sábado, 3 de dezembro de 2011

Morte em Veneza

Não me lembro de onde veio a recomendação de ler Thomas Mann, mas dia desses comprei "Morte em Veneza", que acabo de ler. É um livro curto, quase um conto, sobre um escritor (Gustav Aschenbach), já de alguma idade, que vai passar um período de férias em Veneza e se apaixona por um adolescente polonês de 14 anos, extraordinariamente bonito.

É. Não é um livro de mistério policial, como o título e a capa me induziram a acreditar. Mas também não é um livro sobre um caso de amor entre um coroa pedófilo e um menino. Basta dizer que os dois não trocam uma só palavra ao longo do livro todo.

O foco principal é a paixão de Aschenbach pelo "Belo", no sentido platônico da palavra (veja http://paginaemblanco.blogspot.com/2010/12/on-love.html). Para ele, o garoto (Tadzio), é a representação da perfeição, da beleza ideal, e seu amor uma manifestação cristalina do Eros, que vai crescendo lentamente e acaba por se tornar uma obsessão, transformando pouco a pouco o respeitável e sério escritor em uma figura patética, um "jovem postiço", como o que ele próprio vê e despreza no início de sua viagem, ainda no barco que rumava a Veneza.

O livro é uma aula de escrita, desde os elementos sutis de mau presságio que aparecem logo no início da viagem, até o paralelo que vai sendo construído entre a rápida decadência de Aschebach com a de uma Veneza assombrada por uma crescente epidemia de cólera, que as autoridades tentam esconder dos turistas. É rápido, de leitura fácil e muito bom, com referências à mitologia e influências da filosofia gregas permeando todo o texto.

Sobre a abordagem do Eros e a análise com base na filosofia platônica, há um artigo curto, mas bem detalhado, disponível em:
 http://www.apario.com.br/index/boletim38/Junggermanisten3-Oerotismo.pdf. Entretanto, há um componente que não é levantado no artigo, mas que acho interessante introduzir, que é a forma pela qual Aschenbach racionaliza a sua situação, da qual se envergonha. A abordagem que usa é a de tirar de si parte do enorme peso do sentimento de responsabilidade pelo seu estado, atribuindo a sua fraqueza à possessão do Eros:


"(...) Uma vida de autodomínio e obstinação, uma vida áspera, perseverante e comedida, que ele transformara em símbolo de um heroísmo delicado e apropriado à época - poderia bem chamá-la viril, corajosa, e queria parecer-lhe que o Eros que se apoderara dele era de algum modo especialmente conforme e propenso a uma vida assim. Não merecera ele destaque entre os povos mais corajosos, não se dizia que fora graças à bravura que ele florescera em suas cidades? Inúmeros heróis da Antiguidade aceitaram voluntariamente seu jugo, pois nenhuma humilhação era considerada como tal, quando imposta pelo deus, e atos que seriam reprovados como sinal de covardia se praticados com qualquer outra finalidade (...) não constituíam vergonha para o amante; ao contrário, ainda lhe valiam louvores."

Essa forma de pensamento foge da nossa concepção atual, kantiana e relativamente recente de que o ser humano é o seu melhor quando é assume a total responsabilidade por todas as suas ações. Ao contrário, sua abordagem, de transferir a responsabilidade da sua condição ao desígnio dos deuses, é análoga à usada frequentemente por Homero na Ilíada e na Odisseia, o que explica e confirma esta referência aos "heróis da Antiguidade" e reforça influência grega no texto.

Sobre esse aspecto da relação entre Homero e a noção de responsabilidade, recomendo a ótima entrevista do professor Sean Kelly, do Departamento de Filosofia da Universidade de Harvard ao programa Philosophy Bites, disponível em:
 http://philosophybites.com/2011/11/sean-kelly-on-homer-on-philosophy.html.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Fugindo do tema

Fui a um casamento de amigos no último dia 12. Foi uma cerimônia pequena, com poucos convidados, mas foi uma das mais emocionantes a que tive o prazer de assistir. Foi encerrada com uma oração de consagração, lida em voz alta pelos noivos, juntos. Gostei muito, pedi a eles que me enviassem e quero compartilhá-la aqui:

Consagración al Corazón de Jesús

Reina del Cielo, mi dulce madre Maria, nosotros, aunque débiles e indignos, pero animados por la amorosa invitación del Sagrado Corazón de Jesús, deseamos consagrarnos enteramente a EL.

Deseamos ofrecerte todo a través de Tu Inmaculado Corazón, y con una confianza de niño en tus cuidados, esperamos que nos ayudes a cumplir con nuestro propósito.

Sagrado Corazón de Jesús, Rey de bondad y de amor,
Libres y con todo el corazón, aceptamos este dulce pacto,
de cuidar Tú de mí, y yo de Ti.
Deseamos que todo lo nuestro sea tuyo 
y lo ponemos en tus manos:
Nuestra alma, nuestra salvación eterna,
Nuestra libertad, nuestro progreso espiritual,
Nuestra vida, nuestra salud, nuestra familia, nuestras posesiones,
Nuestro trabajo y cualquier obra buena que podamos realizar,
para que Tu dispongas de todo según tu voluntad.

Haremos lo mejor que podamos en estos asuntos, pero permaneceremos contentos con lo que tu amante corazón decida para nosotros.

En cambio, te pedimos que el tiempo que nos resta no sea desperdiciado.

Queremos hacer algo importante para ayudarte a reinar en el mundo, por medio de nuestras oraciones, trabajo diario, sufrimientos y actos de abnegación.

Que todo lo que hagamos en cada momento de nuestra vida, pueda ser utilizado para establecer tu divino reinado.

Que mis últimas palabras y mis últimas fuerzas sean palabras de amor,
Sean entrega generosa a tu sacratísimo corazón,
Amen, Amen

Foi um privilégio comparecer a este casamento. Em um tempo, como diz Oscar Wilde, em que as pessoas sabem o preço de tudo, mas o valor de nada, foi um prazer poder participar de uma cerimônia de onde todos, certamente, saímos pessoas melhores.

sábado, 12 de novembro de 2011

A Revolta de Atlas

No ano passado eu li uma crítica curiosa do Sérgio Augusto no Estadão sobre o livro "A Revolta de Atlas" de Ayn Rand (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,os-titas-da-america,622626,0.html). A posição dele com relação ao livro fica bem clara no texto, mas pode ser resumida na frase:

" De todo modo, eu me pergunto: quem irá comprar e ler por inteiro A Revolta de Atlas?"

 


Ayn Rand é o pseudônimo da escritora e filósofa Alissa Zinovievna Rosenbaum, nascida na Rússia em 1905 e uma defensora do Objetivismo. Se você não faz ideia do que seja Objetivismo (assim como eu também não fazia), tem duas opções: ler "A Revolta de Atlas" ou ler o resumo da ética objetivista abaixo. Sim, eu peguei na Wikipedia, mas que posso garantir que resume bem os princípios apresentados no livro:

"O ser humano, cada um, é um fim em si mesmo e não um meio para o fim de outros humanos. Deve existir em função de seus póprios propósitos, não se sacrificando por outros nem sacrificando outros por ele.
  • A primeira escolha de todo ser é a existência ou a não-existência e, por isto, a vida do ser humano é o seu padrão moral de vida. Sem ela, nenhum outro valor é possível.
  • A racionalidade é a maior virtude; todas as outras derivam dela.
  • Outras virtudes: produtividade, justiça, orgulho, independência, integridade, honestidade, benevolência."

É uma filosofia, no mínimo, diferente do que se costuma discutir hoje em dia e o livro foi um tremendo best-seller nos EUA. Também foi o caso de seu outro livro: "A Nascente" , que segundo Lisa Simpson, é "a bíblia dos perdedores de direita" - veja em http://www.youtube.com/watch?v=legAtFan7DI).

Bom, mas com tanta gente cornetando, resolvi encarar. São 1.231 páginas em 3 volumes e não é lá o livro mais divertido do mundo, mas queria saber porque atraía raiva e comentários ácidos.

A história se passa numa distopia em uma época indefinida, próxima dos anos 50, em que os EUA e todas as demais nações do mundo estão controladas por governos socialistas (repúblicas populares, na terminologia do livro) e que a economia mundial está indo pelo ralo. Os governos corruptos, formados por pessoas medíocres, intervém em tudo e cavam buracos cada vez mais fundos, com políticas populistas e assistencialistas. Neste contexto, os principais industriais, artistas, cientistas e empresários (os "Atlas" do título), começam a se rebelar e desaparecer sem deixar pistas, largando seus trabalhos e negócios para trás, para serem geridos por quem quiser assumi-los, da forma que acharem melhor.

É este movimento que explica a metáfora do título original do livro "Atlas Shrugged": os que carregam o mundo nas costas resolvem "dar de ombros" e se mandam.

É um livro radical de direita mesmo, com diversos conceitos que soam totalmente bizarros hoje em dia, mas com alguns que são bastante pertinentes e racionais. Está longe de ser uma obra inútil como eu havia sido induzido a imaginar e leva a várias reflexões interessantes, especialmente no que se refere ao conflito entre o Estado e a iniciativa privada, como ressaltado pelo Sr. Jorge Gerdau Johannpeter em seu comentário na primeira página.

Vão abaixo alguns trechos que selecionei:

- Sobre a corrupção: "Observe o dinheiro: ele é o barômetro da virtude uma sociedade. Quando há comércio não por consentimento, mas por compulsão, quando para se produzir é necessário pedir permissão a homens que nada produzem - quando o dinheiro flui para aqueles que não vendem produtos, mas têm influência -, quando os homens enriquecem mais pelo suborno e pelos favores do que pelo trabalho, e as leis não protegem quem produz de quem rouba, mas quem rouba de quem produz - quando a corrupção é recompensada e a honestidade vira sacrifício -, pode ter certeza de que a sociedade está condenada."

- Sobre governantes e leis (em um diálogo entre um burocrata corrupto e um empresário honesto, durante uma chantagem): "- O senhor realmente pensava que a gente queria que essas leis fossem observadas? (...) Nós QUEREMOS que sejam desrespeitadas. É melhor o senhor entender direitinho que não somos escoteiros, não vivemos numa época de gestos nobres. Queremos é poder e estamos jogando para valer. Vocês estão jogando de brincadeira, mas nós sabemos como é que se joga o jogo, e é melhor o senhor aprender. É impossível governar homens honestos. O único poder que qualquer governo tem é o de reprimir criminosos. Bem, então, se não temos criminosos o bastante, o jeito é criá-los. E fazer leis que proíbem tanta coisa que se torna impossível viver sem violar alguma. Quem vai querer um país cheio de cidadãos que respeitam as leis? O que se vai ganhar com isso? Mas basta criar leis que não podem ser cumpridas nem objetivamente interpretadas, leis que é impossível fazer com que sejam cumpridas a rigor, e pronto! Temos um país repleto de pessoas que violam a lei, e então é só faturar em cima dos culpados. O sistema é esse, Sr. Rearden, são essas as regras do jogo. E, assim que aprendê-las, vai ser muito mais fácil lidar com o senhor."

Esclarecedor, não?

- Sobre a "luta de classes": "Quando vocês trabalham numa fábrica moderna, são pagos não apenas pelo seu trabalho, mas também por toda a genialidade produtiva que tornou possível aquela fábrica: pelo trabalho do industrial que a construiu, pelo do investidor que economizou dinheiro para arriscá-lo num empreendimento novo, pelo do engenheiro que projetou as máquinas que vocês estão operando, pelo do inventor que criou o bem que vocês produzem no seu trabalho, pelo do cientista que descobriu as leis envolvidas na produção desse bem, pelo do filósofo que ensinou os homens a pensar - por tudo aquilo que vocês vivem criticando."

- Sobre a humildade: "Joguem fora os trapos que protegem o vício a que vocês chamam virtude: a humildade. Aprendam a valorizar-se a si próprios, ou seja, a lutar pela sua felicidade. E, quando tiverem aprendido que o ORGULHO é a soma de todas as virtudes, vocês aprenderão a viver como homens."

- Sobre o amor: "O homem que está convicto de seu próprio valor e dele se orgulha há de querer o tipo mais elevado de mulher possível, a mulher que ele admira, a mais forte, a mais difícil de conquistar, porque somente a posse de uma heroína lhe dará a consciência de ter realizado algo, não apenas de ter possuído uma vagabunda desprovida de inteligência".

Eu poderia colocar mais alguns trechos aqui, mas acredito que já tenha sido possível apresentar as linhas gerais do texto com estes. É um livro bem estranho e muito difícil decidir se recomendo ou não. Tem um enredo até interessante. Com personagens caricatos ao extremo e com muitos trechos difíceis de engolir, é verdade. Mas não deixa de ser interessante.

E se você acha que estou exagerando com "trechos duros de engolir", veja a descrição bisonha de um dos personagens principais:

"Olhava para o rosto de um homem que se ajoelhara a seu lado e sabia que, em todos aqueles anos, era isto que teria dado sua vida para ver: um rosto sem sinal de dor, nem medo nem, culpa. Na forma de sua boca havia orgulho, e mais: era como se ele se orgulhasse de ser orgulhoso. As linhas angulosas de suas faces a faziam pensar em arrogância, tensão, zombaria. No entanto, o rosto não exprimia nada disso, apenas o produto final desses fatores: um olhar de determinação serena e de certeza, de uma inocência implacável, que jamais pediria nem concederia perdão. (...) Sua pele estava queimada de sol e em seu corpo havia a dureza, a força esguia e elástica e a precisão limpa de uma fundição, como se ele fosse de metal fundido, porém um metal de brilho fraco, como uma liga de cobre e alumínio."

É de doer, não é? Às vezes dá a impressão de que a Sra. Rand devia ser doida de pedra. Mas se você tiver paciência e souber pular esses pedaços, acho que posso, sim, recomendar. Mas não venha reclamar depois. Você já sabe no que está se metendo.

sábado, 8 de outubro de 2011

Thanks, Steve!

No dia 25 de dezembro de 1985 meu presente foi uma caixa de papelão ondulado com uma maçã impressa e um Apple II+ (http://pt.wikipedia.org/wiki/Apple_II%2B) dentro. Naquela época, tempo da reserva de informática no Brasil, o Apple II+ era fabricado aqui mesmo, pela Milmar em Manaus, no caso do meu. Havia também produção do Apple IIe pela Microdigital e recebia o nome de TK-3000 (http://pt.wikipedia.org/wiki/TK3000_IIe), mas que era bem mais difundido.

A primeira lembrança que eu tenho de quando o tirei da caixa foi a seguinte: “Onde é que eu vou ligar essa porcaria de tomada de 3 pinos?”. Dá para imaginar a frustração, especialmente por ser Natal e estar tudo fechado em São Paulo. Mas como criança nasce sabendo que pentelhar bastante os pais resolve qualquer parada, convenci o meu a atravessar a cidade até o consultório dentário da minha mãe para desmontar uma das tomadas 220V dela e instalá-la no meu quarto.

Ato contínuo, o computador foi ligado e a paixão começou. O Apple era ligado a uma TV branco-e-preta de 14” de válvula, que levava cerca de um minuto para esquentar e começar a exibir imagens (se bem que, mesmo assim, ainda era mais rápido de ligar do que o PC com Windows 7 que uso agora).

Passei as primeiras semanas de 1986 destrinchando o manual e digitando os programas de exemplo em Basic que vinham com ele. Como não tinha um drive de floppy, tentei usar um rádio-gravador Sharp mono ligado na entrada e saída de áudio do Apple para poder gravar os programas, mas a qualidade do gravador e do cabo eram péssimas, nunca chegou a funcionar.

As coisas melhoraram quando ganhei, uns meses depois, um gravadorzinho especial para computadores que a Gradiente produzia para a linha MSX deles (Lembra dos Expert e Hot-bit?). Com ele já conseguia gravar os programas em fita e também pude começar a comprar algumas da Engesoft, com programas mais sofisticados já prontos.

Em novembro de 86, quando fiz 12 anos, ganhei uma caixa prata enorme da Elebra. O que tinha dentro? Um drive de floppy 5 1/4" modelo Horácio, com a placa de interface. Era um treco grande, barulhento, lento, que só lia uma face do disco, mas que funcionava bem demais e nunca me deixou na mão. Infelizmente, eu fiz a besteira de trocar uns anos depois por um modelo slim da Unitron usado, que era bem mais silencioso e lia as duas faces, mas que tinha um problema na porta e vivia falhando. Tinha, não. Tem. E vivia, não. Vive. Se arrependimento matasse...

Em 87 um dos meus amigos usuários de Apple mudou para os EUA e me vendeu sua impressora matricial Epson LX-800 antes de viajar. Se o Horácio era barulhento, a Epson era trezentas vezes pior, mas para mim era um show. Imprimia de tudo: de trabalho de escola até anúncio de bailinho no condomínio. Feito com Print Shop e impresso em papel colorido, está pensando o quê?

Eu era fissurado: comprava as revistas importadas sobre os computadores da Apple (lia Nibble, InCider, A+); comprava as Input brasileiras e xingava porque quase tudo era para TK; comprava livros de Visicalc, Basic, Logo e programação de jogos; e cheguei ao fundo do poço quando comprei um software de programação Assembly chamado LISA e um livro sobre Assembly para o 6502.

Em 89 a coisa mudou. Comprei um PC-XT usado e o Apple foi para o armário, de onde só sai em ocasiões especiais. Como fez na quarta-feira passada, dia 05 de outubro de 2011, para tirar sua última fotografia. O dia em que finalmente entendi como foi, para a geração de meus pais, perder John Lennon.



domingo, 28 de agosto de 2011

O argumento da simulação

Na última quinta-feira eu voltei para casa ouvindo uma entrevista de um professor da faculdade de filosofia de Oxford, Nick Bostrom, sobre um de seus artigos: "Are you living in a computer simulation?", publicado originalmente em Philosophical Quaterly (2003) Vol. 53, No. 211. A entrevista foi curta, mas muito boa e acabei baixando e lendo o artigo original.

O que segue é um resumo das ideias apresentadas no artigo, sendo que devo esclarecer que o crédito por tudo que for apresentado a partir do próximo parágrafo é do Sr. Bostrom, numa tradução livre minha. Devo também esclarecer que, ao contrário do que possa aparentar, eu não estou maluco o suficiente para acreditar na hipótese proposta (nem o Sr. Bostrom, como deixou claro na entrevista), mas é um exercício interessante e traz algumas conseqüências e deduções não-triviais que valem a leitura.

A argumentação do artigo é a de que pelo menos uma das três proposições a seguir é verdade: (1) a espécie humana tem uma alta probabilidade de ser extinta antes de atingir um estágio "pós-humano" de evolução (não se aflija; o termo "pós-humano" será explicado a seguir); (2) qualquer civilização pós-humana apresenta uma probabilidade extremamente baixa de executar simulações computacionais de sua história evolutiva ou variantes; (3) é quase certo que nós estamos vivendo em uma simulação computacional.

Para efeito do artigo, o estágio pós-humano de civilização é aquele em que a humanidade já terá adquirido a maior parte das capacidades tecnológicas que seriam possíveis de se obter dentro das limitações das leis da física, da disponibilidade de materiais e da disponibilidade de energia a que está sujeita.

Existem pelo menos duas premissas básicas que precisam ser aceitas para que a discussão possa se desenvolver: a primeira é a da "independência de substrato", que é o conceito comumente aceito na filosofia da mente (não sem deixar de gerar alguma controvérsia), que propõe que estados mentais conscientes poderiam emergir em um grupo amplo de substratos além das redes neurais naturais do cérebro, como, por exemplo, em sistemas computacionais suficientemente complexos.

A segunda é de que, apesar de atualmente não dispormos de hardware ou software suficientemente poderosos para possibilitar a criação de mentes conscientes em computadores, há argumentos bastante persuasivos de que se o progresso tecnológico continuar, estas limitações serão eventualmente superadas (e assim estarão no estágio pós-humano de evolução). O artigo apresenta uma estimativa detalhada da capacidade de processamento necessária para se rodar uma simulação realista de toda a história mental da humanidade (ao que chama de "simulação de ancestrais") e conclui que esta capacidade de processamento estará eventualmente disponível, mesmo com base apenas no que nós já sabemos sobre projetos com nanotecnologia. Uma civilização pós-humana poderia, portanto, construir um número muito grande destes computadores e estaria a seu alcance rodar simulações de ancestrais consumindo uma parcela bastante pequena dos recursos computacionais à sua disposição.

Consideradas estas duas premissas, podemos passar agora ao núcleo da argumentação do artigo: Se há uma chance considerável de que nossa civilização um dia atingirá o estágio pós-humano e rodará simulações de ancestrais, você não estaria vivendo em uma destas simulações? Esta ideia foi desenvolvida com base na argumentação abaixo:
Considerando-se que (desculpem pela notação pouco rigorosa, mas estou redigindo em html puro e não sei como conseguir subscritos, sobrescritos, etc.):

Fp = Fração de todas as civilizações tecnológicas do nível da humanidade que sobrevivem o suficiente para chegar a um estágio pós-humano;

N = Número médio de simulações de ancestrais executadas por uma civilização pós-humana;

H = Número médio de indivíduos reais que viveram em uma civilização antes dela atingir o estágio pós-humano (ou seja, o número de ancestrais);

Teríamos que a fração de observadores simulados (Fsim) com experiências humanas que vivem em simulações é igual a:

Fsim = (Fp * N * H) / [(Fp * N * H) + H]

Utilizando-se agora Fi para indicar a fração de civilizações pós-humanas que estariam efetivamente interessadas em rodar simulações de ancestrais (ou que contenham pelo menos alguns indivíduos interessados e com recursos suficientes para rodar um número significativo destas simulações), e Ni para o número médio de simulações rodadas por estas civilizações, teríamos:

N = Ni * Fi

Fsim = (Fp * Ni * Fi * H) / [( Fp * Ni * Fi * H) + H)]

e portanto:

Fsim = (Fp * Ni * Fi) / [( Fp * Ni * Fi) + 1)]

Ou seja, pelo menos uma das três proposições deve ser verdade:

(1) Fp = 0 (a notação correta é "aproximadamente igual a 0")
(2) Fi = 0 (a notação correta é "aproximadamente igual a 0")
(3) Fsim = 1 (a notação correta é "aproximadamente igual a 1")

Como pode-se ver, estas três possibilidades correspondem às três proposições iniciais do artigo. Vamos avaliar, portanto, o que significariam cada uma delas:

Se (1) for verdade, significa que a humanidade seria muito provavelmente extinta antes de atingir o estágio de desenvolvimento pós-humano (o que, me parece, pode efetivamente acontecer ).

Para que (2) seja verdade, é necessário que haja uma enorme convergência no curso da história de civilizações avançadas que as levem a não se interessar absolutamente por estas simulações, ou bani-las, por exemplo por razões éticas ou morais.

Já a proposição (3) é a mais intrigante e perturbadora, pois, se verdadeira, implicaria que a chance de você ser um ser humano simulado em uma simulação de ancestrais seria de praticamente 100%, com todas as demais conseqüências:

- A física do universo em que o computador rodando a simulação se situa pode ser ou não ser análoga à do mundo que observamos;

- Apesar de percebermos o mundo como "real", ele não estaria localizado no nível fundamental de realidade;

- Seria possível para uma sociedade simulada se tornar pós-humana? Se sim, o computador rodando a simulação original teria capacidade para empilhar uma segunda ou terceira camadas de simulação ou o programa precisaria ser encerrado antes deste estágio ser atingido? (afinal a necessidade de processamento cresceria exponencialmente para se simular uma civilização pós-humana);

- No caso de sua morte dentro da simulação, a sua consciência poderia ser transferida para uma nova simulação, não poderia? Vida após a morte?

- Os indivíduos executando a simulação teriam onisciência e onipotência sobre ela e seriam capazes de intervir recompensando ou punindo comportamentos, talvez com base em critérios morais. Em função da incerteza fundamental que permeia o pensamento desenvolvido neste artigo, mesmo a civilização-base original teria então razões para se comportar eticamente. O fato de que haveria uma razão forte como esta para o comportamento moral poderia, portanto, gerar um círculo virtuoso e, em última instância, uma espécie de imperativo moral universal.

Devidamente compreendida, portanto, a possibilidade de (3) ser verdade não deveria nos fazer "ficar malucos" ou largar nossos trabalhos e planos para o futuro. A principal importância empírica de (3) parece estar no seu papel quando consideradas as outras duas alternativas. Podemos esperar que (3) seja verdade, pois reduziria a possibilidade de (1), mas, como as restrições computacionais fazem com que seja provável que uma simulação seja abortada antes de atingir o estágio pós-humano, nossa melhor esperança seria de que (2) seja a hipótese verdadeira.

De qualquer modo, a não ser que nós estejamos realmente vivendo em uma simulação, nossos descendentes quase que certamente jamais rodarão uma simulação de ancestrais.

Alguns links sobre o assunto:

Nick Bostrom: http://www.nickbostrom.com/

Artigo "Are you linving in a computer simulation?": http://www.simulation-argument.com/

Entrevista (disponível em mp3): http://philosophybites.com/2011/08/nick-bostrom-on-the-simulation-argument.html

Finalmente, se você gostou deste texto, dê uma olhada no que escrevi sobre a hipótese de Boltzmann em: http://paginaemblanco.blogspot.com/2009/07/boltzmann-e-dilbert.html

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Dia dos Pais

Mais uma vez o presentinho do Leo de Dia dos Pais prova que ele está no caminho certo para ser o novo Leonardo da Vinci:



Bom, o desenho pode não estar lá uma Mona Lisa, mas que ele escreve ao contrário como o da Vinci, isso escreve!

Feliz dia dos Pais (atrasado)!

sábado, 6 de agosto de 2011

O horror! O horror! Coração das Trevas e Apocalypse Now

"Coração das Trevas" (Heart of Darkness), de Joseph Conrad é um livro publicado originalmente em 1902, que narra a viagem de Marlow, um marinheiro inglês, por volta de 1890 no Congo Belga, em busca de um negociante de marfim chamado Kurtz. Apesar de continuar mandando grandes remessas de marfim regularmente, Kurtz está há tempo demais sem contato com a sua empresa contratante e Marlow comanda um barco a vapor pelo Rio Congo, a sua procura. Em boa parte, o livro é uma versão paralela de uma viagem que o próprio Conrad (que era marinheiro), fez pelo mesmo rio.



É um clássico que eu nunca havia lido antes, mas que peguei durante uma semana de férias em julho. Basta dizer que é fantástico. Está dividido em 3 partes, sendo que na primeira Marlow conta como foi contratado pela companhia para ser capitão de um barco a vapor no Rio Congo e seus primeiros meses na África; a segunda narra sua viagem complicada pelo rio até chegar à base de Kurtz; e a terceira finalmente descreve seu encontro com ele.

Visto apenas como uma narração de viagem, o texto já é espetacular, mas é a forma como evolui e como os personagens vão mudando ao longo da estória, bem como as questões éticas e morais envolvidas que fazem com que seja realmente excepcional. Imagine um sonho, em que as seus sentidos e percepções começam normais e aos poucos vão perdendo a lógica e a coerência (inclusive temporal), até que evolui para um pesadelo surreal. É mais ou menos esta a sensação que tive ao ler "Coração das Trevas".

O final do livro, em especial o encontro de Marlow com Kurtz, me deixou com uma sensação estranha de já ter visto a cena em algum lugar e aos poucos fui associando com o final de "Apocalypse Now". Bom, a Blockbuster não tinha o filme para alugar, então comprei uma cópia. Vou reproduzir aqui a sinopse da caixa:

"A história se passa em 1969 e acompanha a viagem do capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) rumo ao universo paralelo e perturbador do coronel Walter Kurtz (Marlon Brando) (...)"

Kurtz e Kurtz? Dãã. E eu achando que tinha feito uma associação muito esperta. Mas continuei:

"(...) Baseado no livro de Joseph Conrad, Heart of Darkness, Apocalypse Now explora a insensatez, a insanidade, e o dilema moral da Guerra do Vietnã".

Ou seja, descobri o óbvio que todo mundo já sabia: Coppola fez uma versão do livro para o cinema. Pelo menos eu tenho a desculpa de que só tinha 5 anos quando o filme foi lançado, então não era obrigado a saber. Mas resolvi assistir a "Apocalypse Now" de novo, para comparar. O paralelo é nítido:

O choque de duas culturas diferentes; a dificuldade de Willard, assim como de Marlow em fazer o seu trabalho em um lugar em que ninguém parece levar nada a sério; a óbvia viagem por um rio numa selva hostil; o ataque com flechas aos barcos de ambos; o Arlequim; as cabeças; o horror.

Não vou entrar nos detalhes para não estragar o livro ou o filme para quem não viu, mas várias das falas são exatamente as mesmas e a semelhança deixa a experiência de ver o filme logo após a leitura do livro muito interessante.

Assim como dizer que "Coração das Trevas" é ótimo, elogiar "Apocalypse Now" é chover no molhado, mas a idéia de Coppola de pegar o livro e adaptar desta forma é uma prova de genialidade e merece os aplausos, Oscars e a Palma de Ouro que recebeu. Mesmo as cenas que não têm equivalência com passagens do livro são sensacionais, como o ataque de helicópteros ao som de "Cavalgada das Valquírias" ou a do encontro com o tigre. Difícil dizer o que é melhor: o livro ou o filme.

Fica a recomendação para a leitura de "Coração das Trevas", mas não deixe de ver "Apocalipse Now" logo em seguida. A experiência é única. E um desafio: veja se consegue identificar Harrison Ford e Laurence Fishburne no filme.