a percepção de que o processo e as regras são justos e confiáveis). O tema da justiça social é um conceito central nos campi hoje e assume várias formas, em particular de esforços no sentido da igualdade de oportunidades e de que todos sejam tratados com dignidade. Entretanto, quando ativistas estão dispostos a violar as regras e mudar o foco de igualdade de oportunidades para igualdade de resultados, movidos por um senso de justiça distorcido, eles passam a aderir a movimentos e campanhas contraproducentes, indo inclusive contra pessoas que compartilham seus objetivos. Deixam de compreender a verdadeira natureza dos problemas e perdem a legitimidade em seus esforços para resolvê-los. 

4 – Como solucionar o problema? 

Na parte IV são oferecidos conselhos sobre como pais e professores podem criar e educar crianças mais sábias, fortes e independentes e sugeridas formas pelas quais professores, administradores e estudantes universitários podem melhorar suas universidades e adaptá-las ao nosso cenário atual de “revolta turbinada por tecnologia”. Com relação às crianças, as principais sugestões dos autores podem ser resumidas da seguinte forma (incluí apenas 4 das 6 presentes no livro): 

- Prepare a criança para a estrada e não a estrada para a criança – você não vai conseguir ensinar antifragilidade para suas crianças diretamente, mas pode lhes dar o presente da experiência – as milhares de pequenas experiências diárias de que elas precisam para tornarem-se adultos resilientes e autônomos. Este presente começa ao se reconhecer que crianças precisam de tempo livre para brincar sem supervisão, em brincadeiras sem regras formais, para conseguirem aprender a como avaliar riscos por conta própria e a lidar com situações de frustração, tédio e conflitos interpessoais. Elas precisam brincar ao ar livre, com outras crianças. Em algumas situações a supervisão de um adulto pode ser necessária para garantir a segurança física, mas ele não deve interferir em disputas e conflitos. 

- Seu pior inimigo não vai conseguir prejudicá-lo tanto quanto seus próprios pensamentos, se não tomar cuidado com eles – Crianças, assim como adultos, são muito propensos a abraçar a falácia da Racionalização Emocional. Elas precisam aprender habilidades cognitivas e sociais que vão ajudar a limitar a prevalência das emoções sobre a razão e a lidar de forma mais produtiva com as provocações e desafios da vida. Especialmente hoje, quando a internet garante que elas serão expostas a um monte de lixo e frustrações diariamente, é vital que aprendam a interpretar e gerenciar suas respostas emocionais. A principal ferramenta proposta pelos autores é a chamada CBT (Terapia Cognitivo-comportamental), uma forma de psicoterapia que se baseia no conhecimento empírico da psicologia e que é de aplicação extremamente simples, podendo ser aprendida facilmente. Um dos livros que recomendam sobre o assunto é “Feeling Good: The New Mood Therapy” de David Burns), mas fornecem também um guia básico de aplicação de CBT em um dos apêndices do próprio livro. 

 - A linha que divide o bem e o mal corta ao meio o coração de todos os seres humanos – Ajude suas crianças a não cair na falácia dos “nós contra eles”. Não incentive nem propague discursos de ódio. Conceda às pessoas o benefícios da dúvida e pratique humildade intelectual (ou seja, reconheça que pode não estar certo e que o outro pode ter argumentos relevantes para refutar ou reforçar a sua posição). Observe como a escola de seus filhos lida com a questão de identidade política e se não incentiva a internalização da falácia do “nós contra -eles”. 

- Limite o tempo de uso dispositivos eletrônicos – Se as crianças puderem fazer sempre o que quiserem, vão gastar a maior parte do tempo olhando para telas. De acordo com a ONG Common Sense Media, nos EUA os adolescentes tendem a passar 9 horas (!) por dia em frente a telas e crianças de 8 a 12 anos tendem a passar 6 horas diárias. Isso ADICIONALMENTE ao tempo em que eles usam os dispositivos para tarefas e atividades escolares. Um número crescente de pesquisas indica que tal uso excessivo está associado a problemas mentais e sociais, mas o tema ainda precisa de muito estudo. Entretanto, a limitação de tempo a 2 horas diárias vem demonstrando ser um limite saudável e que aparenta evitar os efeitos mentais negativos. Para crianças pequenas, considere banir o uso de dispositivos eletrônicos durante os dias da semana e atrasar ao máximo a incorporação dos mesmos às rotinas diárias. Fique atento também a como as mídias sociais são usadas e sobre como seus filhos lidam com questões como FOMO (fear of missing out), comparações sociais e percepções irrealisticamente positivas sobre as vidas de seus colegas (especialmente sobre os que inundam seus perfis com fotos perfeitas de viagens, festas e passeios). Finalmente, proteja o tempo de sono de seus filhos e interrompa o uso de eletrônicos no mínimo entre 30 e 60 minutos antes da hora de dormir, além de deixar os dispositivos guardados fora do quarto das crianças. 

O livro inclui ainda recomendações às universidades e seus profissionais no estabelecimento de políticas que as fortaleçam em sua função fundamental de busca de conhecimento e da verdade e que também são bastante relevantes e práticas, incluindo um modelo de declaração de princípios de defesa da liberdade de expressão em suas dependências baseado no adotado pela Universidade de Chicago. 

Em suma, apesar de analisar um cenário não muito agradável no ambiente universitário de hoje, o livro oferece soluções práticas para ajudar a mudá-lo. Não é uma obra pessimista, pelo contrário. É bastante otimista com relação à nossa capacidade para resolver as dificuldades atuais e de evoluirmos com elas. Fecha com uma frase de 1830 de Thomas Babington Macaulay, um historiador e parlamentar britânico, que pode ser aplicada tranquilamente aos dias de hoje e a qualquer outro momento da história: 

“Nós não podemos absolutamente provar que estão errados aqueles que nos dizem que a sociedade atingiu um ponto de inflexão e que já vimos nossos melhores dias. Mas isso é a mesma coisa que disseram os que vieram antes de nós, com a mesma propriedade... Com base em que princípios nos baseamos para esperar nada além de deterioração à nossa frente, quando vemos nada além de progresso atrás de nós?”