domingo, 24 de março de 2019

The Coddling of the American Mind – How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure

Há um fenômeno novo ocorrendo nas universidades americanas e que vem preocupando seus professores e administradores: ações organizadas por estudantes para impedir palestras de convidados externos que defendam opiniões controversas ou vistas como hostis às suas próprias. Estas ações vão de protestos dentro dos auditórios ao bloqueio do acesso às salas e manifestações mais violentas, com depredação de patrimônio das universidades e agressões físicas. O primeiro destes movimentos a cruzar a linha do uso explícito de violência ocorreu em Berkeley em fevereiro de 2017, com a chamada “Milo Riot” (que recebeu este nome por se tratar de um protesto contra a palestra que seria proferida por Milo Yiannopoulos, um jovem inglês homossexual, apoiador de Trump e com um talento incomum na arte de provocar opositores ao extremo para então usar as reações em benefício de sua própria agenda). Teve todo o arsenal comum das ações black blocs a que nos acostumamos por aqui: coquetéis molotov, ataques a policiais, destruição de caixas eletrônicos, etc. O que foi particularmente perturbador nesse caso foi a justificativa de alguns dos estudantes envolvidos entrevistados posteriormente: a violência física das manifestações seria uma forma legítima de “autodefesa” contra a potencial agressão intelectual representada pela fala do convidado. 

Já em 2014, mudanças de comportamento nos campi universitários americanos chamaram a atenção de Greg Lukianoff, CEO da Foundation for Individual Rights in Education (FIRE) e de Jonathan Haidt, PhD em psicologia social e professor de liderança ética na Universidade de Nova York, levando-os a escrever em 2015 um artigo de grande repercussão sobre o tema para o The Atlantic. Desde então, a escalada na frequência e gravidade desse tipo de ocorrência nos EUA ao longo dos últimos 2 anos os levou a buscar aprofundar sua compreensão do cenário, analisar suas causas e escrever o livro “The Coddling of the American Mind – How Good Intentions and Bad Ideas are Setting Up a Generation for Failure” (algo como “Mimando a mente americana – como boas intenções e péssimas ideias estão condenando uma geração ao fracasso”). O livro é obviamente novo, mas tem sido muito elogiado por pessoas como Steven Pinker e foi escolhido como o melhor livro de 2018 pela Bloomberg. Conta a história de um tempo estranho e perturbador, em que muitas instituições estão funcionando mal, a confiança vem caindo e uma nova geração (a iGen ou Geração Z - os pós-Millenials), está apenas começando a se formar no ensino superior e a entrar no mercado de trabalho. 



É uma obra focada principalmente na sociedade americana e que analisa eventos ocorridos em instituições americanas, de modo que talvez não venha a ser traduzido para o português tão logo, mas eu sinceramente recomendo a todos que, como eu, têm filhos iGen – posso estar errado, mas temo que o mesmo tipo de movimentação vista nos EUA em breve estará chegando às nossas universidades, uma vez que os aspectos sociais e políticos descritos pelos autores como as razões fundamentais dos fenômenos observados são muito similares aos percebidos atualmente no Brasil (veja a parte III abaixo). Como todo livro bom, é muito difícil de resumir e nenhum resumo substitui a leitura do original, mas as principais ideias apresentadas podem ser resumidas em 4 partes: ideias ruins, seus efeitos, como chegamos a elas e como resolver o problema. 

1 – As péssimas ideias 

Na primeira parte do livro os autores apresentam as ferramentas intelectuais de que o leitor precisa para compreender a nova cultura de “segurança” que vem sendo incorporados à vida dos campi americanos a partir de 2013 e que possibilitam reconhecer o que chamam de as Três Grandes Falácias (ou inverdades, para uma tradução mais precisa). 

A primeira Grande Falácia é a da Fragilidade: crianças e adolescentes são criados hoje em uma cultura de superproteção que, na esteira da paranoia pela criação de espaços e ambientes seguros, as está isolando da exposição a situações e experiências que são fundamentais para a formação de adultos fortes e resilientes. Um exemplo clínico é o caso do banimento de produtos derivados de amendoim nas escolas americanas em meados da década de 90: em vez de diminuir, a taxa de crianças que desenvolveram alergia a amendoim em 2018 foi o triplo do que era observado quando a norma foi implantada. Um estudo publicado pela LEAP (Learn Early About Peanut Allergy) demonstrou que a falta de exposição ao amendoim estava agravando o problema, em vez de amenizá-lo. Como colocado por um dos pesquisadores da LEAP em uma entrevista: 

“Por décadas os alergistas vêm recomendando que crianças pequenas evitem o consumo de alimentos com presença de substâncias alergênicas como amendoim, como uma forma de se prevenir o desenvolvimento de alergias alimentares. Nossas descobertas sugerem que esse conselho seja incorreto e que possa ter contribuído para o aumento da incidência de alergias ao amendoim e outros alimentos” 

Esse é o conceito fundamental em que se baseia a “hipótese da higiene”, a principal hipótese explicativa de porque as taxas de alergias aumentam conforme os países se tornam mais limpos e saudáveis. Segue a explicação desta hipótese por Alison Gopnik e sua extrapolação para o tema de que trata o livro: 

“Graças à higiene, aos antibióticos e a pouca brincadeira fora de casa, as crianças não são tão expostas a micróbios como eram. Isso pode levá-las a desenvolver sistemas imunológicos que reagem de forma exagerada a substâncias que não são verdadeiramente nocivas, causando alergias. Do mesmo modo, ao se isolar as crianças de qualquer risco possível, pode-se levá-las a reagir com medo exagerado frente a situações que não apresentam qualquer risco real e assim impedir que desenvolvam habilidades que lhes serão necessárias na idade adulta.” 

Os autores contam como essa cultura de “segurança” se instaurou na sociedade e como o conceito se infiltrou por outros aspectos da vida americana, ao ponto de, por exemplo, elevar desconforto emocional ao status de perigo equivalente ao de um risco físico - justamente o argumento apresentado no primeiro parágrafo deste post pelo estudante questionado sobre sua participação na Milo Riot. 

A segunda Grande Falácia é a da “Racionalização Emocional”, ou “sempre confie em seus sentimentos”, uma distorção cognitiva que vem se difundindo ao longo dos últimos anos, inclusive por meio da difusão de algumas linhas de livros de autoajuda. Basicamente trata-se de racionalizar, intencionalmente ou não, as emoções de modo que o seu lado racional atue no sentido de sempre buscar elaborar uma teoria para validar uma resposta emocional em vez de questioná-la. Para quem leu “Rápido e Devagar de Daniel Kahneman”, seria como ter o seu sistema racional (lento) sempre submisso ao sistema emocional (rápido). Um exemplo de consequência dessa falácia é a difusão do conceito de “microagressões”. 

Microagressão refere-se a uma forma de se interpretar pequenas indignidades e atos falhos de comunicação contra minorias. Pequenos atos de agressão são reais e o termo poderia ser útil, mas passou a incorporar também pequenas ofensas acidentais e não intencionais, de modo que o uso do termo “agressão” é infeliz. Olhar o mundo permanentemente sob as lentes do conceito de microagressão significa interpretar situações do dia-a-dia sempre da forma mais negativa possível (se eu posso interpretar este comentário do meu colega como racista, é porque foi racista mesmo), amplia a dor experimentada por minorias e escala conflitos desnecessária e injustamente. 

A terceira Grande Falácia é a de que “a vida é uma eterna batalha entre pessoas boas e más”, ou seja a falácia do “Nós contra Eles”. Essa falácia está no centro do efeito de polarização que vemos nas sociedades atuais e já escrevi bastante sobre isso no post sobre o livro “Moral Tribes”, de modo que não vou me alongar nesse tópico. Basta reproduzir a frase do rabino Lord Jonathan Sacks no livro “Not in God’s Name”: 

“Existe um dualismo moral que vê o bem e o mal como instintos dentro de nós e que nos forçam a uma escolha entre os dois. Mas existe também o que eu chamo de dualismo patológico, que vê a humanidade em si como radicalmente dividida entre os impecavelmente bons e os irremediavelmente maus. Você não é nem uma coisa nem outra.” 

2 – Os efeitos 

Na parte II, os autores apresentam as 3 falácias em ação e suas consequências nos campi: bloqueios a palestras, intimidação e violência física ocasional e como estas ocorrências estão tornando difícil a tarefa de educação e pesquisa das universidades. Por serem eventos muito específicos dos Estados Unidos, também não vou aprofundar esta parte, mas quem tiver interesse pode buscar artigos sobre os seguintes eventos:






3 – Como chegamos a isso? 

Na parte III são identificadas 6 fenômenos que explicam as mudanças rápidas de comportamento nos campi entre 2013 e 2017 e que tiveram enorme impacto na geração iGen. É o trecho mais relevante para os pais da minha geração e pode ser facilmente percebido o paralelo com fenômenos similares observados no Brasil: 

- O ciclo de polarização – Os EUA vêm experimentando um aumento constante da polarização partidária desde de os anos 80: uma polarização emocional que leva as pessoas que se identificam com um dos seus dois principais partidos a odiar e temer de forma crescente o partido oposto e seus apoiadores. Este fenômeno ajuda a entender as mudanças nos campi: a polarização partidária nos EUA em geral é praticamente simétrica, mas os estudantes e professores universitários tendem mais à esquerda. Deste modo, universidades são naturalmente mais propensas a se tornarem alvos de hostilidade e desconfiança por parte de conservadores e organizações com tendências de direita. O número de professores assediados ou atacados pela direita em razão de ideias expressas em entrevistas ou redes sociais começou a aumentar a partir de 2016, afetando nitidamente seu comportamento e criando um ambiente em que estão constantemente “pisando em ovos” ao expressar suas opiniões. 

- Ansiedade e depressão – Considera-se 1995 como o ano do nascimento da geração iGen. Em 2006, quando o primeiro iGen fazia 11 anos de idade, o Facebook alterou sua política de requisitos para adesão e deixou de exigir comprovação de matrícula em uma faculdade. A partir daí, qualquer pessoa a partir de 13 anos de idade (ou crianças mentindo a idade) passou a poder aderir. Entretanto, Facebook e mídias sociais em geral não atraíam muita atenção até a introdução do iPhone em 2007. Desde então, ao longo do período compreendido entre 2007 e 2012, a vida social do adolescente americano médio passou por uma mudança muito significativa – os iGen’s são a primeira geração totalmente imersa no enorme experimento social e comercial representado pelas mídias sociais. Não se pode afirmar categoricamente a correlação, mas é fato que os iGen’s apresentam taxas muito mais altas de ansiedade e depressão (especialmente as meninas, cujas taxas de suicídio dobraram desde 2007). As meninas podem estar sofrendo mais por serem mais afetadas por comparações sociais (percepções de realidade distorcidas por exemplo por fotos com beleza ampliada digitalmente), por sinais de que estão sendo deixadas de fora de grupos ou perdendo alguma coisa importante (FOMO – fear of missing out) e por bullying e agressões, todas situações muito mais difíceis de ignorar quando se porta um celular com acesso permanente às redes sociais. 

A chegada dos iGen’s às universidades coincide de forma exata com a intensificação da cultura de “segurança” nos campi e os iGen’s podem ser especialmente atraídos para ambientes de cultura superprotetora. Esta afinidade entre os iGen’s e ambientes “seguros” tem o reflexo de realimentar o ciclo de expansão da cultura de “segurança”, podendo ser entendido como um incentivo às universidades para adotar esse padrão em suas estruturas como uma ferramenta de atração e retenção de alunos, em detrimento do livre debate de ideias. 

- Pais paranoicos – Quando as crianças são superprotegidas, estão sendo prejudicadas. Crianças são naturalmente antifrágeis, no sentido da definição apresentada por Nassim Nicholas Taleb em seu livro “The Black Swan”: elas precisam de situações de stress e desafio para aprenderem, adaptarem-se e crescerem. A superproteção as torna mais fracas e menos resilientes. Comparadas com gerações anteriores, as crianças iGen têm nitidamente menos tempo para brincadeiras não-supervisionadas por adultos, possibilidades de exploração por conta própria e exposição a desafios, riscos e experiências negativas que ajudariam a torná-las adultos mais fortes, competentes e independentes. Além disso, leis e normas sociais superprotetoras bem-intencionadas, mas que dificultam ou impedem que se deixe crianças sem supervisão, podem estar impactando de forma negativa a saúde mental e a resiliência dos jovens de hoje. A criação por pais paranoicos faz com que as crianças abracem as Três Falácias desde cedo. Quando chegam à faculdade, então, são naturalmente seduzidas pela cultura de “segurança” e tendem a reagir negativamente à exposição de ideias e conceitos contrários aos seus, interpretando-os como agressão. 

- O declínio das brincadeiras – Crianças, como os demais mamíferos, precisam de tempo para brincar livremente e interagir em ambientes sem regras para finalizar a formação de seu complexo sistema neural. Crianças privadas de tempo para brincar são propensas a tornarem-se adultos menos competentes física e socialmente, menos tolerantes a riscos e mais suscetíveis a problemas de ansiedade. O declínio do tempo livre para brincar é causado por várias tendências, como um medo exagerado de estranhos e sequestros, o aumento da competitividade e exigências nos processos de admissão em universidades, o aumento da ênfase em atividades extracurriculares e lições de casa mesmo em idades mais tenras e a correspondente perda de ênfase em habilidades não acadêmicas. Além disso, o advento da disponibilidade smartphones e mídias sociais em combinação com estas tendências, vem mudando a forma como as crianças (americanas e brasileiras) gastam seu tempo e afetando os tipos de interação social e física que guiam o intrincado processo de formação e amadurecimento do sistema neurológico. 

- O crescimento da burocracia nos campi – A expansão de uma cultura de “espaços seguros” nos campi geralmente é oriunda de boas intenções, mas pode acarretar consequências ruins para os alunos. Nos Estados Unidos, uma onda crescente de ações legais contra universidades e também pressões de mercado por resultados, transformaram diversas instituições em empresas particularmente preocupadas em agradar a seus “clientes” e este fenômeno vem tendo efeito negativos sobre a liberdade de expressão em seus ambientes. Esforços para proteger estudantes por meio da criação de estruturas burocráticas formais para resolução de problemas e conflitos podem ter consequências não intencionais no sentido de ampliar dependência moral dos alunos e solapar as suas habilidades de resolver conflitos de forma direta e independente tanto ao longo dos cursos como após a graduação. 

- A busca por justiça – Eventos políticos ocorridos nos últimos anos tiveram um forte impacto emocional sobre os adolescentes em formação que estão hoje chegando às faculdades. Estes estudantes respondem a estes eventos com um forte compromisso com o ativismo em prol de justiça social. As noções intuitivas de justiça são de duas naturezas: distributiva (a percepção de que as pessoas estão recebendo o que merecem) e procedural (a percepção de que o processo e as regras são justos e confiáveis). O tema da justiça social é um conceito central nos campi hoje e assume várias formas, em particular de esforços no sentido da igualdade de oportunidades e de que todos sejam tratados com dignidade. Entretanto, quando ativistas estão dispostos a violar as regras e mudar o foco de igualdade de oportunidades para igualdade de resultados, movidos por um senso de justiça distorcido, eles passam a aderir a movimentos e campanhas contraproducentes, indo inclusive contra pessoas que compartilham seus objetivos. Deixam de compreender a verdadeira natureza dos problemas e perdem a legitimidade em seus esforços para resolvê-los. 

4 – Como solucionar o problema? 

Na parte IV são oferecidos conselhos sobre como pais e professores podem criar e educar crianças mais sábias, fortes e independentes e sugeridas formas pelas quais professores, administradores e estudantes universitários podem melhorar suas universidades e adaptá-las ao nosso cenário atual de “revolta turbinada por tecnologia”. Com relação às crianças, as principais sugestões dos autores podem ser resumidas da seguinte forma (incluí apenas 4 das 6 presentes no livro): 

- Prepare a criança para a estrada e não a estrada para a criança – você não vai conseguir ensinar antifragilidade para suas crianças diretamente, mas pode lhes dar o presente da experiência – as milhares de pequenas experiências diárias de que elas precisam para tornarem-se adultos resilientes e autônomos. Este presente começa ao se reconhecer que crianças precisam de tempo livre para brincar sem supervisão, em brincadeiras sem regras formais, para conseguirem aprender a como avaliar riscos por conta própria e a lidar com situações de frustração, tédio e conflitos interpessoais. Elas precisam brincar ao ar livre, com outras crianças. Em algumas situações a supervisão de um adulto pode ser necessária para garantir a segurança física, mas ele não deve interferir em disputas e conflitos. 

- Seu pior inimigo não vai conseguir prejudicá-lo tanto quanto seus próprios pensamentos, se não tomar cuidado com eles – Crianças, assim como adultos, são muito propensos a abraçar a falácia da Racionalização Emocional. Elas precisam aprender habilidades cognitivas e sociais que vão ajudar a limitar a prevalência das emoções sobre a razão e a lidar de forma mais produtiva com as provocações e desafios da vida. Especialmente hoje, quando a internet garante que elas serão expostas a um monte de lixo e frustrações diariamente, é vital que aprendam a interpretar e gerenciar suas respostas emocionais. A principal ferramenta proposta pelos autores é a chamada CBT (Terapia Cognitivo-comportamental), uma forma de psicoterapia que se baseia no conhecimento empírico da psicologia e que é de aplicação extremamente simples, podendo ser aprendida facilmente. Um dos livros que recomendam sobre o assunto é “Feeling Good: The New Mood Therapy” de David Burns), mas fornecem também um guia básico de aplicação de CBT em um dos apêndices do próprio livro. 

 - A linha que divide o bem e o mal corta ao meio o coração de todos os seres humanos – Ajude suas crianças a não cair na falácia dos “nós contra eles”. Não incentive nem propague discursos de ódio. Conceda às pessoas o benefícios da dúvida e pratique humildade intelectual (ou seja, reconheça que pode não estar certo e que o outro pode ter argumentos relevantes para refutar ou reforçar a sua posição). Observe como a escola de seus filhos lida com a questão de identidade política e se não incentiva a internalização da falácia do “nós contra -eles”. 

- Limite o tempo de uso dispositivos eletrônicos – Se as crianças puderem fazer sempre o que quiserem, vão gastar a maior parte do tempo olhando para telas. De acordo com a ONG Common Sense Media, nos EUA os adolescentes tendem a passar 9 horas (!) por dia em frente a telas e crianças de 8 a 12 anos tendem a passar 6 horas diárias. Isso ADICIONALMENTE ao tempo em que eles usam os dispositivos para tarefas e atividades escolares. Um número crescente de pesquisas indica que tal uso excessivo está associado a problemas mentais e sociais, mas o tema ainda precisa de muito estudo. Entretanto, a limitação de tempo a 2 horas diárias vem demonstrando ser um limite saudável e que aparenta evitar os efeitos mentais negativos. Para crianças pequenas, considere banir o uso de dispositivos eletrônicos durante os dias da semana e atrasar ao máximo a incorporação dos mesmos às rotinas diárias. Fique atento também a como as mídias sociais são usadas e sobre como seus filhos lidam com questões como FOMO (fear of missing out), comparações sociais e percepções irrealisticamente positivas sobre as vidas de seus colegas (especialmente sobre os que inundam seus perfis com fotos perfeitas de viagens, festas e passeios). Finalmente, proteja o tempo de sono de seus filhos e interrompa o uso de eletrônicos no mínimo entre 30 e 60 minutos antes da hora de dormir, além de deixar os dispositivos guardados fora do quarto das crianças. 

O livro inclui ainda recomendações às universidades e seus profissionais no estabelecimento de políticas que as fortaleçam em sua função fundamental de busca de conhecimento e da verdade e que também são bastante relevantes e práticas, incluindo um modelo de declaração de princípios de defesa da liberdade de expressão em suas dependências baseado no adotado pela Universidade de Chicago. 

Em suma, apesar de analisar um cenário não muito agradável no ambiente universitário de hoje, o livro oferece soluções práticas para ajudar a mudá-lo. Não é uma obra pessimista, pelo contrário. É bastante otimista com relação à nossa capacidade para resolver as dificuldades atuais e de evoluirmos com elas. Fecha com uma frase de 1830 de Thomas Babington Macaulay, um historiador e parlamentar britânico, que pode ser aplicada tranquilamente aos dias de hoje e a qualquer outro momento da história: 

“Nós não podemos absolutamente provar que estão errados aqueles que nos dizem que a sociedade atingiu um ponto de inflexão e que já vimos nossos melhores dias. Mas isso é a mesma coisa que disseram os que vieram antes de nós, com a mesma propriedade... Com base em que princípios nos baseamos para esperar nada além de deterioração à nossa frente, quando vemos nada além de progresso atrás de nós?”

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Tribos Morais: Emoção, Razão e o Abismo entre Nós e Eles

Qualquer cidadão brasileiro já está cansado de discussões sobre a polarização que se instalou na política e na sociedade brasileira. Não é um fenômeno exclusivamente nacional: situações análogas são claramente percebidas por exemplo na Argentina, EUA, Inglaterra, França e Venezuela, ao ponto do assunto já ter se tornado lugar-comum em boa parte do mundo. Um dos principais problemas acarretados por este fenômeno é a politização de temas graves e técnicos, que deixam de ser tratado com a frieza e seriedade necessária e passam a ser olhados com a profundidade de uma discussão entre torcidas de futebol. 

Tome-se o exemplo da questão do aquecimento global: em 1998, pesquisas indicavam que eleitores Republicanos e Democratas apresentavam probabilidades praticamente iguais de concordar com o argumento de que a mudança climática estava realmente ocorrendo. De lá para cá, ao mesmo tempo em que as evidências científicas sobre o tema apenas aumentaram, surgiu uma curiosa divergência entre eleitores Republicanos e Democratas com relação ao assunto, a ponto de em 2010 um Democrata ter passado a ter uma probabilidade duas vezes maior de afirmar acreditar na mudança climática do que um Republicano. Isso não ocorreu por questões técnicas ou por um eventual menor acesso às informações científicas por parte dos Republicanos, mas simplesmente pelo fato do assunto ter tomado contornos políticos que levaram os dois partidos a se posicionar em campos opostos, forçando um grande número de eleitores Republicanos a ter de optar (até de forma inconsciente) entre aceitar racionalmente as opiniões dos especialistas no assunto ou simplesmente recusá-las e se comportar, então, como um bom e confiável membro de sua “tribo” política. 

A compreensão desse comportamento tribal inerente ao ser humano e a proposição de um ferramental prático que possibilite a formação de consensos mínimos entre as diferentes tribos modernas é o foco do excelente livro “Moral Tribes – Emotion, Reason and the Gap Between Us and Them”, de Joshua Greene (Penguin Books, 2013). Por ser um assunto excepcionalmente denso, é um tanto complicado resumir os conceitos desenvolvidos ao longo das 360 páginas uma forma acessível sem perder os pontos principais, mas como a imensa maioria das pessoas dificilmente terá acesso a ele, acho que vale a pena fazer uma tentativa de transmitir pelo menos a ideia básica. 



1. Moral como adaptação evolutiva

Depois de Darwin, a moral humana mostrou-se um enigma científico. A teoria da seleção natural podia explicar muitas coisas sobre os seres humanos: a inteligência, a fala e o caminhar sobre duas pernas são adaptações evolutivas com benefícios claros. Entretanto, alguns aspectos de comportamento inatos observados não só nos seres humanos, mas também em nossos parentes mais próximos (chimpanzés), pareciam especialmente intrigantes, como a capacidade para empatia desde a primeira infância, um determinado grau de altruísmo e a disposição para a cooperação com outros indivíduos. Se o objetivo final de um organismo seria a máxima propagação de seus genes (ver os comentários sobre o clássico de Richard Dawkins, “O Gene Egoísta”, em https://paginaemblanco.blogspot.com/2016/04/genes-memes-e-richard-dawkins.html), qual o papel evolutivo desse tipo de comportamento cooperativo? A resposta é que, tanto humanos quanto chimpanzés, são seres eminentemente sociais - grande parte do sucesso da raça humana deriva justamente de sua capacidade de cooperação. Nesse sentido, tanto a fala quanto as noções básicas de não-agressão, altruísmo e empatia passam a fazer sentido, viabilizando a formação de grupos relativamente amplos e aumentando as chances de sobrevivência e reprodução dos membros quando comparadas às de indivíduos isolados. Na interpretação de Greene, é justamente a esse conjunto de comportamentos socialmente desejáveis (éticos) e que em grande medida possibilitam a convivência harmoniosa em grupos, que damos o nome genérico de “moral”: 

“Moral é um conjunto de adaptações psicológicas que possibilitam a indivíduos naturalmente egoístas capturar os benefícios da cooperação com outros.” 

Emerge como consequência imediata desse conceito de moral, portanto, a seguinte questão: As nossas noções básicas de comportamento moral são uma adaptação evolutiva, surgida como um sistema de freios contra comportamentos exclusivamente egoístas e que têm a importante função de orientar o comportamento em situações específicas em que é do interesse de um indivíduo colocar o “nós” à frente do “eu”. Deve, portanto, haver uma estrutura em nosso cérebro que tenha evoluído biologicamente para incorporar essa função, certo? Sim. 

Alguns anos atrás eu publiquei nesse blog um comentário sobre o livro “Rápido e Devagar” de Daniel Kahneman (https://paginaemblanco.blogspot.com/2014/06/rapido-e-devagar.html). Kahneman demonstra como o cérebro humano opera em dois modos diferentes e complementares: um modo “automático” extremamente rápido e intuitivo e um modo “manual”, mais lento e racional. Segundo Greene, boa parte de nossas noções básicas de moral vêm justamente do modo “automático”: nosso repúdio natural a matar outra pessoa ou a deixar uma criança desconhecida se afogar, por exemplo. Ao ver uma criança se afogando em uma piscina, nenhum ser humano mentalmente saudável para e considera o estrago que um mergulho vai fazer no seu terno novo – simplesmente se joga na água para salvá-la. Esse reflexo que induz a algumas ações moralmente perfeitas é inerente ao ser humano e vem justamente do sistema de resposta rápida do cérebro. 

Assumamos, então, que a moralidade básica seja uma evolução biológica que emergiu como indutora de comportamento cooperativo entre os seres humana. Essa inovação biológica teria se estabelecido milhares de anos atrás, em um ambiente em que os seres humanos cooperavam ainda em pequena escala, em grupos reduzidos. Fazia sentido biológico para um indivíduo neste momento a cooperação dentro de seu grupo ou tribo, mas o que ocorria quando dois grupos se encontravam e disputavam um determinado espaço? Era de se esperar a deflagração de um conflito em que o grupo mais forte subjugaria o grupo mais fraco, tomando seus estoques de comida, suas mulheres e animais. 

Mas porque a cooperação entre grupos não faria sentido biológico? Ao mesmo tempo que um nível limitado de cooperação dentro de um grupo poderia ser benéfico para a difusão do pool de genes de seus membros, a cooperação mais ampla entre grupos (universal) já passa a ser claramente inconsistente com os princípios de competição e “sobrevivência do mais apto” que governam a evolução por seleção natural. Deste modo, uma vez que se aceita a moral como uma adaptação biológica, decorre que ela teria que evoluir de modo a incentivar dois tipos de comportamento aparentemente antagônicos, mas coerentes em termos evolutivos: como um dispositivo capaz de induzir comportamento que privilegie o “nós” em detrimento do “eu”, mas simultaneamente como um dispositivo para priorizar o “nós” contra o “eles”. Harmonia dentro do grupo. Conflito entre os grupos. 

2. Meta-moralidade 

Considere-se agora a explosão populacional dos seres humanos nos últimos poucos milhares de anos, em que passamos de menos de 10 milhões de caçadores/coletores para mais de 7 bilhões pessoas habitando um mundo industrializado e altamente conectado. É uma mudança ambiental radical e repentina (numa escala de tempo evolutivo), que os nossos dispositivos “morais” biológicos simplesmente não conseguem acompanhar. Em outras palavras, a moral “natural” que regula nosso comportamento dentro de nossas tribos e que por muito tempo regulou o comportamento entre nossas tribos, simplesmente não é mais adequada (por mais que torcidas organizadas teimem em achar o contrário). Faz-se necessária então, segundo Greene, o estabelecimento de uma meta-moralidade que possa ser considerada aceitável e lógica pelos diversos grupos e assim ajudar a regular as relações entre eles, facilitando os consensos mínimos a que já me referi acima. 

A visão defendida por Greene em seu livro é de que a solução está no Utilitarismo, uma doutrina ética desenvolvida por Jeremy Bentham e John Stuart Mill no século XIX. Basicamente, o Utilitarismo define uma ação como “boa” (moral) quando ela resulta em um aumento líquido do nível de “felicidade” no mundo e “má” quando suas consequências reduzem esse nível. Para um utilitarista, a ação correta a ser tomada em qualquer circunstância pode ser calculada examinando-se as prováveis consequências das várias linhas de ação possíveis, sendo a ação certa (moralmente preferível), aquela com maior probabilidade de resultar em maior “felicidade” líquida à humanidade, ou, como colocado por Greene, com maior probabilidade de melhorar a experiência humana. Em suma, em situações de disputa entre duas visões antagônicas de dois grupos diferentes, as pessoas deveriam simplesmente adotar a melhor solução mediante uma análise racional e isenta das consequências de ambas as opções. Ou seja, identificar e escolher a resposta que apresente a maior probabilidade de melhorar o nível geral de felicidade das pessoas. Fácil de dizer, mas extremamente difícil de implementar. 

Quando avaliavam leis e práticas comuns de sua época, Bentham e Mill consideravam apenas um ponto: isso aumenta ou diminui nossa felicidade e em que medida? Eles argumentaram, por exemplo, que a escravidão não é errada porque “Deus se opõe à escravidão”, mas sim porque qualquer benefício que ela possa trazer (em termos de produtividade econômica, por exemplo), é vastamente superado pela miséria que ela produz. Argumentaram do mesmo modo objetivo contra as restrições de direitos das mulheres, contra o tratamento brutal a animais, a favor do divórcio, a favor dos direitos dos homossexuais, pela separação entre Igreja e Estado, por acesso amplo a educação e assim por diante. Enfim, é uma filosofia de profundo pragmatismo e bastante avançada para seu tempo. 

Uma das críticas que se faz ao utilitarismo, entretanto, é de que seu pragmatismo pode levar a conclusões absurdas e a potenciais violações de direitos básicos das pessoas. Sim, é verdade. No caso da escravidão mencionado acima, por exemplo: mesmo que um cálculo utilitarista chegasse à conclusão, pelo motivo que fosse, de que a escravidão de um determinado povo pudesse aumentar a felicidade líquida da humanidade, ninguém em sã consciência apoiaria tal barbaridade. Obviamente, o que Greene defende, portanto, não é um pragmatismo absoluto, mas sim o utilitarismo respeitando restrições óbvias no que se refere à violação de direitos humanos fundamentais. 

3. Direitos como argumentos 

Mencionei acima a restrição à teoria utilitarista no caso de situações em que a melhor solução calculada implica violação de direitos humanos. Obviamente, mesmo que matar e coletar os órgãos de uma pessoa possa salvar a vida de outras cinco que esperam por um transplante, é uma solução escandalosamente errada por implicar uma violação grotesca do direito à vida do “doador”. Entretanto, Greene alerta de forma muito enfática contra o uso de “direitos” como argumento em uma discussão, uma vez que os mesmos não são consenso entre as diversas tribos e simplesmente não há nenhuma teoria universalmente aceita para se estabelecer quem tem direito exatamente a quê. 

Tome-se o tema atualmente em discussão no Brasil sobre o direito à posse e porte de armas de fogo. É um assunto extremamente politizado, em que boa parte dos argumentos gira em torno do “direito à autodefesa”. Quando um debatedor pró-armas apela para esse argumento e introduz o “direito” na discussão, não está ajudando a resolver a questão. Pelo contrário, está simplesmente fingindo que o assunto já foi resolvido por uma entidade superior em algum reino abstrato ao qual apenas ele e sua tribo teriam acesso privilegiado. A partir daí, então, nenhum argumento, estudo ou estatística que possam ser colocados na mesa pela outra parte e que contradiga sua certeza será levado em consideração. A alegação de um suposto “direito” está, portanto, sendo usada descaradamente como uma arma para encerrar a discussão. 

Evidentemente, há direitos fundamentais que desempenham papel vital em nossa vida moral. Discutir sobre direitos pode ser inútil, mas algumas vezes as discussões são mesmo inúteis. Algumas vezes o que você precisa numa controvérsia moral não é de argumentos, mas justamente de armas. E essa é a hora para se levantar e defender seus direitos. Apenas tenha em mente de que os casos em que é realmente legítimo apelar para direitos em uma discussão são a absoluta exceção e sempre desconfie de quem entra com esse tipo de arma na sala. 

4. Moeda comum e soluções de compromisso 

A partir da introdução da proposta de adoção do Utilitarismo como a meta-moralidade mais adequada para resolver os conflitos do tipo “nós” contra “eles”, Greene passa ao detalhamento aprofundado de sua teoria, usando dados de experimentos de psicologia e neurociência, grande parte deles envolvendo o clássico “Dilema do Bonde”, que já mencionei aqui em um post mais antigo sobre moral (https://paginaemblanco.blogspot.com/2011/07/criancas-e-moral.html). Passa também a buscar um instrumento que possa funcionar como uma “moeda comum” entre os diversos grupos e que forneça uma base de comparação justa para os resultados das diferentes linhas de ação possíveis em uma dada situação de conflito entre grupos com opiniões opostas. Em outras palavras, tenta identificar um conjunto de conceitos comuns que possam ajudar a quantificar alternativas e identificar de forma objetiva qual solução funciona melhor em cada situação, levando a um comprometimento geral das partes envolvidas com ela. 

Para tanto, precisamos olhar para coisas básicas que todos nós, participantes das diferentes tribos, temos em comum: em primeiro lugar, somos todos irremediavelmente unidos pelos altos e baixos da experiência humana. Todos queremos ser felizes e nenhum de nós deseja sofrer. Em segundo lugar, todos somos capazes de entender e aceitar a Regra de Ouro (não fazer aos outros o que não gostaria que fosse feito contra si) e que o bem-estar de cada um tem sempre o mesmo peso e importância dos demais. São dois conceitos básicos razoáveis e compreensíveis por todas as tribos. Juntando-se os dois, dá-se o primeiro passo na construção da “moeda comum” procurada por Greene. 

Em seguida, é necessária uma ferramenta, uma régua que ajude a determinar de forma efetiva qual é a melhor solução para uma dada questão. Existem muitas possíveis fontes de conhecimento, mas a mais confiável e aceita é, sem dúvida, a ciência. A ciência pode não ser infalível e certamente há pessoas dispostas a rejeitar de pronto o conhecimento científico quando ele vai contra suas crenças tribais. Do mesmo modo, entretanto, todo mundo adoraria apelar à ciência para legitimar suas crenças (imagine a felicidade dos criacionistas no dia em que um estudo hipotético venha a mostrar, por exemplo, que a Terra na verdade só tem alguns milhares de anos?). Nenhuma outra forma de conhecimento tem essa capacidade. Para o papel de definir qual é a “melhor solução”, portanto, devemos contar com a ciência. Isso significa buscar provas objetivas e observáveis, ter a honestidade de assumir nossa ignorância quando necessário e disposição para ouvir e aceitar a opinião tecnicamente embasada dos especialistas em assuntos que não dominamos. 

 5. Concluindo 

Apresentados estes conceitos, pode-se finalmente resumir de forma objetiva a ideia central defendida no livro: todos nós, participantes das diversas tribos (coxinhas ou mortadelas, cristãos ou ateus, carnívoros convictos ou vegetarianos), temos embutido em nossos cérebros um dispositivo moral “automático” moldado por influências biológicas, culturais e sociais variadas. Esse dispositivo fornece respostas imediatas que nos servem muito bem nos relacionamentos dentro de nossos grupos. Entretanto, nossas teias de relacionamento são hoje muito mais amplas e um comportamento obviamente moral para um determinado grupo não o é necessariamente para outro (imagine pontos como o direito ao aborto, casamento gay, ou direito à posse de armas, por exemplo). Para a resolução de conflitos morais entre grupos e a definição de políticas adequadas que tragam o melhor resultado em termos de felicidade líquida global, nosso dispositivo “automático” não nos serve na maior parte dos casos – podemos (e devemos), ouvi-lo, mas temos que estar preparados para ignorá-lo quando necessário e aprender a nos guiar pelo nosso mecanismo “manual” (lento e racional). Isso é fundamental se quisermos estabelecer comparações isentas e sem vieses entre possíveis linhas de ação, chegando a decisões embasadas, defensáveis e principalmente aceitáveis para todos os interessados. Proceder de tal modo significa o estabelecimento de soluções de compromisso, as quais podem (e normalmente irão) representar resultados sub-ótimos para cada tribo individualmente, mas que pelo menos viabilizarão os consensos mínimos de que tanto precisamos para progredir. 

Se você chegou até aqui, agradeço pela paciência. Quaisquer que sejam as tribos de que faz parte, espero que esse resumo lhe ajude a ter uma visão mais ampla dos mecanismos que estão em ação em qualquer discussão polarizada em que venha a se envolver, por exemplo, nas redes sociais. Lembre-se do exemplo da mudança climática e de como a “tribalização” de opiniões sobre fatos concretos pode levar à implantação de políticas erradas e potencialmente incoerentes em termos utilitaristas. Perceba as situações em que a sua resposta intuitiva possa estar levando a melhor sobre a sua análise racional. Informe-se. Escute os especialistas. Responda e argumente com fatos. Desconfie de quem usa “direitos” como arma em uma discussão. Mas, acima de tudo, esteja preparado também para ouvir, analisar e absorver evidências, especialmente aquelas que contradigam suas certezas mais arraigadas.

terça-feira, 17 de julho de 2018

Civilização - Ocidente x Oriente

Se você vivesse no século XV e tivesse oportunidade de viajar o mundo, ficaria impressionado com o nível de desenvolvimento e a qualidade de vida das civilizações orientais, como a China e o Império Otomano. Já a Europa Ocidental lhe pareceria um lugar sujo miserável, lutando para recuperar-se da devastação da Peste Negra e enfrentando uma sucessão interminável de conflitos entre reinos vizinhos. Você certamente chamaria de maluco qualquer um que lhe dissesse que o Ocidente dominaria o mundo pela maior parte dos 500 anos seguintes. Mas, como sabemos, foi exatamente isso que aconteceu. 

Em “Civilização - Ocidente x Oriente” (Editora Crítica - 2017), Niall Ferguson busca identificar as razões pelas quais os pequenos e atrasados estados da Europa Ocidental conseguiram produzir uma civilização capaz de subjugar os impérios orientais, conquistar os demais continentes e ainda converter os povos de todo o mundo a seu modo de vida. E não, o demonizado “imperialismo ocidental” não está entre elas. 



Houve muitos impérios ao longo da história da humanidade, muito antes dos construídos pelas nações europeias – impérios eram praticamente a regra no mundo até o século XIX. No século XVI, enquanto os portugueses chegavam ao Brasil, o Império Otomano se estendia da atual Áustria à Argélia, de forma praticamente contínua: 



Ao mesmo tempo, a China prosperava atrás da sua Grande Muralha: 



Para os grandes impérios orientais os navegantes portugueses e holandeses que chegavam às suas praias pareciam o exato oposto de “portadores de civilização” – eram apenas mais alguns bárbaros a aparecer por lá. 

O que então seriam as razões para o que Ferguson denomina de “Grande Divergência” entre os rumos do desenvolvimento das civilizações ocidental e oriental a partir do século XVI e que levou à dominância europeia? Fazendo uma analogia com termos de informática, ele identifica no livro seis “apps” inovadores desenvolvidos pelos europeus e cujo poder combinado foi fundamental para seu sucesso como civilização: 

1- A competição (a concorrência como motor de inovação tanto na economia quanto na política) 

2- A ciência (o conceito e o método para se interpretar e transformar o mundo natural de forma eficiente, que deu, por exemplo uma vantagem militar fundamental aos europeus) 

3- Os direitos de propriedade (lei como proteção aos proprietários privados e ferramenta de solução de conflitos e base estável para um governo representativo) 

4- A medicina (aumento da expectativa de vido e melhoria extremamente significativa nas condições de saúde, inclusive nas colônias) 

5- A sociedade de consumo (modo de vida material como forma de criação de uma demanda infinitamente elástica por produtos, possibilitando as bases para a Revolução Industrial) 

6- A ética do trabalho (como um sistema moral capaz de fornecer coesão à estrutura social resultante dos outros 5 fatores) 

Todos os 6 são dissecados em profundidade ao longo de “Civilização”, juntamente com alguns fatores adicionais, que, apesar de não terem sido consequência direta de ações do Ocidente, também contribuíram de forma fundamental para seu triunfo, como a crise interna e o subsequente colapso da Dinastia Ming, por exemplo. 

Olhando-se estes seis “apps” como uma mera lista de tópicos, tem-se a sensação de que Ferguson faz uma analogia rasa e simplista, mas não é o caso. Do mesmo modo que, ao usar um app no seu celular, tudo lhe pareça muito simples (mesmo que o aplicativo demande uma tecnologia extremamente complexa por trás), ao mesmo tempo em que as seis ideias e instituições relacionadas por Ferguson pareçam simples e óbvias, demandam um código social e histórico extremamente complexo para funcionar. Um código que boa parte das nações (incluindo o Brasil) ainda hoje não dominam totalmente. 

Mas e daqui para frente? 

Em sua conferência proferida pelo programa “Fronteiras do Pensamento” em novembro de 2017, Ferguson analisou também os rumos futuros desta civilização: estaríamos chegando ao fim deste ciclo e começando a sentir os efeitos de uma “Re-convergência”, com a exaustão da hegemonia ocidental? 

É evidente que algumas nações orientais já absorveram e colocaram em prática os tais “apps” relacionados acima (Japão e a Coréia do Sul são apenas os exemplos mais óbvios). Outras, como a China, abraçaram a maioria com entusiasmo, mas ainda encontram dificuldades imensas com os itens 1 e 3, por exemplo. Entretanto, os maiores riscos à hegemonia ocidental não vêm, segundo Ferguson, de fora. Eles se encontram em fenômenos internos bastante recentes, característicos dos países ocidentais nesse início de século: 

1- A quebra do contrato entre as gerações – de um lado os baby-boomers, uma geração que conseguiu acumular mais riqueza que as anteriores e agora se aposenta também mais protegida do que as anteriores. Do outro, os millenials: atolados em dívidas, mal-remunerados, vendo recessão, crises fiscais e déficits previdenciários explodirem pelo mundo, cujas contas terão que pagar. 

2- O excesso de regulação às atividades econômicas – a quantidade de normas e restrições impostas a empresas e negócios no ocidente, comparada com as enfrentadas por seus pares nos países orientais. 

3- The rule of LAW x The rule of LAWYERS – apesar de ser uma tradução difícil para o português, o significado é intuitivamente simples: a indústria de ações e litígios que prolifera nas nações ocidentais, engordando um batalhão de advogados que fazem com que a lei deixe de ser uma ferramenta de proteção ao indivíduo e passe a ser simplesmente um negócio lucrativo; deixe de ser simples e objetiva para ser propositalmente complexa e interpretativa. Caso ainda não esteja claro, passe pela porta de qualquer sindicato na sua cidade com uma carteira de trabalho na mão e veja o que acontece. 

4- A decadência da sociedade civil – a queda brutal na participação em associações voluntárias como entidades de caridade ou ambientais, sindicatos, associações de arte, igrejas e associações esportivas. Ou seja, o desmonte da sociedade civil organizada e a transferência progressiva de responsabilidades para os órgãos governamentais. 

5- O foco excessivamente concentrado nos “pecados” da civilização ocidental, especialmente nos meios acadêmicos, em contraposição à valorização de seus aspectos positivos. Ou seja, a supervalorização, por exemplo, das chamadas “dívidas históricas”, tão propaladas nas nações latino-americanas e a rejeição a priori de que o imperialismo ocidental possa ter trazido qualquer benefício às colônias. 

6- O efeito nocivo de polarização causado diretamente pelas redes sociais – o modelo de negócio de redes como Facebook em que o valor está na captura da atenção e cliques dos usuários representa um incentivo monetário concreto para que estas redes foquem progressivamente na exibição de conteúdo alinhado com o perfil e ideologia do usuário, o que realimenta continuamente suas convicções em vez de lhe oferecer contrapontos e resulta rapidamente na formação de clusters de iguais, cada vez mais desconectados de opiniões divergentes e menos capazes de avaliar de forma crítica e serena cenários políticos, sociais e econômicos. As consequências no mundo físico desta polarização apenas agora começam, após eventos como a eleição de Trump, o Brexit e o escândalo com a Cambridge Analytica, a ser estudadas a sério (*). 

A questão da “Re-convergência” é explorada por Ferguson no seu último livro, “The Square and the Tower”, lançado em outubro de 2017 nos EUA e até o momento sem tradução para o português. 



Se estes fatores identificados por ele serão realmente capazes de reverter o domínio ocidental e elevar um novo modelo à posição de dominância global ainda é cedo para dizer, mas uma coisa é certa: pelo menos os chineses já têm absoluta convicção de que estes últimos séculos foram apenas um acidente de percurso e de que agora a hora deles chegou. 

(*) OBS – para um exemplo interessante de modelo de análise de formação de clusters em redes sociais, ver o artigo “Role of social environment and social clustering in spread of opinions in coevolving networks” disponível em
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4108632/

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Uma dose carnavalesca de otimismo, para variar

Nestes dias de Carnaval é bastante comum nos depararmos com posts nas redes sociais do tipo “o Brasil do jeito que está e o pessoal pulando Carnaval...”, ou “se o povo usasse a mesma energia do Carnaval para lutar por um país melhor...”. É realmente muito fácil nos deixarmos deprimir pela enxurrada de notícias negativas que vemos nos noticiários todos os dias, então eu gostaria de compartilhar um ponto de vista um pouco diferente sobre o Brasil, que talvez ajude o pessoal a ver um outro lado e se animar um pouco. 

Tive oportunidade de participar, há alguns meses, de uma palestra para empresários do setor de embalagens proferida pela jornalista de economia Míriam Leitão em um evento pequeno promovido pela Henkel dentro da programação da Fispal Tecnologia 2017. O tema era tendências econômicas, mas Míriam usou o espaço para apresentar a sua visão macro sobre o futuro do Brasil e transmitiu um otimismo bem fundamentado, que teve um impacto sensível sobre os que tiveram a sorte de participar do evento. 

O primeiro insight que ofereceu foi sua visão de que o Brasil vem evoluindo paulatinamente em ciclos de formação de grandes “consensos nacionais”. De tempos em tempos, mais especificamente a cada década, o país tende a compartilhar uma visão comum com relação a um de seus grandes problemas fundamentais e este grande consenso se torna parte do motor da mudança, levando a uma solução definitiva de questões que até então pareciam insolúveis. Teríamos passado, assim, pelos seguintes ciclos nas últimas décadas: 

- Década de 1980 – Processo de redemocratização, com o fim de um governo militar de mais de vinte anos; 
- Década de 1990 – Estabilização econômica e fim do ciclo de hiperinflação; 
- Década de 2000 – Implantação de programas sociais de distribuição de renda e combate à fome. 

Cada um destes consensos atacou problemas críticos e estabeleceu novas realidades tão solidamente estabelecidas que nem se cogita a possibilidade de retorno à condição anterior – não é mais factível imaginar-se hoje o retorno de uma ditadura militar, da mesma forma que não temos mais o medo constante de um ciclo de hiperinflação. Também não há como se imaginar a erradicação de programas de distribuição de renda que, por mais que precisem de aperfeiçoamento, não deixam de ser fundamentais e irreversíveis. 

Estaríamos agora, na década de 2010, passando por um novo ciclo, desta vez atacando o problema da corrupção endêmica e dos vínculos escusos entre a velha política e as velhas estruturas empresariais. Assim como nos ciclos passados, o processo exige sacrifícios, mas ao que tudo indica, está se estabelecendo no Brasil um novo patamar de governança e uma nova forma de se fazer negócios, em que as práticas antigas do compadrio, da sonegação e do jeitinho deixaram de ser o padrão aceitável e natural e passaram a ser o que sempre deveriam ter sido: a exceção condenável.


A corroborar a visão de Míriam Leitão sobre o tema, vem a opinião de um amigo com quem conversei em dezembro, diretor de compliance de uma grande multinacional europeia e uma das maiores referências em governança corporativa no Brasil. Estava me queixando da situação de concorrência desleal que encontro em meu mercado de atuação, com concorrentes praticando sonegação escancarada e subfaturamento de produtos e a resposta dele foi surpreendente: riu. Disse: “Você não entendeu ainda, não é? O Brasil não está mudando. O Brasil já mudou. Isso que você está me contando não existe mais. Não há mais espaço. Pode ser que ainda existam empresas operando dessa forma, sim. Mas o caso é que esse pessoal já está preso. Pode ser que ainda não saibam, mas já estão presos”. 

O ponto principal do argumento é que há toda uma nova situação de ferramentas de controle nas mãos da fiscalização, toda uma nova geração de profissionais no setor público e principalmente todo um clima de combate às práticas antigas que fazem com que corrupção e sonegação tendam a se tornar inviáveis e arriscadas demais para serem compensadoras. Quem não acordou ainda para essa realidade está em sério risco. Ou já está preso. 

O segundo insight compartilhado na palestra foi o da situação estratégica do Brasil no cenário mundial previsto para as próximas décadas. Em diversos aspectos temos razões concretas para otimismo: 


1 – O Brasil é detentor da maior biodiversidade do mundo, que é um ativo fundamental e extremamente valioso para o desenvolvimento de tecnologias para desde a medicina, até as indústrias de alimentos e cosméticos; 

2 – O Brasil possui uma das maiores reservas hídricas do mundo, tanto em termos de rios quando em termos de aquíferos subterrâneos e que se torna mais valiosa a cada ano (vide a situação caótica na Cidade do Cabo hoje, ou mesmo a crise por que passou a cidade de São Paulo pouco tempo atrás); 

3 – Temos um potencial gigantesco em termos de energias limpas: o país possui condições ideias para instalação de usinas de energia solar em praticamente todos os estados da federação, à exceção talvez do Paraná. Mesmo no caso do pior deles, a condição ainda é melhor do que na Alemanha, que hoje é o maior produtor mundial de energia de origem solar. Além disso, o potencial para energia eólica em terra é dos melhores do mundo: nossos ventos são de baixa altitude, constantes e de baixa turbulência – uma condição ideal para a implantação de usinas eólicas; 

4 – O Brasil é um grande produtor e exportador de alimentos e continuará sendo. Além do sucesso atual do agronegócio brasileiro, as atividades de pesquisa desenvolvidas em institutos como a Embrapa já garantem a disponibilidade de sementes adaptadas às situações de mudança climática que o planeta vem enfrentando, adequadas às condições de produção previstas para as próximas décadas, garantindo a sustentabilidade de nossa produção a longo prazo; 

5 – O tamanho da população e ritmo de crescimento são adequados, não exercendo pressões demográficas excessivas. Ou seja, a população jovem não é tão grande que represente um problema nem estamos enfrentando um processo de envelhecimento que implique em risco de escassez de mão-de-obra; 

6 – A disponibilidade de terras no Brasil para expansão agrícola, sem que seja necessário desmatamento adicional, é extraordinária. O estoque disponível é atualmente de 60 milhões de hectares, equivalente exatamente à soma das áreas totais da Alemanha e do Reino Unido. 

Note-se que todos os seis pontos mencionados acima são concretos e representam vantagens estratégicas reais a curto e médio prazos. Não se está mencionando pontos questionáveis como o valor das reservas de petróleo no pré-sal, por exemplo. Alguns são ainda intangíveis, mas não por isso deixam de ser uma realidade. 

Enfim, sabemos todos que o Brasil não é uma nação desprovida de problemas. Pelo contrário, somos pródigos nesse sentido. Mas a mensagem que gostaria de transmitir aqui é a de que às vezes precisamos ter um certo distanciamento dos noticiários negativos e olhar o cenário macro – há muitas e boas razões para acreditarmos no nosso futuro e podemos, sim, celebrar. 

“(...) Se tudo correr bem, chegaremos um dia a ser como outra nação desenvolvida qualquer – algo semelhante, digamos, a um estado do Sul dos Estados Unidos ou a um país do Mediterrâneo europeu (...). “Se tivermos racionalidade e competência, chegaremos lá.” - Eduardo Giannetti

sábado, 18 de novembro de 2017

Bourgeois Dignity - Why economics can't explain the modern world

Por volta de 1800, um ser humano médio consumia o equivalente a US$ 3 por dia. Atualmente, um morador de países como França ou Japão consome algo próximo a US$ 100 por dia. Esta é a magnitude do crescimento econômico neste período. Se forem levados em conta os benefícios para a qualidade de vida média por conta de inovações que vão da anestesia às viagens de avião, pode-se afirmar sem sombra de dúvida que as condições materiais da humanidade evoluíram em uma proporção ainda muito maior. Em “Bourgeois Dignity - Why economics can't explain the modern world” (The University of Chicago Press, 2011), a economista Deirdre N. McCloskey busca identificar as causas desta onda repentina de desenvolvimento que nos trouxe até o mundo moderno e porque ela se originou no ocidente e não no oriente, apesar de algumas regiões (como a China) apresentarem condições muito mais promissoras que as da Europa, com séculos de antecedência. 


Para McCloskey, forças econômicas não foram a causa original do crescimento visto a partir de 1800 – a economia descreve como essa onda de desenvolvimento se expressou nas diversas regiões do globo, mas não explica as suas causas. Quais seriam então estas causas? O argumento defendido em “Bourgeois Dignity” (e nos dois outros dois volumes que compõe a trilogia da qual o livro é o 2º volume), é uma mudança ética e de retórica a partir de 1800 na Europa foi absolutamente fundamental para abrir o caminho para o modelo capitalista, que possibilitou e levou à Revolução Industrial. 

Ao se referir ao capitalismo, McCloskey adota outro termo: “inovação”, por considerá-lo mais adequado e menos carregado de preconceitos. O que ela argumenta ao longo das 500 páginas do livro é que o verdadeiro liberalismo, que foi como Adam Smith denominou o “sistema óbvio e simples de liberdade natural”, foi o grande responsável pelo crescimento moderno e que ele tem indiscutivelmente as evidências históricas ao seu lado, ao contrário tanto da ideologia socialista quanto da conservadora (focada em acumulação de capital). 

McCloskey defende que a parcela da sociedade responsável pela explosão de crescimento a partir da disseminação dos fundamentos do capitalismo foi uma classe particularmente desprezada até o século XVI: a Burguesia. O termo “burguesia” é usado no texto em seu sentido francês original, de uma classe de profissionais liberais, arquitetos, artesãos, engenheiros, donos de negócios e empreendedores, usualmente moradores das cidades - a chamada “classe média” - e não no sentido marxista usual de “alta burguesia” (os capitães da indústria). 

Após séculos sendo desprezada pelas elites da nobreza, da intelectualidade e do clero, que viam suas atividades como “indignas”, finalmente, trezentos anos atrás, em lugares como a Holanda e a Inglaterra, a imagem da classe média começou a mudar. Conversas sobre negócios, inovação e mercados começaram a ser mais difundidas e aceitas. Os filósofos e teóricos foram levados a repensar o seu preconceito contra a burguesia. As ideias disseminadas pelos países do Atlântico Norte alteraram radicalmente a economia, a política e a retórica. Uma ampla e repentina mudança de posição da opinião pública com relação à burguesia começou a ocorrer no noroeste europeu, em especial em favor das noções de mercado, empresas e inovação. Primeiro a economia no Mar do Norte começou a mudar, depois a economia no Atlântico e finalmente a economia mundial começou a crescer por causa destas mudanças de discurso. O capitalismo como sistema econômico surge quando o comerciante e o empreendedor finalmente começam a ser socialmente aceitos (a “dignidade” do título) e a ser protegidos contra a exploração do estado e do clero (“liberdade”). Os países do Mar do Norte atingem a “dignidade burguesa” com liberdade para empreender e o desenvolvimento econômico vem logo a seguir. 

O livro discorre em detalhes sobre essa questão da mudança de mentalidade e não é possível relacioná-los todos aqui, mas um exemplo interessante refere-se à forma como a inovação virou o jogo diz respeito à dinâmica econômica nas sociedades rurais até 1800: até esta época, quaisquer inovações, digamos, em vestuário ou em embarcações, faziam muito pouco para mudar a vida a US$ 3 por dia mencionada no início deste texto. Se as coisas melhorassem para uma comunidade, as pessoas tendiam a ter mais filhos e então a situação novamente se deteriorava, uma vez que parcela de terra disponível para a produção de alimentos na referida comunidade permanecia a mesma. Ou seja, tinha-se estabelecido um jogo de soma zero. O homem comum não tinha nenhuma razão para acreditar que a vida de seus descendentes seria melhor do que a sua própria. 

Com o capitalismo, entretanto, o jogo passou a ser de soma positiva e a maldição malthusiana foi quebrada. O regime frenético de inovações após 1800 e especialmente após 1900 enriqueceu as pessoas de maneira geral. As novidades, como o motor a vapor, o avião ou o Walmart, eram agora disseminadas de forma abrangente e as pessoas comuns se beneficiavam das inovações pela primeira vez na história. Em 200 anos, o nível médio de consumo mundial explodiu e hoje é de US$ 30 por dia (US$ 137 se você for norueguês). A este aumento puramente monetário, acrescente os benefícios materiais e intangíveis trazidos pela disseminação cada vez maior do acesso à saúde, educação, transporte, energia elétrica, alimentação e informação. Pela primeira vez tem-se estabelecido um sistema econômico operando em favor do povo em geral, em vez de apenas de uma casta de privilegiados. Como colocado por McCloskey: pense um pouco na pobreza e opressão a que os seus ancestrais eram submetidos cinco gerações atrás e regozije-se. Sem falar na expectativa de vida. 

Como “Bourgeois Dignity” não tem uma edição brasileira, é de se imaginar que poucos terão acesso ou mesmo contato com o livro no Brasil, mas a versão digital na Amazon está disponível por US$ 13,20. É um livro denso, mas escrito de forma surpreendentemente leve, bem humorada e que merece ser lido – é especialmente gratificante para aqueles que acordam todos os dias para enfrentar uma realidade em que a retórica de esquerda tenta emplacar um falacioso discurso de monopólio de todas as virtudes e em que um governo inchado e corrupto parece convencido de que a classe média existe para sustentar os privilégios de uma casta medieval de “eleitos” do funcionalismo público. 

Deirdre McCloskey esteve em São Paulo em outubro de 2017 para uma conferência e debate como parte da programação do  Fronteiras do Pensamento, com mediação de Mônica Waldvogel e participação do economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil. Alguns momentos da apresentação podem ser vistos neste link.


Finalmente, a despeito da imagem que você possa ter formado a seu respeito, acho que cabe informar que não se trata de uma catedrática conservadora. Autodenominada uma liberal cristã, com 71 anos e Ph.D. em Economia por Harvard, Dreidre McCloskey é transexual e ativa defensora da economia de livre mercado, da ética e dos direitos das pessoas transgênero. Nada mais coerente. Afinal, como colocado pelo intelectual espanhol José Ortega y Gasset em 1920: “Ao contrário da visão comum, que tende a reduzir o liberalismo econômico a uma receita de livre mercado, impostos baixos, despesas governamentais controladas e negócios privados, o liberalismo é, acima de tudo, uma atitude perante a vida e a sociedade baseada na tolerância e coexistência, no respeito pela história e pelas experiências únicas de diferentes culturas e na defesa firme da liberdade. (...) A liberdade econômica é um elemento chave da doutrina liberal, mas certamente não é o único.”.

sábado, 9 de setembro de 2017

O homem que amava os cachorros

Escrito pelo premiado cubano Leonardo Padura, “O homem que amava os cachorros” (Boitempo, 2013) é um thriller histórico excelente sobre o exílio imposto a Trotski por Stalin e sua posterior caçada pelo assassino espanhol Ramón Mercader no final da década de 30. 




Em forma de romance, alternando 3 pontos de vista diferentes (o do próprio Trostki, o de Mercader e o de um escritor cubano que tem contato com a história décadas depois), é um relato histórico detalhado de um episódio pouco lembrado, tendo por fundo três revoluções desvirtuadas e perdidas: a russa, a espanhola e a cubana. 

O livro acompanha a última década da vida de Trotski, já considerado por Stalin um traidor e contrarrevolucionário, iniciando por seu exílio em Alma-Ata, na União Soviética, e continuando por sua deportação e posteriores exílios em Prinkipo (Turquia), França, Noruega e México, ao mesmo tempo em que narra o recrutamento e transformação do revolucionário espanhol Ramón Mercader em Jacques Monard, que veio a assinar Trotski no México em 1940. 

Mais do que contar a história dos últimos anos de Trotski, Padura descreve o ambiente de terror vivido na União Soviética nos tempos dos expurgos stalinistas, expõe a lógica que levou o governo soviético a assinar o pacto de não-agressão com a Alemanha nazista em 39 e que deixou Hitler livre para dominar a Europa, mostra como as divisões internas entre os diversos grupos na revolução espanhola contribuíram para o seu fracasso e retrata a atmosfera de fome e desespero que assolou Cuba após o fim da União Soviética, mas, acima de tudo, é um relato da admirável tenacidade e resiliência de Trotski e da fé na sua causa.

sábado, 27 de maio de 2017

Sete breves lições de física

Apesar da revolução por que vem passando a Física desde o século passado, a maior parte dos novos conceitos permanecem um mistério para a maioria dos leigos. Mesmo para aqueles que cursaram faculdades de ciências exatas como Engenharia, a compreensão dos conceitos da mecânica quântica, por exemplo, não é nada trivial e demanda um ferramental matemático razoavelmente sofisticado. 

Nesse contexto, uma obra curta, simples e acessível como “Sete breve lições de física” do italiano Carlo Rovelli, são extremamente úteis para quem deseja uma introdução ao assunto que lhe permita absorver os conceitos básicos em linhas gerais e compreender, por exemplo, porque investimentos científicos bilionários como os realizados no colisor de partículas do CERN são importantes. Dados os aumentos na frequência e intensidade dos ataques que a ciência vem sofrendo recentemente por parte de fundamentalismos das mais variadas naturezas, a relevância deste tipo de texto é grande.




O trabalho de pesquisa de Rovelli concentra-se em uma das fronteiras da física: a teoria da Gravitação Quântica em Loop, nas palavras de Rovelli, “uma tentativa cautelosa de combinar relatividade geral e mecânica quântica, sem utilizar outras hipóteses além destas duas teorias, oportunamente reescritas para tornarem-se compatíveis”. O livro, portanto, começa com alguns conceitos básicos e história da Física e vai progredindo no seu embasamento teórico até dar ao leitor leigo condições de assimilar em linhas gerais as premissas e consequências desta teoria (que, devo avisar, contradiz e desconstrói maravilhosamente boa parte das suas certezas sobre o espaço e o tempo). 

Rovelli esteve no Brasil agora em maio para proferir as palestras inaugurais do ciclo 2017 do Fronteiras do Pensamento. Como seria de se esperar de um bom físico-celebridade, apareceu descabelado e de sandálias e encantou a plateia com sua clareza e simplicidade. Um breve resumo de sua apresentação sobre “O que é ciência?” pode ser acessado na plataforma de conteúdo digital do Fronteiras, em: http://www.fronteiras.com/resumos/o-que-e-ciencia-sp